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Jack – O Caçador de Gigantes é um dos piores tipos de aventuras: aquela que não te diverte, pendendo ao tédio e ao cansaço.

Jack - O Caçador de Gigantes

Com Nicholas Hoult, Eleanor Tomlinson, Stanley Tucci, Ian McShane, Bill Nighy e Ewan McGregor. Roteirizado por Darren Lemke, Christopher McQuarrie e Dan Studney. Dirigido por Bryan Singer.

4/10 - "tem um Tigre no cinema"Podemos dizer que não é de se esperar muito de contas de fada. Eles serviam de lição de moral aos mais novos, desde não confie em estranhos, ou quando o coração é puro, tudo é possível. Mas “João e o Pé de Feijão” é diferente, pois se trata de aventura pura  ̶  e João é personagem bem sacana, já que ele roubou e matou o gigante, se você não levar em conta versão moralizada de Benjamim Tabart. E a produção multimilionária “Jack – O Caçador de Gigantes” tenta mimetizar esse espírito: um personagem aventureiro, que enfrenta medos e inimigos impossíveis. Infelizmente, o filme não é ao menos divertido, e serve apenas como entretenimento infantil. Seus personagens maniqueístas não levam à qualquer tipo de reflexão, atuações fracas, e um roteiro lento tornam a experiência tediosa e cansativa.

No reino fictício de Cloister, Jack, o filho de um humilde fazendeiro, e Isabelle, a princesa herdeira, ouvem as histórias sobre a lenda dos gigantes que invadiram o reino na época do Rei Erik. O flashback da história é por meio de uma animação onde os personagens parecem ser feitos de madeira com algumas pequenas rachaduras, representando que a história é muita antiga, dá um ar de originalidade e cria uma fantasia dentro de um mundo já fantasioso. Quando crescem, Jack (Hoult) e Isabelle (Tomlinson) seguem seus destinos: ele um plebeu, ela a herdeira forçada a se casar com um nobre, Lord Roderick (Tucci) por tradição e ordem do Rei Brahmwell (McShane).

Pelas dificuldades financeiras, Jack tem que vender um cavalo e um carroça na cidade. Lá ele conhece a Princesa Isabelle enquanto assiste uma encenação da lenda dos gigantes. Por algum motivo, Jack usa da piada mais batida do mundo “tem algum atrás de mim, não tem?”, que só serve para conhecermos Elmont (McGregor), o capitão da elite real. O roteiro, reescrito duas vezes, aposta em piadas óbvias e batidas, até quando finalmente Jack troca o cavalo por feijões mágicos, que vieram de um monge. E supõe que sejam mágicos mesmo, pelos trajes do religioso que, por ser que é, estava contando a verdade. Isabelle foge e se refugia na choupana de Jack, e durante a conversa os feijões se confirmam mágicos e fazem crescer o pé gigante, que leva a princesa até às alturas, enquanto Jack não pode fazer nada. Então, uma força-tarefa é montada para dar busca da princesa, e as lendas se confirmam.

Essa introdução toda é dotada de um marasmo gigantesco, com o perdão do trocadilho. A aventura demora tanto para começar que não vai ser difícil você se pegar quase cochilando durante os primeiros minutos. A coisa muda de figura quando o pé de feijão mágico cresce na tela, e Jack tem que cortar os grossos caules para tentar salvar Isabelle. Portanto, nos efeitos especiais o filme não decepciona, inclusive na criação dos repugnantes gigantes e seus principais personagens Fi, Fai, Fou, Fão e o líder deles, General Fallon (Nighy). A textura das peles é visivelmente mais grossa e enrugada, como se fossem mais afetadas pelo reino das alturas ficar mais perto do sol – além da falta de higiene – e as armaduras dos gastas dos gigantes, como se fossem um povo realmente antigo fazem um bom serviço à produção. Por outro lado, os personagens humanos não tem esse cuidado no mesmo quesito. Apesar do figurino estar condizente com uma região fantasiosa, é difícil de acreditar que alguém como Jack, que trabalhou anos numa fazendo tenha as mãos tão isentas de calos e uma pela que brilha tanto quanto a da princesa, essa sim com motivos de sobra para ter uma feição mais cuidada.

Mas notem o descuido com o roteiro. Uma dica para notar se uma solução é boa, é quando a história perde aquele elemento chave que a faz guiar, e é onde o roteirista pensa como sair do impasse. É preciso um mínimo de verossimilhança. Por exemplo, é aceitável que Elmont fique para trás e enfrente um traidor, enquanto Jack e Isabelle fogem, por seu senso de honra, e que o Rei mande derrubar o pé de feijão pelo bem maior. Mas quando a segunda cabeça de Fallon acha um pequeno objeto, num corpo já falecido, que impulsiona a história para seu arco final por nada mais que pura mágica, habilidade que o personagem nunca aparentou ter, vê-se que foi apenas por falta de solução, quase como um deus ex-machina.

"Jack - Caçador de Gigantes" - poster Brasil

Quando digo que o filme deveria ter algum tipo de conflito, não quero dizer que é necessário que cada filme seja o novo “Cidadão Kane”. Mas muita coisa em “Jack – O Caçador de Gigantes” é preguiçosa. Principalmente na questão dos gigantes serem a personificação de toda a maldade do mundo: são feios, sujos, nojentos e gostam de comer humanos sem cerimônia. Um filme feito para TV, também baseado no conto, em 2001 tinha melhores elementos do que esse. Na tentativa de fazer um filme de aventura, Singer e os roteiristas acertam em pouca coisa. O tom de comédia, as homenagens ao conto original  ̶  quando Jack cruza com uma harpa e um ovo de ouro decorado  ̶  a atuação tranquila e quase desprendida de McGregor, e como a história pode ir se modificando ao longo dos anos são bons pontos de destaque, além da qualidade da animação já citada. Mas o desenrolar da história quase no automático, questões técnicas como a fotografia, que parece não influenciar o clima em momento nenhum, e o total desconhecimento de Brian Synger como filmar em 3D, abusando do rack focus e da pequena profundidade de campo  ̶  por isso economize assistindo a versão convencional  ̶  trazem um conto bem fraco e digno de esquecimento assim que se sai da sala de cinema. E se a desculpa é por simplesmente ser baseado em contos de fada, minha sugestão é a seguinte: adapte uma história mais interessante.

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