Poderia Me Perdoar? | Crítica | Can You Ever Forgive Me?, 2018

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Filament.io Made with Flare More Info 0 Flares ×

Em Poderia Me Perdoar?, temos um relato com drama, comédia e investigação jogando uma luz sobre o que era ser homossexual nos anos 1990.

Existe uma falácia perpetuada em vários níveis que quando você critica alguém, isso a motiva. Pode ser uma pessoa obesa ouvindo que ela está gorda, um soldado que errou uma manobra e é repreendido por seu superior ou, como no caso de Poderia Me Perdoar?, uma escritora que não é sociável e não precisa de ajuda. Apesar do clima de comédia permear o filme, é triste constar como a personagem se deixou levar ao pior de sua existência, tendo que recorrer ao crime para simplesmente existir. No começo dos anos 1990, onde ser homossexual era visto de maneira pior – não que seja muito mais fácil hoje em dia -, a diretora abre um leque para nos perguntamos o que os párias da nossa sociedade precisam fazer para serem simplesmente ouvidos.

Isso não significa que Heller mostre a escritora Lee Israel (McCarthy) como alguém que deveria ser perdoada, como o título evoca. Mas sim, sentimos pena dessa personagem que mora num apartamento onde ninguém quer pôr os pés, além da gata da escritora, um lugar onde até as moscas morrem. E ao invés de julgar a personagem, Heller prefere mostrar como ela julgada pelos outros, seja por seu problema com bebidas, seu comportamento autodestrutivo ou o fato de não escrever coisas mais palatáveis. A história deixa bem claro algo que parecemos esquecer: se Lee fosse um homem heterossexual, ela não passaria pela necessidade de cometer pequenos furtos para sobreviver – quão baixo uma pessoa pode ir além de furtar alguns rolos de papel higiênico?

Quebrada, sem emprego e vivendo numa cidade grosseira como Nova York, é nos excluídos que ela encontra algum alento. Pessoas como Jack Hock (Grant), também homossexual, ambos perdidos nessa cidade suja que, à margem da sociedade, se encontram em situações extremas. Mesmo que Jack seja orgulhoso a ponto de não admitir para Lee que nem mesmo tem um teto, entendemos como esses personagens resolveram se apoiar, mais por necessidade do que afinidade. Durante as risadas que damos quando os dois começam suas condenáveis contravenções, nos perguntamos em que momento eles se tornaram tão duros quanto essa cidade.

Podemos começar imaginando o que era se assumir gay nos 1990. Então, entramos em outra camada da história, onde a protagonista – que é a própria biografada – nos pergunta, indiretamente, o que é mais importante, palavras ou sucesso. Lee é taxada pela empresária, que deveria cuidar da carreira dela, que ela tem problemas com pessoas, com compromissos e outras características tradicionais de famosos. Hoje vivemos num mundo de influenciadores digitais, pessoas que, na maioria das vezes cria caso por simplesmente ser tudo contra o que está aí. Ao mesmo tempo que Heller nunca afirme que Lee era uma escritora genial, ela acredita, e por isso conta a história da controversa figura, que ela está nesse buraco por não ter mais chances.

A saída para Lee então é uma transformação, uma mentira diferente do que sua empresária sugeriu. Ao invés de ser uma voz, ela se tornou várias ao incorporar tantos escritoras escriotes famosos. Como um tipo de incorporação de palavras, Lee mostra sua capacidade inventiva e se veste com esses espíritos, não de maneira metafísica, encarnando roubos dentro de si. Por isso a diretora faz que as cartas, tanto as verdadeiras quantas as falsas, sejam ouvidas por nós na voz dela. É um crédito à autora, ainda que a maneira que resolveu ganhar a vida seja questionável, no mínimo. O que acontece é que Lee é uma figura complexa e que provavelmente passou por mais perrengues do que a maioria das pessoas que estarão na sala assistindo ao filme.

Em nome do dinamismo, Heller não foca na vida pregressa de Lee – apesar de pescarmos algumas coisas em alguns diálogos – e não sabemos exatamente quando ela se fechou para a vida lá fora. Isso é mostrado de maneira bem emblemática quando Jack visita o apartamento da amiga pela primeira vez e, finalmente, temos a perspectiva de alguém de fora, algo que até então não tinha sido compartilhado conosco porque a Lee não permitia. Somente quando Jack abre a porta que descobrimos o motivo de nem mesmos as moscas suportam viver ali. Lee se fechou em algum covil e começou a acreditar que era um nada e, sem ajuda ou amor, por mais que também seja culpa dela, se afundou nessa existência apagada.

Para deixar a experiência mais interessante, Heller usa tanto da comédia quanto da doçura para melhorar seu drama. Com certeza as maquinações de Lee e Jack trazem riso e torcemos para que a escritora saia da sua concha quando ela conhece a livreira Anna (Wells), alguém com quem ela poderia se relacionar. São em momentos como esse que a diretora nos pega por um laço e puxa a audiência de novo para o drama dessa mulher que não sabe como se abrir e, de certa maneira, quer proteger alguém que começou a gostar de sua vida criminosa. É tocante e triste a cena que as duas saem de um jantar e Lee, num misto de vergonha e medo, se afasta lentamente de Anna, voltando à persona de sempre.

Há algo de fantástico na narrativa, como a sorte de Lee encontrar duas cartas verdadeiras antes de se envolver com a arte da falsificação – um momento que mostra que a fortuna favorece os ousados, pois ela escreve sobre alguém que ninguém quer ler – ou o FBI parecer mais paspalho que estamos acostumados em outros filmes de crime, mas são essas coisas que tornam a experiência de assistir ao filme de Heller mais interessante. A narrativa em si já é insólita por si só, e tais momentos reforçam esse tanto de loucura que é acompanhar os crimes da personagem principal.

E dentro de um mundo cinematográfico onde normalmente os personagens evoluem, passando por uma curva de aprendizagem, Lee não faz isso em Poderia Me Perdoar?. Apesar do título, Lee começa e termina, como o próprio Jack diz, um ser pavoroso. Mas, orgulhosamente, ela continua assim, acreditando que não precisava se moldar numa sociedade que nunca a aceitou como é. Isso não passa por sua sexualidade, mas pelo modo de se vestir, falar e até seus problemas com bebida, características muito perdoáveis quando estamos falando de um escritor. Então, apesar desse filme poder se enquadrado na categoria crime, é uma obra mais sobre seu perpetuador do que os atos em si. O que faz com que Lee seja observada como o que é: um ser humano, mesmo que com mais defeitos a qualidades.

Poderia Me Perdoar? concorre aos Oscars 2019 nas categorias Melhor atriz, Melhor atriz coadjuvante e Melhor roteiro adaptado.

[críticas, comentários e voadoras no baço]
• email: contato@umtigrenocinema.com
• twitter: @tigrenocinema
• fan page facebook: http://www.facebook.com/umtigrenocinema
• grupo no facebook: https://www.facebook.com/groups/umtigrenocinema/
• Google Plus: https://www.google.com/+Umtigrenocinemacom
• Instagram: http://instagram/umtigrenocinema
Assine a nossa newsletter!

Apoie o nosso trabalho!

http://www.patreon.com/tigrenocinema

OU

Agora, você não precisa mais de cartão internacional!

Volte para a HOME

Share this Post

About TIAGO

TIAGO LIRA | Criador do site, UX Designer por profissão, cinéfilo por paixão. Seus filmes preferidos são "2001: Uma Odisseia no Espaço", "Era uma Vez no Oeste", "Blade Runner", "O Império Contra-Ataca" e "Solaris".