Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso | Crítica | Suburbicon, 2017
Apesar de ter um mistério bem óbvio, Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso usa dessa facilidade para apontar um problema grave da sociedade dos EUA.
É fácil acusar Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso como uma obra óbvia. Qualquer um com um mínimo de conhecimento ou que lê algumas linhas das notícias sabe que a nova produção dos Coen e George Clooney é uma sátira política à atual administração de Donald Trump e ao dito estilo de vida americano. Mas jogar na cara algo tão óbvio é o que faz o filme ser tão relevante, como se o diretor dissesse que os seus conterrâneos estão fazendo é uma tragédia, algo digno de piada e ninguém melhor do que dois roteiristas especializados no humor mórbido para escancarar as mazelas atuais de uma sociedade que se comporta como uma turba de loucos do que olhar em volta e descobrir os problemas de verdade.
A cidade de Suburbicon é o mais claro exemplo do que é o status quo, quando quem está isolado numa posição de poder tem suas vidas mexidas da sua zona de conforto. Temos uma família negra chegando num lugar que até ali era ocupado por brancos apenas. Eles se tornam alvo de atenção, medo e, eventualmente, histeria. Passado nos anos 1950, a história começa abordando a integração racial. Mas faz uma volta interessante ao colocar o jovem Nicky (Jupe) no meio de um crime. Essa mudança de foco pode à princípio parecer confusa, mas vejam como Clooney e seu montador Stephen Mirrione ditam o ritmo do filme ao mostrar os moradores assediando a família Mayer justapostos à família Gardner passando pelo pior.
Então, enquanto todos estão preocupados com a nova família que chegou, ninguém olha para o problema real de Gardner (Damon), Rose e Margaret (ambas interpretadas por Moore). É impossível não pensar no que está acontecendo hoje nos EUA – e para não deixar qualquer dúvida de lado, uma das propostas do conselho de moradores é levantar cercas para que os novos moradores sejam isolados do resto da comunidade. Por outro lado, o mistério do que realmente aconteceu com Rose é bem fácil de ser descoberto. Se por um lado isso mostra uma falta de originalidade no roteiro, por outro deixa mais tempo para focar no problema real daquele lugar, que é olhar com mais atenção a própria alma.
Depois de uma tensão primeira parte, a história passeia entre o suspense, a comédia e o drama. É agonizante estarmos na pele de Nicky que está numa casa que já não parece ser mais a dele, com uma mulher que parece sua mãe, mas não é ela. Essa estranheza no familiar é própria de filmes de terror psicológico (It: A Coisa, tanto a versão antiga como a nova são bons exemplos) e essa sensação de medo passa inclusive por Gardner. Por motivos que ficam muito claros na trama, o pai de Nicky deixa de ser uma figura protetora para se tornar uma ameaçadora – quando ele confronta o filho, nu e indefeso dentro de uma banheira, apenas com palavras, é o fim de qualquer tranquilidade da trama.
Há, porém, um raio de esperança. Por ser jovem e ainda aberto a ver o mundo com mais simplicidade, Nicky encontra em Andy (Espinosa), o jovem vizinho negro, um companheiro. Não fica muito claro, um dos defeitos do filme, porque Nicky é tão isolado, mas ao conhecer outro pária naquela sociedade, os dois encontram um terreno comum. É curioso notar como Clooney aproxima os dois personagens não apenas pela idade, mas em elementos mais sutis como o figurino: nas cenas mais importantes de interação entre os dois, a produção usa roupas listradas horizontalmente neles, fazendo assim uma ligação subliminar entre as crianças.
Os Coen se permitem a introduzir piadas sombrias na trama para mostrar que uma sombra está chegando cada vez mais perto de Gardner e sua família. Esse humor vem na figura de Bud Cooper (Isaac), que faz às vezes de um investigador no estilo hard boiled, com seu chapéu e cheio de perguntas, passando pelos deslizes de Margaret. Enquanto um funciona bem, é preciso apontar que a personagem feminina ser a burra da história é bem antiquado – o que não quer dizer que as interações com esse novo jogador não sejam divertidas. E funcionam mais ainda quando, mais uma vez, o problema verdadeiro está acontecendo embaixo do nariz da vizinhança, que só se importa com as aparências.
É compreensível porque o filme foi tão mal nos EUA. Ao mostrar as cicatrizes de uma sociedade doente, o nosso sistema nos diz para nós afastarmos, como uma reação física. E Suburbicon: Bem-vindos ao Paraíso é isso, uma ferida aberta que não se quer tocar ou fingir que não está ali. É verdade sim que a trama beira a obviedade e é muito difícil acreditar numa das soluções que um dos personagens apresenta na mesa da cozinha perto da conclusão. O roteiro instiga ao refletirmos que possam existir pessoas que pensem assim, preferindo jogar suas neuras e medos em uma população em especial ao invés de se enxergarem no espelho para se julgarem antes de fazer isso com o próximo.









Elenco
Matt Damon
Julianne Moore
Noah Jupe
Oscar Isaac
Direção
George Clooney
Roteiro
Joel Coen
Ethan Coen
George Clooney
Grant Heslov
Fotografia
Robert Elswit
Trilha Sonora
Alexandre Desplat
Montagem
Stephen Mirrione
País
Estados Unidos
Distribuição
Paramount Pictures
Duração
105 minutos
Suburbicon é o local ideal para viver. Se você é parte de uma família branca de classe média nos EUA dos anos 1950. Com a atenção voltada para a tensão racial, ocorre um crime. Mesmo sabendo que os vizinhos não tem nada a ver com a situação, todos os olhos se voltam para eles enquanto o real problema está bem debaixo do nariz de cada um.
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