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Que Horas Ela Volta?, 2015

Com Regina Casé, Camila Márdila, Michel Joelsas, Karine Teles, Lourenço Mutarelli, Helena Albergaria, Luis Miranda. Dirigido e roteirizado por Anna Muylaert (É Proibido Fumar).

10/10 - "tem um Tigre no cinema"Em um filme que reflete tanto a realidade de certo local, seu maior trunfo será conseguir alcançar também quem não está muito familiarizado com aquela situação. Assim, Que Horas Ela Volta? é para os brasileiros um retrato relativamente comum da servidão que muitas pessoas se sujeitam, com nossas próprias peculiaridades. Para quem não vive essa realidade, é uma história de sacrifícios que precisam ser feitos para o bem de quem se ama. Dotado de doçura e reflexão, a produção vem para confirmar a ótima fase que o nosso cinema dramático passa. E serve também para encararmos algumas falhas do nosso caráter que, às vezes, passam despercebidos.

Basicamente, essa é uma história de abandonos, mas por motivos diferentes. Val (Casé) migra para São Paulo para poder dar uma vida melhor para a filha. A patroa Bárbara (Teles) faz o mesmo com o filho, e Val que tem a missão de cuidar do garoto. Na cena inicial do filme, Muylaert habilmente mostra a falta que cada mãe faz para seus filhos. A filha da empregada liga para mãe, querendo saber por que ela está longe. Enquanto o filho da patroa pergunta à sua babá “que horas ela volta?” – e o título dito faz sentido na narrativa. É lindo e triste perceber que quando Val diz não saber, a resposta serve para ela também.

O retrato pintado pela diretora é tão familiar, mas ao ser escancarado pode tirar algumas pessoas da zona de conforto. Quando Bárbara diz coisas como Val ser como se fosse da família, ou que adorou um presente que a empregada lhe dá no aniversário, é fácil perceber que são palavras ditas ao léu, soltas, sem destinos e até mentirosas. Muylaert filma constantemente Val em planos isolados e tristes, focando muitas vezes na porta da cozinha que separa a área nobre da casa do lugar dos empregados. É um condicionamento tão forte que é preciso que Jéssica (Márdila) aponte essas coisas para a mãe. E percebemos isso também em momentos bem simples, como ao vermos que ninguém diz sequer um obrigado quando Val serve alguns convidados na festa de aniversário da patroa.

Jéssica é um espírito mais livre, mais contestador do status quo da mãe e de seus patrões, e até um pouco atrevida. Por isso ela chama a atenção da rica família do Morumbi ainda que por motivos diferentes. Bárbara, fria e distante, constantemente usando cinza ou preto olha literalmente de baixo para cima a jovem nordestina que veio concorrer a uma vaga em um dos vestibulares mais disputados do país. Chavões como “o País tá mudando” e a decisão da diretora posicionar a câmera no quase no queixo de Bárbara reforçam a arrogância da personagem.

Carlos (Mutarelli) se apaixona pela jovem: seja pela sua idade, ou pela a luz diferente que ela trouxe para aquela casa – em oposição aos tons cinza e urbanos que a fotografia nos mostra – Jéssica faz sorrir o artista aposentado. A tristeza da vida de Carlos é tão forte que sentimos até pena do personagem, magro, com uma aparência doente e que deixou de fazer algo que gostava muito que era pintar. Fabinho (Joelsas) também sente uma atração contida pela moça, tão diferente dele e da mãe e, na juventude de ambos, existe espaço para uma troca de confidências e brincadeiras à piscina.

Há planos lindos no filme que contam o sentimento dos personagens. O mais constante é o já citado isolamento de Val, seja na cozinha esperando o chamado dos patrões, nas tarefas de casa – mesmo junto dos outros empregados, há algum tipo de separação visual, como o batente das portas – ou no clássico quarto de empregadas: aquele lugar minúsculo que mal cabe uma pessoa, mas que é bem comum em tantas cidades brasileiras. De certa maneira, ela também é isolada pela filha que se recusa a chama-la de mãe. E ainda vivendo naquela maneira que foi condicionada, Val também se isola quando desenha na mente uma separação que ela acredita ser óbvia: nós e eles. Do lado da família que mora no Morumbi, Muylaert nos mostra um plano belíssimo quando Jéssica vai embora de lá pela primeira vez e na saída encontra com Carlos. Dessa vez, ele está isolado e cabisbaixo naquela casa enorme, com uma grande sombra pairando sobre ele enquanto a esposa conversa sobre amenidades do outro lado da sala.

Existem retratos bem interessantes do cenário paulistano, mas que fazem parte de qualquer metrópole. Quando Val está voltando de pegar Jéssica no aeroporto, podemos ver sutilmente o tempo que o trabalhador comum perde nos seus deslocamentos. Começamos com a luz natural em Guarulhos que vai caindo gradativamente, até que, na última parte do trajeto, a noite já caiu e luz artificial ilumina o ônibus em que as duas estão. E não passará despercebido para qualquer audiência a estranha normalidade da família que logo depois do jantar pegou cada um seu smartphone para não interagir mais.

Além de ser muito bela poeticamente, a produção é impecável nos quesitos de fotografia e música – pontual, aparecendo em momentos de transição, um elemento muito presente no cinema nacional –, assim como nos mais técnicos. Por exemplo, na montagem, quando vemos a diferença entre a casa do Morumbi e a procura de Val e Jéssica por um lugar para morarem. Naquela casa enorme, a câmera é fixa, há menos cortes, e certa tranquilidade, a segurança que Val sente. Na periferia, já mais cortes, a câmera está mais trêmula para refletir a incerteza que as duas estão passando.

Que Horas Ela Volta? | Pôster

Levantando questionamentos sobre a profissão de babá ou empregada – como ela é digna e importante –, distância familiar e quanto tempo uma pessoa pode aguentar por servir as outras Que Horas Ela Volta? é tocante e pode ajudar algumas pessoas a verem de maneira diferentes as pessoas que trabalham para nós. Provavelmente deve ser lugar comum para tantos de nós brasileiros, e é por isso mesmo que vale a deve ser revisitado: para que de tão comum não seja esquecido.

Sinopse oficial

“Que Horas ela Volta? apresenta diversas questões do Brasil contemporâneo através de uma história de amor materno. O longa se passa na cidade de São Paulo e nos permite acompanhar a trajetória de Val, que deixa sua filha pequena no interior de Pernambuco para tentar ganhar a vida na cidade grande. Após 13 anos como babá do menino Fabinho (Michel Joelsas), Val convive com a culpa de não ter participado da criação da filha. Em busca de condições melhores de estudo, Jéssica (Camila Márdila), a filha de Val, resolve ir ao encontro da mãe. Esse reencontro fará com que Val precise encontrar um novo equilíbrio na sua vida.”

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