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Rush, 2013

Com Chris Hemsworth, Daniel Brühl, Olivia Wilde, Alexandra Maria Lara, Natalie Dormer, Pierfrancesco Favino. Roteirizado por Peter Morgan (360). Dirigido por Ron Howard (Apollo 13).

9,5/10 - "tem um Tigre no cinema"Aos que não fãs de Fórmula 1, ou de automobilismo em geral, digo que apreciem esse filme sem medo. Ron Howard é seguro na direção como os pilotos retratados em suas Ferraris e McLarens. O diretor poderia ter afastado os fãs mais ávidos de corrida ao concentrar mais no drama dos personagens do que no evento em si. Mas temos aqui um equilíbrio que agradará mesmo quem nunca viu um Grande Prêmio inteiro. É um ótima produção cinematográfica, que consegue criar tensão sem esquecer o tom dramático, e uma das melhores surpresas do ano.

O filme retrata um período de mais glamour da Fórmula 1. Nos anos 1970, Nikki Lauda (Brühl) é um apaixonado por corridas, mas não consegue fazer ninguém acreditar que seria um bom piloto. Já James Hunt (Hemsworth) parece ter nascido para isso, mas lhe falta uma grande escuderia. Quando Lauda compra sua entrada da Fórmula 3 para a categoria principal, nasce uma grande rivalidade entre dois, culminando em horrível acidente em 1976. A força de vontade dos dois é testada, pois são personagens que sempre vivem no limite do perigo.

Apesar de começar com duas narrações em off inconvenientes, Howard o fez para mostrar que seu filme teria dois pontos de vista. Ao não escolher lados, nem glorificar ninguém, desde o começo o diretor consegue mostrar a humanidade dos pilotos. Ambos são arrogantes, e são separados por vários signos. Passando pelo jeito de se vestir, a língua e os relacionamentos – em determinado ponto, são colocados em extremos ao vermos que Hunt se casou num igreja católica, enquanto Lauda optou por um mais formal casamento civil. A ótima trilha sonora de Hans Zimmer separa as personalidades:  Hunt ganha um rock n roll orquestrado, e Luada tons mais clássicos. Essas diferenças entre alguém com mais atitude e outro mais focado nunca é mostrada de modo exagerado, e só faz a produção ganhar mais vida. As idiossincrasias dos personagens é que vão fazer os espectador gostar mais de um do que do outro.

Falar da emoção da corrida em si é necessário nesse tipo de filme. Então, o diretor usa com competência cortes rápidos, closes nos cockpits, e coloca em vários momentos a câmera no nível do chão, a que o carro passa perto em alta velocidade, os detalhes da grama subindo, o ronco do motor – num design de som extremamente realista – e a trepidação dão realidade ao assunto filmado. Howard usa outro símbolo para ligar os pilotos à seus carros: os pistões do motor. Mais de uma vez a câmera passeia, por meio de CGI, dentro do motor dos carros, mostrando principalmente o sobe e desce e a explosão do motor, misturando ou às batidas do coração, ou até a paixão e fascínio, principalmente de Hunt, quando o diretor intercala cenas dele de sexo com os movimentos que os pistões fazem dentro do capô.

O filme traduz realismo. Para reforçar o problema de álcool de Hunt, o inglês é filmado inúmeras vezes ao lado de garrafas de champagne ou outra bebida. Quando não é o caso, existe o tique do isqueiro, mostrando uma pessoa muito insegura, apesar de que no momento de segurar o volante, ele se transforma. Também é factível com línguas diferentes que não se misturam. Ao contrário de tantas produções que vemos em blockbusters, quando Lauda fala com a esposa Marlene (Lara) em alemão, ela não responde em inglês. E ao invés de inserir apenas no fim imagens históricas para reforçar que a história é real, Howard coloca cenas curtas dos personagens assistindo à transmissões da época.

Durante a projeção, é interessante ver como a disputa entre os dois foi crescendo pouco a pouco, com Lauda começando em segundo lugar até na vida pessoal, quando ele se interessa por uma ex-namorada de Hunt, até a caça que o piloto austríaco faz ao inglês depois do famoso acidente de Nürburgring em 1976. É tão icônico que parece forjado o sobrenome de James ser Hunt (Caça, em inglês). E os fãs ficaram contentes ao vislumbrar detalhes que talvez não conhecessem. E ao mesmo tempo, a tensão cresce para quem não conhece o resultado do campeonato de 1976.

Rush - No Limite da Emoção - Poster brasileiro

“Rush – No Limite da Emoção” também se destaca pela fotografia de Anthony Dod Mantle, ao usar tons dourados no passado dos personagens, principalmente na Fórmula 3, e outros cinzas já no momento presente da cinebiografia, como uma nuvem de chuva que teima em persegui-los. Existem outros momentos tecnicamente ótimos: o uso do slow-motion na última corrida, a decisão de Lauda que toma apenas alguns frames na tela onde Marlene aparece e o já citado design de som. Por isso é difícil de entender alguns zooms digitais e feios que foram forçados na pós-produção. Pode parecer que o filme se alongue mais que o necessário, quando no final existe uma curta discussão entre Lauda e Hunt. Mas foi um ótima momento, porque tira a imagem de herói vencedor que o recém-vitorioso Hunt ganhou e o mostra como Howard sempre quis mostrar. Ao humanizar o personagem dessa maneira, o filme não se torna falsamente moralista. E finalmente entendemos, até para os mais leigos, porque Nikki Lauda está mais nas memórias do que seu galante companheiro que, de acordo com uma última narração, foi o único homem que o tri-campeão mundial teve inveja.