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Com Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo,  Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Stellan Skarsgard e Samuel L. Jackson. Roteiro e direção de Joss Whedon (Serenity).

“Os Vingadores” é o sonho realizado de metade do mundo nerd. Mas a Marvel fez um bom trabalho nos filmes anteriores, criando um trama que, em sua maior parte, não prejudica o espectador comum que não leu os quadrinhos (por exemplo, um decenauta, como eu). Mas qual foi o resultado de tanto alarde? Um bom filme. Não muito longe de ser “muito bom”, mas definitivamente distante de ser “ótimo”, como a maioria dos fãs tem reportado nas redes sociais, e alguns sites como o Rotten Tomatoes. Como esperado, é divertido e cheio de ação. É uma pena que o roteiro Whedon fica no superficial e com alguns furos. E um grande receio que eu tinha se confirmou aqui. Esse foi o primeiro filme produzido após a compra da Marvel pela Disney e isso muda muito o tom do filme, o que o fez o cair para um censura menor, visando mais lucro (como se um filme assim não desse rios de dinheiro).

Depois de um curta introdução (bem sombria, para esconder as surpresas), já caímos na situação nada bem que a S.H.I.E.L.D. está passando. Nick Fury (Jackson) chega com seu jeito badass e com grande importância na tela: Whedon coloca a câmera praticamente no chão para mostrar a imponência do diretor caolho, e repetirá isso mais de uma vez durante a projeção. Encontramos muito abaixo da superfície o problema. A Tesseract (que, aliás, não vi nenhum fanboy reclamar que não o chamam  de “Cubo Cósmico”), o objeto encontrado pelo Caveira Vermelha em “Capitão América” (Captain America, 2011), está abrindo um portal para que alguma coisa atravesse. E o que chega é o semideus Loki (Hiddleston), com um sorriso de orelha à orelha. Foi uma decisão acertada de Whedon cortar a trilha nos momentos em que Loki ataca, aumentando a tensão. O asgardiano domina as mentes de agentes da S.H.I.E.L.D, incluindo Clint Barton/Gavião Arqueiro (Renner) e o Dr Erik Selvig (Skarsgard). Aqui tenho que apontar um furo do filme. