Anomalisa | Crítica | Anomalisa, 2015, EUA

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Em Anomalisa, Charlie Kaufman faz uma análise profundo do que é ser humano.

Anomalisa

Com David Thewlis, Jennifer Jason Leigh, Tom Noonan. Roteirizado por Charlie Kaufman. Dirigido por Duke Johnson, Charlie Kaufman.

Mais uma vez Charlie Kaufman te fará refletir sobre a vida num filme denso e que fala das dores que cada um pode ter.

10/10 - "tem um Tigre no cinema"Tudo é muito estranho em Anomalisa. Não é a típica animação que você está acostumado. Se hoje há uma tentativa de fazer você se perguntar se aquilo que está vendo é CGI ou filme, Kaufman e Johnson apresentam elementos claramente fora do eixo como o escritor ouve e vê as pessoas a seu redor. Durante todo o primeiro ato a audiência se sentirá incomodada com vozes masculinas e iguais saindo de todos os outros personagens – sejam mulheres ou crianças – e é nesse questionamento que o filme não sairá da sua cabeça. E não se preocupe, as respostas virão. Mesmo que demore um pouco.

Kaufman nunca foi visto como um diretor fácil pela maioria do público. E por isso o universo estranho criado aqui – e em seus filmes anteriores – é tão interessante. Podemos começar pela própria construção do nome de Michael Stone (Thewlis), onde traduzimos literalmente seu sobrenome. Sua visão do mundo é dura e fria. Por seus próprios motivos, e que talvez o próprio nunca venha a entender, ele acha que todas as pessoas são, sem exceção, iguais e banais. E talvez por um distúrbio psicológico ele enxergue todos a seu redor com a mesmo rosto estático, olhos azuis e voz sem entonação. Referenciando a si próprio, lembra Quero Ser John Malcovich (Being John Malkovich, 1999) ao contrário já que dessa vez não é ele o centro do universo – pelo menos não nos mesmos termos.

A visão mais simples e talvez imediata seja dizer que aquelas pessoas usam máscaras. Porém, o sentido de uma máscara seria esconder o seu eu verdadeiro, e não são as pessoas em volta de Michael que fazem isso. Ele que decide mudar o rosto das pessoas, encaixando um padrão chato escolhido por ele. A parte mais marcante do filme que mostra essa diferença entre máscara e encaixe acontece numa alucinação do personagem em que ele mesmo perde esse pedaço que o diferencia tanto dos outros. Talvez demore um pouco para você perceber isso por estar tão ligado na estranheza das vozes e rostos, mas vale a pena pensar um pouco nessa parte da psique de Michael.

Até que vem Lisa (Leigh) e transforma seu mundo. Michael resolve, finalmente, seguir seu próprio conselho e focar no que é importante em cada indivíduo. Ele ouve Lisa com sua voz verdadeira, se apaixona por ela até nas suas ditas imperfeições como uma cicatriz do lado do olho e um ligeiro excesso de peso. Certamente seria difícil entender como alguém se apaixonaria tão rápido por uma pessoa, mas naquele momento Lisa é especial. A fotografia é mais cálida e até o jeito de cantar da personagem agrada a Michael.

Nessa hora é importante fazer um paralelo entre a voz da representante de vendas e até mesmo as coisas mais simples que rondam o universo de Michael que chega a ouvir no seu tocador de músicas as vozes comuns ao invés do áudio – digamos assim – original. Pensem por um momento como seria horrível viver num mundo fechado assim. Sem nuances, sem diferenças, sem o prazer de se comunicar e entender as pessoas. Talvez você conheça pessoas assim. Alguém cuja a tristeza está constantemente batendo na porta.

O mais interessante é notar que Michael é o único culpado por isso. Ainda no primeiro ato ele entre em contato com um antigo amor que, assim como todos com exceção dele e Lisa, tem a mesma voz (Noonan). Ele é um homem triste, com certeza, mas o paralelo marcado entre essa antiga namorada e Lisa mostra como ele se sente em relação às pequenas coisas que o irritam. Muito provavelmente essa mulher, que hoje para ele tem a mesmo rosto e voz que o resto do mundo, o fez feliz. E por algum motivo mesquinho – que dá a entender que seja o sexo – e outras manias os separaram.

Cheio de questionamentos clássicos, sendo o mais marcante sobre o que nos faz humanos, Anomalisa é uma obra magnífica. Seja pela composição de quadros ou desenvolvimento e discussão de ideias. É uma obra bem adulta, apesar da técnica stop motion, com momentos doces, engraçados e deprimentes. Para fechar tudo com destreza, Kauffman se posiciona politicamente em relação a administração Bush e a invasão do Iraque, o que faz todo sentido em relação ao sentimento de Michael para com os outros. O diretor colocou sua alma nessa produção artística, transformando a sensação de que a nação americana estava perdendo sua humanidade em filme. São essas pequenas pérolas que devem ser mais apreciadas.

Anomalisa | Pôster brasileiro

Sinopse oficial
A animação em stop motion, Anomalisa, de Charlie Kaufman e Duke Johnson, conta a história de Michael Stone. Marido, pai e respeitado autor de “Como Posso Ajudá-lo a Ajudá-los?”, ele é um homem incomodado com a rotina da sua vida. Durante uma viagem de negócios para Cincinnati, onde está programado para dar uma palestra em uma convenção, ele se surpreende ao descobrir uma possível escapada de seu desespero: Lisa, uma despretensiosa representante de vendas, que pode ou não ser o amor de sua vida.”

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About TIAGO

TIAGO LIRA | Criador do site, UX Designer por profissão, cinéfilo por paixão. Seus filmes preferidos são "2001: Uma Odisseia no Espaço", "Era uma Vez no Oeste", "Blade Runner", "O Império Contra-Ataca" e "Solaris".