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Trinta, 2014

Com Matheus Nachtergaele, Milhem Cortaz, Paola Oliveira, Fabrício Boliveira, Paulo Tiefenthaler, Ernani Moraes e Marco Ricca. Roteirizado por Claudio Galperin, Paulo Machline, Felipe Sholl e Mauricio Zacharias. Dirigido por Paulo Machline.

8/10 - "tem um Tigre no cinema"Ao focar na melhor parte da carreira do carnavalesco, ao invés de explorar um longo melodrama com todas as nuances do artista, Trinta se destaca entre as cinebiografias recentes. É um filme centrado e enxuto, mas sem nenhuma correria. Bem produzido, com ótimas atuações, belamente fotografado, é uma história que agradará mesmo os que não são fãs de carnaval. E os que gostam se sentirão ainda mais recompensados.

Joãosinho Trinta (Nachtergaele) é escolhido para ser o carnavalesco da Salgueiro do carnaval carioca de 1974. Em meio a desconfianças, o ex-bailarino vai relembrando sua trajetória no Rio de Janeiro, suas apresentações de balé no Theatro Municipal, e o desejo pelos holofotes e os aplausos enquanto cria o desfile “O Rei da França na Ilha da Assombração”, que mudou a cara do carnaval brasileiro.

Mesmo que o diretor foque no início da carreira de Trinta, ele não deixa de lado alguns aspectos inerentes a alguns carnavalescos. O exemplo mais forte, e que toma pouco tempo na narrativa, é a ligação do presidente da Salgueiro. Germano (Moraes), ao discutir com Pamplona (Tiefenthaler), exibe uma arma como sinal de ameaça. Pamplona o lembra da sua corrupção, da história de bicheiro que o chefe tem. Com esses poucos minutos, Machline nos lembra de um pequeno detalhe sórdido, mas isenta Trinta dessa relação. O que ele queria eram os aplausos. E se isso é verdade ou não, o diretor prefere não julgar, achando melhor fazer uma homenagem a persona de artista onde Trinta se destacou.

É curioso não saber muito da história de Trinta. Existem momentos na projeção tão poéticos que chamam a atenção imediatamente. Por exemplo, quando ele se demite de uma empresa de um trabalho puramente burocrático para realizar seu sonho de dançar balé no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, ele sai de lá dando um passo de dança, enquanto zomba de um dos funcionários que acabara de fazer o mesmo com ele por causa de seu jeito delicado. Interessante também como o diretor coloca em oposição esses trabalhos, focando nas pernas e nos dedos dos trabalhadores.

A estrutura de flashbacks não atrapalha a narrativa. É mais interessante ver Trinta já estabelecido para depois entendermos sua história, a decepção com a própria companhia de dança que tanto amava, e os conflitos com a família, representados no irmão Bráulio (Ricca).

Outro destaque é a interpretação e postura corporal de Natchergale. Ele já um dos nossos maiores atores, e é clara a sua dedicação durante a projeção. Desde o sorriso que aparece e vai apagando, a revitalização dentro da Salgueiro, e a explosão que tem quando os outros não lhe dão atenção são motivos suficientes para gostar cada vez mais dele – tanto ator quanto personagem.

Impossível não pensar na fotografia cheia de brilho de Lito Mendes. Assim como a vida do carnavalesco, a vida dentro do barracão da escola de samba é cheia dele, de espelhos, purpurinas, luzes. Muito luxo, como o próprio Trinta gostava.

Junto disso, a ambientação de época no Rio de Janeiro é digna de nota. Não pelas avenidas decoradas ou grandes ambientações. Esse é um filme modesto até nisso, mas o que vale é o espírito: o boteco, o morro, o barracão fazem desta uma produção intimista e um recorte urbano interessantíssimo.

Trinta | Pôster

Já vimos isso antes: Trinta é uma história de superação. Porém, por ser real e relativamente próxima da nossa realidade – um brasileiro humilde como tantos – somos conquistados facilmente pela história contada. A necessidade de se provar, de não deixar a peteca cair, se virar com pouco que tem faz parte da realidade de muitos brasileiros. Sejam eles sambistas ou não.

Veja o trailer de Trinta

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