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Snowpiercer, 2013

Com Chris Evans, Song Kang-ho, Tilda Swinton, Jamie Bell, Octavia Spencer, Ewen Bremner, Go Ah-sung, John Hurt, Ed Harris. Roteirizado por Bong Joon-ho e Kelly Masterson, baseado nos quadrinhos de Jacques Lob e Jean-Marc Rochette. Dirigido por Bong Joon-ho (O Hospedeiro).

10/10 - "tem um Tigre no cinema"Ignore o fato de Expresso do Amanhã estar a dois cliques de distância de você. A distribuidora brasileira perdeu timming e perdeu para a pirataria, mas finalmente poderemos ver o filme como ele merece. A fotografia cinza e gélida foi feita para ser vista numa sala escura, e a história é envolvente e emocionante. E, assim como na fotografia, mesmo os heróis têm tons de cinza, perdidos nos próprios pecados, tanto quanto os seus antagonistas. É uma ficção científica atual – ainda que com ecos de outras produções – instigante, incrivelmente bem escrita e dirigida, e que competentemente apresenta uma discussão, a grande tarefa do gênero.

Do começo ao fim, esse é um filme para se rasgar elogios – assim como os figurinos da traseira do Perfura Neves. Naquele lugar sujo que parece ser esquecido por algum deus, Curtis (Evans) e seus companheiros mais pobres dividem um espaço minúsculo, constantemente se trombando, e tendo que dormir praticamente um por cima dos outros. Como podemos perceber, a crítica social daquele lugar é quase um microcosmo da nossa sociedade atual. E percebemos isso bem claramente quando uma mulher que está acima do peso, limpa e vestindo amarelo vem para sequestrar duas crianças: ela é a representação de tudo que há de errado no trem/sociedade.

Desse lado, há uma representação interessante que representam gerações. Gilliam (Hurt) é o mais idoso, anda com dificuldade por ter perdido os membros, seus óculos lhe dão um ar de sábio, e é interessante notar uma figura de Cristo quebrada em seus aposentos – um signo importante quando descobrimos seus sacrifícios e pecados. Curtis é o herói cansado, com olhar penetrante, barba por fazer, sempre atento, mas que carrega o peso do mundo nas costas. Edgar é o legado, um jovem ainda imberbe, e que ainda não tinha completado a passagem da adolescência para a vida adulta. Essas três gerações representam como foi viver, cada um a seu modo, nesse lugar fechado.

Já do lado de lá, além da moça de amarelo, Mason (Swinton) encarna uma figura até histórica. Ela representa o que um dia os brancos achavam dos negros, os nazistas achavam dos judeus, e o que muitos homens acham das mulheres: cada um pertence ao seu lugar. Num misto de divisão de classes e religião – é impossível não se lembrar do sistema de castas da Índia quando ela compara os passageiros da traseira com sapatos – com o clássico Metrópolis (1927, dir Fritz Lang) Mason é um retrato constante da nossa sociedade, tão assustadoramente real mesmo hoje. O figurinista a veste num casaco roxo, um tom tradicionalmente ligado à realeza e a também à morte para separar ainda mais esses dois mundos.

Iniciada a revolta e a ação, Joon-ho Bong constantemente movimenta sua câmera da esquerda para direita. E nesse progresso, a fotografia de Kyung-pyo Hong muda de tom pouco a pouco. Desde o ambiente iluminado apenas por luzes artificiais, passando vagão a vagão com luzes mais fortes e algumas naturais – com direito a personagens quase serem cegados com a primeira visão da luz do dia em anos. E cada vagão parece cada vez mais surreal. Primeiro, há o confronto com soldados sem rostos e mascarados, o que é muito interessante, pois Bong frisa que aquela é uma luta contra um sistema e não contra pessoas. E há uma mudança de paradigma, porque se na parte de trás os soldados usavam armas que não funcionavam, enquanto iluminados por uma luz artificial, nesse confronto as armas são machetes e machados, banhados pela luz do dia: armas reais, luz de verdade.

