Batman • Crítica (The Batman, 2022)

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8 de 10 - "um Tigre no cinema"

Mesmo com seus exagerados 155 minutos, Batman tem tudo para agradar uma variedade de fãs. Os mais acostumados com a versão sherlockiana de capa finalmente têm a oportunidade de ver no cinema essa faceta do personagem. E aqueles que buscam a versão com mais socos, perseguição de carros e explosões de carro também sairão satisfeitos. Esse novo Batman ainda é inexperiente, o que não desculpa algumas das decisões do personagem como a de não ligar para um celular ou a de aceitar tão facilmente a história de um criminoso, mas é uma maravilhosa adição ao bat-verso.


Batman Vive

O Batman de Reeves não tem um subtítulo, apenas o artigo “The” – retirado da versão nacional por questões mais estéticas do que gramaticais –, mas poderia ser chamada de Batman Vive. Sem a intenção de reinventar a roda, o diretor que ajudou a reinventar Planeta dos Macacos busca inspiração em momentos dos quadrinhos para trazer a de volta a faceta mais importante do personagem-título, negligenciada por anos nas versões cinematográficas, tanto nas abordagens de Tim Burton, Christopher Nolan ou de Zack Snyder; e digo isso sem nenhum juízo de valor dessas obras.

Batman é, antes de tudo, um detetive. E graças a quem quer que seja, esse filme não é outra uma história de origem, pelo menos não a de Batman/Bruce Wayne (Pattinson), o que deixa uma abertura para que as histórias de Selina Kyle (Kravitz) e do Charada (Dano) sejam contadas. O filme conta sequer com os tradicionais flashbacks ou sonhos que Bruce tem com morcegos invadindo sua mansão ou vida. Podemos chamar isso de mapa mental, com Reeves se levando da vantagem que, dificilmente, alguém que entra no cinema desconhece como um garoto perdeu os pais e quis fazer parte da noite de Gotham. Ou ser A Noite.

Na verdade, Reeves dispensa toda a narrativa que poderia ser quebrada com o uso de flashbacks. Ao invés disso, ele conta a história pregressa do trio Bruce-Selina-Charada por meio de gravações em vídeo e áudio ou conversas. Sei que é um termo que deve ser usado com cautela num universo onde uma pessoa claramente perturbada se fantasia para buscar justiça num mundo torpe, mas esse é o filme mais pé-no-chão do Batman desde sempre, praticamente. O que não quer dizer que seja melhor ou pior que as abordagens feitas desde o começo dos anos 1990. É só diferente.

Todos usamos máscaras

Porém, notem que quando menciono um personagem fantasiado, não indico se estou falando do Batman ou do Charada. Essa é a parte que Reeves se supera, indo além da camada dos coices que o personagem dá, mostrando que Bruce vive num mundo de dualidades. A questão que o diretor aborda é se, afinal de contas, um Coringa ou um Edward E. Nigma existiriam num mundo sem um Batman. Essa questão será abordada depois, mas é aí que o vilão da história pega seu personagem para mostrar que, no fim das contas, suas máscaras não são diferentes assim. Já foi abordado outras vezes, sim, mas não com um antagonista a altura.

Existem, porém, motivos diferentes para cada ter suas máscaras. Selina usa uma pura e simplesmente para disfarçar sua identidade, ainda que a figurinista Jacqueline Durran tenha feito uma piada visual puxando duas orelhas no capuz da dançarina. Oswald Cobblepot/Pinguim (Farell) usa a de homem de negócios no seu clube em cima do real negócio, o de traficante de drogas. Até mesmo o Tenente Gordon (Wright), a pessoa mais honesta do filme ao lado de Alfred (Serkis), usa o DPGC como máscara para esconder o que ele sabe no fundo ser verdade, que mesmo o lugar que ele ama é suscetível à corrupção.

Dentro dos coadjuvantes, a melhor máscara é a de Carmine Falcone (Tuturro). Ele não apenas usa óculos escuros o tempo todo, o que faz parecer menos digno de confiança porque nunca olhamos diretamente nos seus olhos – até mesmo o Batman tem os olhos descobertos – mas usa tanto o Pinguim e o seu estabelecimento oficial, o bar onde Selina trabalha, quanto a política de Gotham para manter seu trono. Ainda assim, nenhum deles se comparam a Bruce e o Charada, que escolher personas para seus atos. Bruce pelo trauma, sim, e o Charada que vem trazer dor, ainda para quem merece no seu ponto de vista, e que parece ter saído de uma sessão de BDSM.

Olhe pelos meus olhos

O que nos leva a algumas decisões de câmera do diretor. A primeira cena que nos encontramos dentro do filme é do Charada observando a sua primeira vítima, através de binóculos. Sua respiração densa mostra o seu desejo (de matar), num pacote profano embalado por uma música sacra, a Ave Maria de Scuhbert. Um pouco mais a frente, é Bruce que observa Selina com um diferente tipo de desejo (eros), já que o interesse detetivesco dele era saber quem é a amiga – ou amante – que divide o pequeno apartamento com ela.

