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Ao se afastar bastante do que já foi feito, o novo Assassinato no Expresso Oriente encontra uma identidade e se diferencia das outras versões.

Assassinato no Expresso Oriente | Crítica

Elenco: Kenneth Branagh, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Judi Dench, Johnny Depp, Josh Gad, Derek Jacobi, Leslie Odom Jr., Michelle Pfeiffer, Daisy Ridley | Roteiro: Michael Green (Blade Runner 2049) | Baseado em: Assassinato do Expresso Oriente (Agatha Christie) | Direção: Kenneth Branagh (Thor) | Duração: 114 minutos

Lendas memoráveis sempre acham uma maneira de voltar, sendo elas verdadeiras ou não. É o caso do detetive belga de Agatha Christie e o Assassinato no Expresso Oriente, um filme que encontra na megalomania shakespeariana de Kenneth Branagh algo de moderno, mantendo a alma clássica. O diretor se afasta das outras versões do personagem – seja a do filme de Sidney Lummet, a encarnação de Peter Ustinov ou da série britânica com 13 temporadas com David Suchet – mudando trejeitos, alguns traços da personalidade e adicionando um humor que existe de maneira bem mais sutil na obra da escritora britânica, entregando uma obra que chama o interesse exatamente por tais exageros.

Para se diferenciar de outras interpretações, esse Hercule Poirot (Branagh) ganha tons mais pitorescos ao começar pelo bigode, marca registrada do detetive. Antes preto e fino, agora é ele é largo e se liga às costeletas. Essa marca visual é uma tentativa de se afastar de comparações, assim como o jeito mais caricato do belga e sua obsessão por equilíbrio que nos traz algumas cenas divertidas; como a figura da justiça, ele quer pesar as coisas e tudo que é fora do nível, do sim ou não, o incomoda – por mais nojenta que a situação seja. É interessante apontar que o primeiro caso de Poirot é um establishing shot da personalidade dele e não do lugar que está.

Com esse prólogo rápido para quem, por acaso, não conheça a figura genial que Poirot é, Branagh começa a colocar suas peças no tabuleiro, mostrando que o detetive deve contar com um pouco de sorte e descuido dos personagens – mas somos partícipes dessa investigação e Poirot não nos esconde nada. Por exemplo, quando ele deduz que Ratchett (Depp) não é quem ele diz ser, o belga preenche lacunas com a história pregressa de um sequestro e assassinato para que possamos continuar nossa jornada com ele: tudo o que o detetive sabe, nós sabemos – isso não quer dizer que esse é um mistério fácil e não por acaso é o caso mais conhecido do personagem.

Notamos também que existe algo de onírico na primeira parte da história, antes do assassinato, onde o cinematógrafo Haris Zambarloukos pinta o céu com cores vivas e fortes, como saídas de uma pintura romântica de Wlliam Turner, indicando que é quase providencial que Poirot estivesse no Expresso do Oriente, um lugar que em breve se torna palco do assassinato de um figura detestável –  e é bem simbólico que tal personagem seja interpretado por alguém que hoje caiu em desgraça por causa de suas ações – com ares clássicos de vilões como ser rude com seus empregados, as cicatrizes e a ideia de que o dinheiro pode comprar tudo.

E quando o trem e seus ocupante encontram o caminho coberto por neve, a fotografia tem tons mais duros e com quase nada dessa fantasia – a realidade chega e o drama começa. Para aliviar um pouco a sisudez da trama, Branagh se coloca caindo, tropeçando e até sendo uma figura fisicamente ativa – aqui é menos Poirot de Christie, o que incomoda um pouco quem está acostumado com as aventuras nos livros e em outras adaptações. O que não é algo ruim, pois esse Poirot não é um baixinho atarracado, mas tampouco é um jovem capaz de altas proezas. É sim algo menos interessante que o jeito que suas células cinzentas trabalham; mas ao mesmo tempo condiz com a figura do ator.

E graças ao fantástico material original, esses deslizes são relevados. Sem falar, claro, na força do elenco. Entre caras mais experientes e novas no cinema, cada um daqueles doze personagens conta suas histórias entre mentiras e verdades, confinados com um caçador de mentes. A maior qualidade na interpretação de cada um é a frieza com que a maioria conta a própria história para Poirot, cada um firme como pedra, ainda que cheio de mãos para cima e para baixo, numa história que ganha por ser perfeita ao mesmo tempo que não é. É difícil até mesmo destacar um acima de outro em questão de qualidade, com exceção de dois ou três que praticamente somem da narrativa.

Apesar de não ser cansativo, pois o filme precisa gastar algum tempo pelo menos em cada um dos personagens, a produção fica um tanto tediosa no desfecho, de novo com o exagero teatral de Branagh ao colocar todos os suspeitos numa mesa que remete à Última Ceia de Leonardo da Vinci e nas ações mais físicas, apesar de poucas, e não de raciocínio por parte de Poirrot, onde o perfeccionismo é tratado mais como piada para animar o clima do filme do que algo que realmente sirva para a narrativa. O que não é um defeito, mas quando falamos modernizar, parece que intrinsicamente seja preciso inserir piadas para que o gosto seja aceitável para o grande público.

E isso não são palavras para descreditar a obra. Pois se fosse mais parecido com os filmes e séries citadas na introdução dessa crítica, a nova versão de Assassinato no Expresso Oriente seria mais alvo de comparações indevidas. A modernização de visual e a introdução de mais piadas é sim para deixar a história mais atrativa para quem não está acostumado com o gênero policial, mas é preciso entender que esses momentos são verdadeiramente engraçados. E é bom perceber que, apesar dessas mudanças, o DNA da autora britânica está presente e continua tão evidente quanto o bigode daquele que é, talvez, o maior detetive do mundo.

Assassinato no Expresso Oriente | Trailer

Assassinato no Expresso Oriente | Cartaz

Assassinato no Expresso Oriente | Cartaz nacional

Assassinato no Expresso Oriente | Galeria

Assassinato no Expresso Oriente | Galeria (1)

Créditos: 20th Century Fox (Divulgação)

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Assassinato no Expresso Oriente | Imagens (6)

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Assassinato no Expresso Oriente | Galeria (9)

Créditos: 20th Century Fox (Divulgação)

Assassinato no Expresso Oriente | Sinopse

Um assassinato ocorre no Expresso Oriente, um trem de renome internacional. Todos do vagão são suspeitos. Essa é uma missão para o passageiro de última hora. Aquele que talvez seja o melhor detetive do mundo: Hercule Poirot.