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Com Charlize Theron, Michael Fassbender, Noomi Rapace, Idris Elba, Guy Pearce, Logan Marshall-Green, Sean Harris, Rafe Spall, Kate Dickie e Patrick Wilson. Roteiro de Jon Spaihts (A Hora de Escuridão) e Damon Lindelof. Dirigido por Ridely Scott (Alien – O Oitavo Passageiro).

O fardo era pesado. Ridley Scott revisitando o universo criado por ele em “Alien – O Oitavo Passageiro” (Alien, 1979) era um sonho para fãs de cinema e da ficção científica. O diretor nos entrega um bom filme. Ponto. A viagem que começa numa cena evocativa de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, mescla elementos diferentes, efeitos especiais impecáveis, assim como o design de som, e fazem nos primeiros minutos parecer que este será filme do ano. Mas os (vários) furos no roteiro e a unidimensionalidade de maioria dos personagens na tela faz que a experiência seja menos agradável. Porém, o voo alçado pela nave-título está longe de ser uma decepção.

Essa crítica é recheada de spoilers. Estejam avisados.

Ridley Scott desde o começo tenta criar um filme com mais profundidade. Começando pela cena à la 2001 que citei, passando por cenários naturais de tirar o fôlego (opostas pela presença de uma gigantesca nave) culminando com a morte de um ser superior, e que dá a vida pelo planeta. Essa sequencia de eventos se torna meio-termo entre religião e ciência, o que não quer dizer que agradará ambos. Pulando até o ano 2089, estão Elizabeth Shaw (Rapace) e Charlie Holloway (Marshall-Green), um casal de exploradores que descobrem desenhos rupestres representando uma figura gigante apontando para as estrelas, que vemos depois fazem par com outras descobertas, de outras civilizações da Terra. Pulando outros quatro anos, já estamos dentro da Prometheus, que vai em direção ao satélite LV-223. Passeando pela nave, podemos perceber pequenas semelhanças com a Nostromo: a sala de refeições e a comunicação visual são muito parecidas entre elas. Mas a Prometheus é mais clean e menos claustrofóbica (lembrem-se que a Nostromo era uma nave mineradora). A tripulação se encontra em estado criogênico, menos David (Fassbender), o androide que cuida dos detalhes da nave e de seus viajantes. Nesse meio tempo ele aprende novas línguas, e vive o sonhos dos outros (quase como uma violação, o que me fez lembrar de Ash que, ao seu próprio jeito também tenta fazer isso com Ripley, mas de um jeito físico). De certa maneira, ver a apreciação do androide pelo filme “Lawrence da Arábia” (Lawrence of Arabia, 1962), inclusive copiando seu visual, é um spoiler sobre a personalidade de David. Enquanto os outros tripulantes nem acordaram, é de se espantar que Meredith Vickers (Theron) acorde sozinha e já comece a fazer flexões de braço ainda úmida dos quatro anos de criogênia. Entendo que é para passar a imagem de durona, mas ficou exagerado e podia ter sido feito de um jeito mais sutil, como na próxima cena (onde ela já está limpa e vestida para o trabalho, diferente de seus colegas de viagem que enfrentam os efeitos colaterais do longo sono) ou como sua frieza é aumentada, com as imagens de seu compartimento separado. Os personagens secundários são mais rasos ainda. Apesar de Millburn (Spall), Fifield (Harris) e o capitão Janek (Elba) protagonizarem bons momentos, não os vejo como personagens que serão lembrados depois do fim do filme.

Quando os exploradores saem da Prometheus para investigar uma construção na superfície do satélite, a produção alterna entre bons e maus momentos. Ridley Scott fez questão de frisar em entrevistas que esse filme não seria uma prequel do primeiro Alien, mas vários elementos são repetidos, digamos assim: a disposição dos contêineres, o painel quem mostra a figura de um Alien (uma evolução desejada?), e os Space Jockeys, que aqui ganham o nome oficial de “Engenheiros”. Também a apresentação 3D de uma mensagem gravada há muito tempo, uma pequena referência à fé cristã, quando vemos que um dos engenheiros “morreu há 2 mil anos” e o detalhe da digital de David com a marca Weyland (mostrando que ele propriedade DE Weylan) são detalhes que agradam. Já os personagens tem reações bem estúpidas para quem acabou de chegar num planeta desconhecido (quase infantis). Nem vou entrar no mérito de tirar o capacete num ambiente novo, por mais que as leituras dizem que o ar é respirável. Fifield é um geólogo que usa umas esferas para mapear a caverna. Determinado momento, ele resolve sair de lá com Millburn, o biólogo, por não se sentirem confortáveis com a abertura de uma das salas do lugar. É de se perguntar porque eles não usam a mesma tecnologia para não se perderem. Mas a questão é que eles encontram os Engenheiros que estavam atrás. Prova de que existe vida fora da Terra. Mas a descoberta que pode mudar o ruma da história da humanidade não parece alegrar muito Josh. Já que ele não achou nenhum dos Engenheiros vivos, ele resolve encher a cara, como se o achado não fosse nada demais. Mais pra frente, o perdido Millburn resolve “brincar” com o proto-facehugger, que evoluíram rapidamente de vermes que estavam no chão. Qualquer cientista sensata iria apreciar a descoberta de longe antes de fazer joguinhos com ele. Ou seja, os dois tem mortes bem idiotas por causa disso. E merecidas.

“Prometheus” vai levantar muitas outras questões, o que aponta uma obrigação de se assistir a já anunciada continuação. No entanto, essas coisas não fazem o filme ser ruim, como muito alardeado, e nem perfeito. É um bom meio-termo entre ação e questionamentos, religião e ciência. Pontos como David infectando Josh ser o maior tiro do escuro da história, o plot twist entre Merdith e Weyland (Pearce) não é nem um pouco interessante, e o fato de depois da operação Elizabeth sair quase pulando (e sem ninguém atrás dela), a fraca maquiagem de Guy Pearce, a opção de transformar Fifield em algum tipo de monstro, só pra criar um desafio a mais na trama, e a rápida conclusão do Capitão Janek sobre  a natureza do planeta são momentos que deveriam ser melhor desenvolvidos.  Mas levemos em conta os bons momentos da produção: a tensão que aumenta com o encontro dos Engenheiros mortos (o que os matou?), o fato de alienígenas continuarem a ser ameaças (mesmo sendo os Engenheiros), e os outros que comentei durante a crítica. Um projeto desses merecia mais carinho nos detalhes. Se certos elementos fossem mais discretos e sugeridos, como a importante cena que antecede os créditos, Scott teria se aproximado mais de seu “mentor” Stanley Kubric: menos seria mais. Bem mais.

Sobre o 3D, posso dizer que é muito bem feito, utilizando grande profundidade de campo. No entanto, não é necessário, só servindo como um detalhe que pode ser dispensado.

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