Diferente de usar músicas do Nirvana para reforçar que Bruce é uma pessoa amargurada, um mal que veio como uma apendicite da geração anterior de filme de quadrinhos, essas decisões funcionam para reforçar o ponto de vista dos antagonistas, mas sem dizer que é o correto. A tensão que o Charada tem com suas vítimas é sim um prazer, um gozo – e por isso é tão importante o som abafado da sua respiração. Batman consegue se controlar mais quando está de máscara, mas basta olhar nos olhos deles para confirmar o seu desejo inexplicável por Selina.

Digo, inexplicável num plano bem específico. Bruce, vivendo num castelo, ainda que esse seja um mausoléu, o arauto da vingança encontra sua humanidade nessa, digamos, contravenção. Selina, por ser uma mulher muito machucada, e Bruce, no seu enorme privilégio e compasso moral, é obrigado pela gatuna a ver o mundo com olhos mais humanos. E, consequentemente, leva a plateia junto. É uma maneira diferente de mostrar o mundo do Charada e Bruce, mas às vezes estamos tão afundados na numa moral sem fundamentos que podemos nos encontrar na posição de talvez não meter a pancada em algum bandido, mas desejar sua morte sem saber o que levou a pessoa a fazer isso.

Batman, um fascista?

Eu sou a vingança”. É com essa frase que Batman se apresenta para uma gangue de criminosos que ainda acham que o vigilante é algum tipo de lenda urbana. É realmente uma visão de gelar o sangue: alguém encapuzado, saindo das sombras, num trabalho maravilhoso da fotografia de Greig Fraser (de Rogue One), fazendo um som distinto como assinatura. Preste atenção e note que lembram esporas de algum xerife de faroeste dado a cada passo, uma escolha fantástica de Reeves e do departamento de som, aliado com Fraser, num elemento essencial para alguém que se mescla com as sombras e a noite.

A ideia de que Batman é apenas um maluco vestido de morcego que gosta de espancar gente pobre ou com problemas mentais não é nova. E o grande culpado disso é Frank Miller com sua magnum opus “O Cavaleiro das Trevas” de 1986, onde um Bruce Wayne envelhecido e amargurado tenta resolver tudo à base do soco. Como dito no começo, as adaptações cinematográficas focam demasiadamente nesse momento em que Batman se torna mais pop, ainda que o filme de Tim Burton (1989) aborde a faceta detetivesca rapidamente. E o que Reeves faz no filme é mostrar um Batman que se vê como parte da solução, ignorando, porém, que ele na verdade é parte do problema.

Isso não significa que Batman seja um fascista. Essa palavra não pode ser usada tão levianamente. Mas é verdade que o Batman não é uma boa resposta – sequer é uma –, mas é, como os vilões de Gotham, um sintoma, não a doença. Podemos traçar paralelos entre o trumpismo e o bolsnarismo, inclusive. Pois esse Batman, cru e inconsequente – vejam o modo que ele invade o covil do Pinguim no primeiro ato – não percebe que, incorporando a noite, causa terror a todos, não só numa parcela.

Identificando a doença

Mostrar a doença acontece quando personagens baseados em incels usam a mesma frase que o protagonista disse, algo que foi feito anteriormente na graphic novel de Miller, mas aqui Batman não enxerga isso como uma oportunidade de criar um pequeno exército, mas como a mensagem que ele acreditava ser verdadeira pode ser facilmente distorcida. Esse é o problema com alegorias, e o Batman é uma das maiores. É fácil cooptar mensagens pouco claras e transformá-las no que você quiser, como vimos a extrema-direita fazer com Não Olhe Para Cima (Don’t Look Up, 2020, Adam McCkay) e Round Six (Squid Game, 2020).

Se há algo importante que Reeves e o roteirista Peter Craig perdem é a oportunidade de entrar mais a fundo no que faz certas pessoas irem para certos caminhos. É verdade que isso aparece em parte em uma das discussões entre Selina e Bruce, mas faltou um fechamento mais contundente. Tomemos por exemplo a gangue da caveira que aparece no primeiro ato. A maquiagem do jovem que está iniciando na gangue não está cobrindo a metade do rosto do jovem apenas para dizer que falta algo para que ele seja aceito, mas também para apontar que ele é um latino. Mostrou, sim. Faltou ser enfático.

É verdade que seria ilusão demais esperar que Hollywood seja tão forte numa mensagem que exponha o sonho da terra dos livres, nem dizer que Reeves transformou Batman em alguém de esquerda – ainda que eu não duvide que alguns boomers cheguem a essa conclusão. São pontos aqui e ali que estão na filmografia de Reeves desde quando ele mostrou uma nova versão de César, uma sociedade que está doente e caminhando para seu fim. O grande problema continua sendo a identificação dos sintomas, e não propriamente da doença, ainda que a iniciativa exista e seja importante.