O diretor raramente apela para efeitos de slow motion, mesmo nas cenas de ação. Mas quando as utiliza, é de uma beleza plástica fascinante entrar na percepção de Curtis. Na primeira batalha, a cena acontece em lentidão por um motivo que será explicado perto do fim do filme, uma lembrança que ficou na retina do protagonista, na última vez em que ele viu tanto sangue. Outro slomo acontece na boate já na parte frontal, que tão é inacreditável para Curtis que o tempo para ele, naquele momento, passa devagar pela loucura que é as pessoas tendo o luxo de usarem saunas enquanto outros a alguns metros dali passam fome.

Durante a narrativa percebemos outros signos interessantes. Quando Mason é capturada por Curtis e seus companheiros, ela se segura numa fé cega em que Wilford (Harris) será misericordioso com ela. Mas quando ela percebe que a situação não é essa, a estranha comandada se segura ao instinto de sobrevivência barganha pela vida com Curtis, e até tira a dentadura para parecer mais humana. Outro momento marcante nesse quesito é quando aparecem os ovos cozidos. Em algumas culturas, o ovo é representa a alma ou ressureição – algo incorporado pela nossa cultura com os ovos de páscoa – e é interessante notar que debaixo desse símbolo se escondia a morte.

Os personagens da história estão longe de serem aqueles heróis incorruptíveis e, assim como a música de Marco Beltrami, tem tons bem sombrios. Curtis não hesita em matar uma mulher grávida que colocou em risco a vida de seus amigos. O engenheiro Namgoong Minsoo (Song) é tão problemático que teve der ser isolado dentro de uma sociedade já isolada. E, conforme a história vai avançado, conhecemos o pecado de cada um, que culmina na revelação de Curtis que é de cortar o coração. A inocência é representada pela filha de Namgoong, Yona (Ko) e as duas crianças que são levadas na narrativa. Não é de se admirar que o branco da neve, representando a pureza, fica exclusivamente do lado de fora de praticamente toda a história.

Mostrando que a sociedade não deixou totalmente para trás outros conceitos, vemos que mesmo nesse futuro distópico ainda há espaço para se segurar na necessidade de registrar acontecimentos, de contar o tempo e de acreditar em alguma solução religiosa – não necessariamente todas as pessoas têm as três necessidades ao mesmo tempo, mas é preciso admitir que isso faz sentido.

Expresso do Amanhã | Pôster brasileiro

O Expresso do Amanhã é, como tantas outras boas ficções científicas, uma bela reflexão à sociedade. Aqui são escancarados preconceitos, aflições da alma humana, como a mentira parece tentadora e necessária e o que é preciso sacrificar para o caminho correto. O Perfura Neve é uma representação pessimista, mas talvez verdadeira, da raça humana. Temos que nos perguntar realmente se existe menos gente de boa índole nesse planeta que faz a sua própria viagem eterna. Talvez a maioria dos viajantes dessa nave que chamamos Terra mereça encontrar seu fim, mas vale a pena lutar pelos inocentes, os mansos que um dia a herdaram. E histórias assim nos fazem pensar o que deixaremos para eles.

Sinopse oficial

O longa é baseado na HQ francesa Transperceneige que aborda uma mudança climática que já dura por 17 anos e congelou o mundo inteiro. A única saída para os sobreviventes é o trem Expresso do Amanhã, que circula sem paradas e separa os passageiros por classes sociais. Enquanto alguns passam fome e frio, outros vivem no luxo.

Insatisfeito com essa divisão, Curtis (Chris Evans), um jovem líder da parte mais miserável do trem-máquina, desperta nos outros uma revolta e ele e seus companheiros resolvem invadir os demais vagões em busca da autoridade que está por trás de toda a injustiça e crueldade que comanda o trem.

Veja o trailer de Expresso do Amanhã

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