Esta é a Sua Morte: O Show | Crítica | This is Your Death, 2017

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Filament.io Made with Flare More Info 0 Flares ×

Esta é a Sua Morte: O Show trata de um tema sensível, mas é preciso se perguntar se uma abordagem dessas beira o perigoso.

Dizer apenas que o ódio intolerável está demolindo a nossa sociedade não parece ser mais suficiente para Esposito e eis a motivação para o desenvolvimento que aborda um tema delicado como suicídio de maneira tão pesada em Esta é a Sua Morte: O Show. Enquanto faz uma crítica já comum aos reality shows, o diretor tenta também decifrar o fascínio que espectadores tem desde muito tempo – apesar da explosão no fim dos anos 1990 e o começo dos anos 2000 – em presenciar uma realidade passivamente, como grandes voyeurs de uma sociedade que parece tão perdida ao ponto de preferir à vida dos outros em detrimento da própria.

Apesar do núcleo relativamente grande, a trama é centrada em Adam (Duhamel) para questões didáticas. Considerando o nome do personagem – Adão, traduzido – temos alguém entre ascensão e queda, representando a ascensão e queda da própria humanidade. A situação apresentada no prólogo faz o protagonista questionar sua posição nesse universo onde a falsidade é o mestre, como vemos no sorriso do entrevistador (Franco) enquanto Adam tenta tirar algum sentido do assassinato que ele acabou de presenciar. Aqui, ele renasce e começa a vislumbrar as pequenas belezas desse mundo, como a jovem que dança com fitas.

Porém, é difícil acreditar no pulo que o personagem dá para aceitar a proposta do reality show de Ilana (Janssen). Celebrar a vida com exposição da morte, quase inspirado nos atos de Jigsaw, não combina com a experiência traumática que o apresentador passou. O que acontece é que o argumento precisava dessa aceitação para que a trama se desenvolvesse; o que faz um roteiro forçado nesse ponto, dando a impressão que a motivação do personagem foi forçada pela ideia do filme, quando é a decisão de Adam que deveria gerar o conflito. Assim como a decisão de Sylvia (Fitzgerald) de voltar para o barco, mesmo com o asco demonstrado numa cena anterior.

Passando essas motivações que nos são empurradas goela abaixo, a trama é interessante por mostrar a dessensibilização, de novo resumida em Adam, de uma sociedade doente e que mesmo assim ainda não chegou ao fundo do poço. Se levarmos em conta que programas do gênero já tiveram até casos de estupro e continuam sendo produzidos – e acompanhados – a perversão da lei do suicídio assistido parece só um passo a mais. Nesse caso, diferente da motivação de Adam e Sylvia, o exagero funciona, pois ele serve para mostrar um grande poder, a Televisão no caso, pode torcer regras e como ela pode fugir impune por tecnicalidades (por mais que a ética diga que é errado).

No outro lado da balança fica o trabalhador Mason Washington (Esposito), um personagem negro que leva consigo o nome de um dos maiores presidentes dos EUA – e muitas vezes dito como responsável pelo fim da escravidão, o que é impreciso. Passando por dificuldades financeiras (o que é estranho quando a esposa reclama de coisas supérfluas como a assinatura da TV à cabo) e com um filho jovem que não tem acesso à um sistema de saúde público, ele é representante dos mais desfavorecidos. Se não fosse pela trilha sonora e a montagem do filme, poderíamos até dizer que Esposito flerta com um tipo de neo-realismo.

O curioso é ver como o ciclo se completa com duas mortes na história, ambas envolvendo a dificuldade em se sufocar. Se pudermos manter na mente o primeiro suicídio no programa e o último antes do grande plot twist (e não vem ao caso dizer se é bom, ruim ou óbvio), podemos dizer que ambos são grandes metáforas para como nós começamos a reagir às terríveis novidades: primeiro ficamos chocados, depois apenas um pouco incomodados até chegarmos ao ponto de não nos importarmos. A tentativa dessa violenta trama então é nos chacoalhar um pouco para fora da inanição e passividade.

Claro que incomodam algumas conveniências, principalmente à que ocasiona a já citada virada na trama que tem relação com a falta de capacidade dos roteiristas em justificar ações dos personagens. Nesse caso, eles pulam uma das regras que os candidatos têm que preencher para poder encerrar a própria vida – e se Sylvia ajudou para que isso acontecesse de alguma maneira, essa atitude ficou de fora porque não poderia ser justificada de maneira nenhuma. Além disso é muito desonesta a solução de Mason, enganando a plateia de uma maneira que não deveria.

Porém, como já mostrou 13 Reasons Why, é muito perigoso quando uma abordagem errada pode funcionar de gatilho para quem já tem pensamentos suicidas. Por isso é bem questionável a decisão de Esposito em mostrar com tantos detalhes e uma miríade de tipos de mortes no reality show. Mesmo que os últimos concorrentes estejam em oposição, é preciso nos questionarmos a mudança que veio quando uma participante relevante tirar a própria vida, mesmo que o personagem seguinte não o faça. A questão é qual das situações foi a mais marcante?

Para trazer perto da nossa realidade, sem parecer que o cenário é algo distante, a trama cita empresas que conhecemos (Facebook, Uber) o que nos mantém ligados, assim como a grande tensão que é saber se os personagens vão ou não continuar com seus planos ao vivo. E para não nos deixar fugir da chocante realidade, o diretor usa múltiplas telas para que a violência dure uns poucos segundos a mais – algo como vimos na decapitação em A Profecia. E é o choque o elemento mais funcional em Esta é a Sua Morte: O Show. Ao aproximar esses elementos familiares a nós, esse absurdo não parece tão impossível assim, mostrando que tudo que é preciso é um tanto só de perversão para dar o passo além do aceitável e torná-lo palatável.

[críticas, comentários e voadoras no baço]
• email: contato@umtigrenocinema.com
• twitter: @tigrenocinema
• fan page facebook: http://www.facebook.com/umtigrenocinema
• grupo no facebook: https://www.facebook.com/groups/umtigrenocinema/
• Google Plus: https://www.google.com/+Umtigrenocinemacom
• Instagram: http://instagram/umtigrenocinema
Assine a nossa newsletter!

Apoie o nosso trabalho!

http://www.patreon.com/tigrenocinema

OU

Agora, você não precisa mais de cartão internacional!

Volte para a HOME

Share this Post

About TIAGO

TIAGO LIRA | Criador do site, UX Designer por profissão, cinéfilo por paixão. Seus filmes preferidos são "2001: Uma Odisseia no Espaço", "Era uma Vez no Oeste", "Blade Runner", "O Império Contra-Ataca" e "Solaris".