Noite e Sangue

Se antes apontei que esse filme poderia ter um subtítulo, também é possível chamá-lo de Batman: Preto e Vermelho. A escuridão obviamente é ligada a como Bruce utiliza das sombras como uma ferramenta para causa medo, essa uma ferramenta por si só. Mas Reeves e Fraser usam também o vermelho como elemento narrativo e há ótimos momentos marcantes desse uso, e pelo menos dois mencionados nos parágrafos acima, mas que valem a pena revisitarmos para reforçar seu uso simbólico e estético.

Pois se há uma coisa interessante no uso do figurino trazido por Burton em 1989 é que a vestimenta preta é muito mais ameaçadora que o cinza e azul escuros que víamos nos quadrinhos – a exceção foi quando um certo diretor achou que o personagem precisava trocar de roupa para sair de uma fria. Nada mais justo para alguém que usa a noite de maneira ferramental, substituindo um cinto de utilidades. Além disso, é um elemento esteticamente clássico em quaisquer filmes de noir ou hard boiled, que também faz parte do arsenal de Reeves.

O vermelho pode representar tanto paixão quanto desejo de sangue, algo que o Batman do começo do filme quer, apesar da falta de sangue em si, abrindo o filme para uma classificação indicativa menor. Mas não significa falta de violência, pois o design de som faz o trabalho para sentirmos socos e os tiros, deixando a cor de signo, como quando o Batman vai até o bar do Pinguim. A luz dali envolve Bruce, mostrando como essa sede o cega. A pergunta é como ele agirá depois de todo o aprendizado. E a resposta vem numa icônica cena banhada de vermelho e luz, por mais contraditório que possa parecer.

Zoe Kravitz (Selina Kyle) e Robert Pattinson (Batman/Bruce Wayne) em Batman ® Warner Bros. Pictures (Divulgação)
Zoe Kravitz (Selina Kyle) e Robert Pattinson (Batman/Bruce Wayne) em Batman ® Warner Bros. Pictures (Divulgação)

Conclusão

Em Batman, Reeves se propõe a olhar o personagem-título de maneira um tanto antropológica. Bruce é sem dúvidas uma pessoa que acredita que pode mudar o mundo, e que suas intenções são boas, o que não quer dizer que as abordagens são apropriadas. Tanto Alfred quanto Selina tentam deixar isso bem claro, inclusive com um tapa na cara na visão preto e branco do maior herdeiro de Gotham, vinda exatamente porque ele nunca precisou se preocupar com dinheiro, o que faz um paralelo com a origem do Charada e dela própria. Consequentemente, é outro tapa na cara de quem acredita em ficções como a meritocracia.

Por acaso, o Batman poderia ser negro numa sociedade estruturada no racismo como a nossa? Uma resposta pode estar nos quadrinhos, onde em uma versão recente, o manto é usado por uma pessoa negra, Tim Fox. Mas ele precisa esconder o rosto todo para ninguém descobrir isso. O pessoal da Sociedade da Virtude, inclusive, fez um ótimo vídeo sobre a questão em 2019. Fazendo um paralelo com Marx – e costumo me perguntar o que aconteceria se o morcego que atravessou a janela da mansão Wayne tivesse derrubado uma cópia d’O Capital – Bruce fez a sua própria história, mas não de acordo com a sua livre vontade, nem de próprias escolhas, mas pelo legado passado a ele.

Por isso é simples demais o pensamento de Bruce que ele, mesmo que com a ajuda de Jim e Alfred e com todo aparato que o dinheiro pode comprar, poderiam transformar Gotham. Que, no fim das contas, é um microverso dos EUA. A resposta não é a força, mas a união. O que Reeves e Craig propõem é que o Batman pode ser um agente auxiliar da mudança, mas não a mudança em si. E que é um erro ser parte das sombras ao invés de um agente da luz – é um tanto poético, verdade – ainda que não como um Superman. Então, fica uma pergunta: o Batman precisa ser temido, mas é necessário que todos o temam? Ou ainda, é preciso que exista um Batman?

Batman: Ficha técnica

Direção: Matt Reeves. Roteiro: Matt Reeves, Peter Craig. Elenco: Robert Pattinson, Zoë Kravitz, Paul Dano, Colin Farrell, John Turturro, Andy Serkis. Fotografia: Greig Fraser. Montagem: William Hoy, Tyler Nelson. Trilha sonora: Michael Giacchino. Distribuidora:  Warner Bros. Pictures.

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Batman (The Batman)
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About TIAGO

TIAGO LIRA | Criador do site, UX Designer por profissão, cinéfilo por paixão. Seus filmes preferidos são "2001: Uma Odisseia no Espaço", "Era uma Vez no Oeste", "Blade Runner", "O Império Contra-Ataca" e "Solaris".