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Com Júlio Andrade, Adélio Lima, Nanda Costa, Roberta Gualda, Claudio Joborandy e Domingos Montagner. Roteirizado por Patricia Andrade e Maria Hernandez. Dirigido por Breno Silveira (Dois Filhos de Francisco).

Enquanto assistia “Gonzaga – De pai pra filho” pensava muito no meu pai e nos meus avós. É impressionante quando uma cinebiografia te cativa tanto, mesmo que você não conheça muito bem os personagens. No meu caso, nem sou apreciador do baião, nem de seu representante maior que é Luiz Gonzaga, e nem mesmo de seu filho Gonzaginha. Mas Silveira, Andrade e Hernandez nos trazem um filme emocionante por ir além da imagem de “Rei do Baião”, e mostram um história de superação e redenção. Definitivamente, um dos melhores filmes do ano.

Inspirado livremente na biografia “Gonzaguinha e Gonzagão, Uma História Brasileira” vemos no filme um Gonzaguinha (Andrade) já famoso, mas perseguido pela presença herdada do pai, mesmo sem fazer o mesmo estilo de música, com Silveira mostrando uma “lembrança” de Gonzaguinha, vendo o pai de costas, reluzindo e cantando para um grande público. De volta ao presente, o filho do rei do baião se esconde em seu camarim, um ambiente pesado (que o diretor faz ficar pesado ao focar uma garrafa de whisky na mesa). Quando a atual mulher de Gonzaga (Lima) vai até o enteado para pedir que o filho ajude o pai, Gonzaguinha parte para Exu, cidadezinha onde a presença de Gonzaga é constante: nome de praças, estátuas, e até a casa do músico é pintada com o nome dele. Para tentar se reaproximar do filho muitas vezes rejeitado (“Sou filho do Luiz Gonzaga. Tá aqui, ó”, diz Gonzaguinha apontando para o RG), Gonzaga começa a contar um pouco da própria história para que o filho o conheça de verdade. O que o leva a gravar a conversa, para não perder nada do que o pai fala, especialmente da história com a mãe.

Contando com vários flashbacks, Gonzaga fala de um antigo amor, tanto com a personagem Nezinha (Dassi) e com o acordeom, como teve que fugir de Exu por causa da ameaça do pai da moça, um coronel da cidade, o preconceito por ser mulato, e tudo mais que o fez a chegar em Fortaleza em 1929 e se alistar no Exército. Silveira dá um jeito de criticar a instituição, como tinha feito em “Dois Filhos de Francisco”, mas é esperado. A frase do pai de Gonzaga, Seu Januário (Jaborandy), que diz que não queria ver o filho a “sair pelo mundo matando gente” me parece forçada demais para uma pessoa tão humilde. Depois, Gonzaga quase participa da Revolução de 1932, e dá um jeito muito esperto de não matar ninguém, como tinha prometido ao pai, e achar seu lugar como corneteiro na tropa. Ao dar baixa, Gonzaga vai morar no Rio de Janeiro, em 1939, onde começa a tentar a ganhar a vida na carreira musical. Gonzaga se mostra influenciado por outros estilos, ao ponto de  se esquecer como se toca o baião que gostava tanto. O diretor tem muita competência ao mostrar a “queda” de Gonzaga, perdendo a alegria de tocar. A fotografia acompanha as notas musicais tristes do fado e do bolero ao ponto que o nordestino percebe que não é isso que vai lhe dar dinheiro nem felicidade. Só quando Gonzaga “lembra”de  como tocar o baião, a fotografia fica cálida novamente. O filme também mescla cenas de arquivo para dar um ar de veracidade aos acontecimentos, para provar para quem não conhece a história de que pelo menos uma parte dela é verdade. Gonzaga continua falando de seus amores, de seu jeito “troncho” e de como resolveu buscar suas raízes mais uma vez para poder criar mais e melhores músicas (e junto um dos maiores sucessos de sua carreira: “Asa Branca”). Mas o diretor teve sensibilidade para mostrar também como o abandono fez mal para Gonzaguinha, que no momento das gravações questiona com muita raiva as decisões do pai, tratado como alguém de pouca visão e egocêntrico. Determinado o ponto ele diz ao filho “nunca te faltou nada”, ao que ele responde “só faltou você”.

Permeado por momentos emocionantes, doces e ainda outros de raiva, “Gonzaga – De pai pra filho” é um grande exemplo da boa fase que o cinema brasileiro passa. Com a competente fotografia de Adrian Teijido (que já tinha trabalhado no excelente “O Palhaço“), os responsáveis nos trazem uma história muito sensível, de uma parte frequentemente esquecida do Brasil. As caracterizações dos personagens principais também está ótima. Parece mesmo que estamos vendo Gonzaga[bb]e Gonzaguinha[bb]na tela. E é uma bela homenagem à um dos maiores personagens da música popular brasileira.

 

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