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Com Jared Gilman, Kara Hayward, Bruce Willis, Edward Norton, Bill Murray, Frances McDormand, Tilda Swinton, Jason Schwartzman, Harvey Keitel e Bob Balaban. Roterizado por Roman Coppola (Viagem a Darjeeling) e Wes Anderson. Dirigido por Wes Anderson (Os Excêntricos Tenenbaums).

Numa bucólica ilha da Nova Inglaterra, Wes Anderson nos dá um filme que é típico de sua filmografia. Retratando de um jeito muito doce o período de descobertas que acontecem na vida das crianças, o filme trata do imaginário, da aventura e do romance, sendo quase completo. Com atuações fantásticas, símbolos bem construídos e uma direção precisa, mas que pode incomodar alguns por ser “Wes Anderson” demais, “Moonrise Kingdom” é digno de atenção para todas as idades, e estará com certeza na lista de muitos dos melhores de 2012.

Num travelling mostrando ambientes com cores primárias, a família Bishop é apresentada como uma orquestra sinfônica. Ao invés de fazer uma narração off tradicional, Anderson usa da diegese e insere a gravação de um disco para explicar a função de cada instrumento e seu paralelo com os Bishop. Os pais Walt (Murray) e Laura (McDormand) nunca estão no mesmo cômodo, chegando ao cúmulo da mãe se comunicar com o marido e com os filhos, com um megafone. Suzy (Hayward) é comparada com um trombone, dito na narração como “coisas que batemos”. Munida sempre de binóculos, ela participa de momentos sem precisar estar presente, deixando um ar de inocência e superficialidade no modo como enxerga o mundo adulto. E do outro lado da cidade, num acampamento disfuncional dos escoteiros, o Escoteiro Mestre Randy Ward (Norton) checa a sua tropa e descobre que um de seus protegidos fugiu no melhor estilo “Um Sonho de Liberdade” (The Shawshank Redemption, 1994). Sam (Gilman) aparece como um desbravador, apesar da pouca idade, e parte para o seu encontro com Suzy. Anderson isola tão bem os fatos que se você não assistiu os trailers quase não consegue notar que os dois fugiram para se encontrar. E nesse pequeno drama, a cidade se mobiliza junto da aparente única autoridade do lugar, o Capitão Sharp (Willis) para achar os fugitivos. Cheia de personagens fortes, até mesmo a ilha de New Penzance merece um background, que é dado por um presencial narrador (Balaban), que está caracterizado como Steve Zissou. Em determinado momento, esse personagem serve como um deus ex-machina e que deve ser o único ponto fraco da história.

A aventura de Suzy e Sam é quase um road movie.  A história pregressa dos dois é contada por meio de um flashback incrivelmente tocante. Sam, sempre isolado por motivos banais de seus companheiros de escotismo (baixo, usa óculos e é orfão) vai embora de uma encenação que está assistindo, e começa a andar a esmo até que encontra Suzy, que iria encenar essa peça sobre o dilúvio, vestida como um corvo, um animal solitário e que ficou sozinho durante a grande inundação. Outro símbolo sensacional da pequena atriz, que se torna igual na solidão de Sam. A fuga dos dois faz perfeito sentido, e Anderson consegue transmitir bem isso na tela. A casa onde Sam morava é mostrada como apertada, e com seu ex-cuidador curvado ao telefone enquanto diz para o Cap Sharp e Escoteiro Mestre que não quer mais Sam de volta, por que ele é “muito diferente”. O jovem órfão é tratado como uma coisa, e o diretor acentua mais ainda essa sensação de claustrofobia psicológica dividindo a tela em duas partes, espremendo ainda mais o personagem. Quase como a personagem Serviço Social (Swinton) faz mais a frente (tanto que o Anderson repete o efeito). Já sobre os motivos de Suzy, notem também que fora da casa da família Bishop a fotografia é bem mais clara. Com pais distantes que se dirigem um ao outro como “sr/sra advogado/a”, e a mãe que tem um caso com o policial já são motivos suficientes, pelo menos para ela, fugir. O filme é uma série de descobertas. Desde de coisas nonsenses (como uma tartaruga que tem um nome escrito), chegando até a sexualidade. Mas oquei, pode ter sido um pouco de exagero mostrar Suzy só com roupas íntimas e meias até as canelas. É uma cena que ela parecia estar a vontade, mas me pergunto se era realmente necessário um cena tão erotizada quanto essa. Mas Anderson continua sendo sutil, ao tratar inclusive do tema virgindade numa cena que envolve penetração e sangue, mas de uma maneira muito poética.

O filme também agrada nas decisões de fotografia (com determinados toques dos anos 1960 quando Sam e Suzy vão pular na água, ou como a tempestade chega depois que os dois se separam), na montagem (a leitura das cartas que os protagonistas trocam são uma aula de cinema) e a evolução da dupla principal mantendo a sua inocência (vejam com atenção como eles lidam com a “conversa mais importante do mundo”) junto de temas como a amizade, os momentos doces, a visão infantil que “invade” a realidade adulta (a altura fantasiosa da casa da árvore mostra bem isso), tristeza e a aventura fazem de “Moonrise Kingdom” uma bela obra de arte do cinema. Imperdível.

Moonrise Kingdom” concorre ao Oscar 2013 na categoria Melhor Roteiro Original (Wes Anderson e Roman Coppola).

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