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Com Miley Cyrus, Demi Moore, Ashley Greene, Adam Sevani, Jay Hernandez e Thomas Jane. Roteirizado por Lisa Azuelos e Kamir Aïnouz. Dirigido por Lisa Azuelos.

Hollywood não perde tempo pra fazer seus remakes por qualquer motivo obscuro.  Provavelmente a produtora americana viu a rentabilidade do filme francês (que não assisti), e pra evitar surpresas, chamou para sua versão a mesma diretora e os mesmos roteiristas. Se o remake se aproxima de algum jeito de seu original, ficarei longe dele. “Lola” não é só uma coleção de clichês, mas também é um filme com péssimas atuações, irritante e cansativo.

Nos primeiros momentos do filme a diretora (e também roteirista) Azuelos mostra que foi às aulas de cinema, usando raccords de movimentos, e brincando com o conceito de slow-motion. Mas parece que ela se esquece dessa decisão e usa e abusa desse efeito. Conhecemos Lola (Cyrus) e suas amigas nessa brincadeira. E temos que ouvir suas constantes narrações off, que representam o que ela escreve em seu diário, um elemento que demora a aparecer e que só deixa essa muleta de apoio do filme mais irritante, e não melhora quando descobrimos que o objeto existe. Lola namora Chad (Gregor Finn), mas eles terminam porque o rapaz diz que ficou com outra garota, e ela mente dizendo que está tudo bem, porque ela também ficou com outra pessoa no meio tempo. Não vou entender essa defesa, admitindo uma vulgaridade, mas deve ser o que acontece no mundo de hoje. O melhor amigo de Lola é Kyle (Booth), que é companheiro e atencioso, e só mesmo a personagem de Lola não sabe que os dois vão se apaixonar. Mas se eu citar todos os clichês do filme, vou me alongar muito.

A diretora continua nos apresentando elementos que funcionam até certo ponto. Por exemplo, quando Lola tem sua decepção amorosa com Chad, ela entra num banheiro e logo atrás dela tem um desenho rudimentar com os dizeres “burnt heart”, ou como ela começa a perder as cores nas roupas que usa. Mais pra frente, numa cena noturna, o chão da rua está molhado, e vemos um daqueles caminhões de limpeza que tem grandes mangueiras (para explicar, cenas noturnas têm grandes dificuldades para serem filmadas por causa da iluminação, e molhar o chão é um recurso que se usa para diminuir esse problema, e a diretora justificou a água com a presença do caminhão). Mas ao mesmo tempo ela toma decisões que não se justificam. O excesso de glows, por exemplo. É compreensível que isso aconteça quando a personagem Emily (Ashley Hinshaw) não tira os olhos do professor Ross (Austin Nichols), e toda as suas colegas de classe façam o mesmo, mas a diretora usa esse elemento visual à torto e à direito, não importa se a cena seja intimista ou passional. A falta de cuidado com filme chega ao cúmulo durante a desnecessária cena (pra não falar doentia) envolvendo um frango. Enquanto a mãe da personagem se indaga onde está a ave, dois integrantes da equipe se deixam filmar no reflexo de um microondas. Um esquecimento básico que quebra a magia do filme.

O universo adolescente é bem representado no filme, com os personagens adolescentes não fazendo telefonemas, e sim se comunicando por SMS e IMs (Kyle e Lola só se falam pelo telefone quando o assunto é muito sério, como se fosse coisas de adulto). O universo adulto, que fica à parte, é representado pela mãe de Lola, Anne (Moore). Ela passa por uma recaída pelo ex-marido Allen (Jane), onde os dois fazem de tudo para não admitirem que estão se vendo novo. É de se espantar que em determinada cena onde Anne não quer admitir para a filha que ela está vendo o pai novamente, e inventa uma história que vai viajar com algumas amigas. Mas prova não ter muito cérebro ao fazer isso quando se encontra com Allen, que dirige um carro conversível, na frente da própria porta. Longe de tratar a personagem como alguém inteligente. E não dá pra entender a reação de Lola com o caso. Ela não fica contente com a possibilidade de seus pais reatarem pelo motivo de “ser enganada”; e se existe alguma relação espinhosa com o pai, isso nunca é citado, pois Allen não é mostrado como alguém distante.

A diretora se perde dentro do próprio filme. Enquanto acerta em momentos doces, como em  uma cena entre dois personagens dentro de um avião onde não são necessárias palavras, e a ligação evocativa de uma certa bolsa vermelha, Azuelos abusa da narrações em off, dá um ritmo tedioso ao filme, não utiliza bem seus 100 minutos (ao ponto de eu me pegar pensando que o filme não acabaria) e utiliza de flashbacks desnecessários, repetindo cenas que aconteceram há menos de 60 minutos. As decisões dos personagens não tem razão para acontecer, principalmente aquelas onde se tudo fosse falado com o coração e com sinceridade, seria mais tudo mais fácil. Você, mulher, se coloque na situação que Lola passa na segunda vez que entra no banheiro (aliás, a escola tem só um?), e me diga que tipo de amiga faria a outra sofrer por tanto tempo?  E quando finalmente chegamos à Paris, com direito a piadas preconceituosas, o filme ganha um ritmo de vídeo-clipe. Afinal de contas, a diretora perdeu tanto tempo com tudo que aconteceu antes que precisa correr aqui para o filme não ter duas horas… o que seria bem mais maçante. O filme da muitas voltas até a batalha das bandas, a aceitação do pai de Kyle também ocorre muito rápido. Mas o que mais me incomoda é a suposta independência da personagem de Anne, mas que é uma reinvenção do conto-de-fadas com o príncipe no cavalo branco. O contraste do detetive James (Hernandez) que é refinado e um motoqueiro, com o ex-marido que faz as coisas escondidas e não é refinado (como mostra a cena da lanchonete) reflete o atrasado tema  onde a mocinha tem que ser salva, pois o James é um homem da lei.

“Lola” chamará a atenção dos fãs de Miley Cyrus, mas talvez os decepcione já que a atriz-cantora não canta uma só música no filme. É uma comédia que dá poucas risadas, chato, cansativo e repetitivo e parece servir pra lançar uma banda nova. Não duvido nada que logo teremos o “No Shampoo” tocando por aí…

“Lola” (LOL, 2012) tem estreia prevista no Brasil em 10 de agosto.

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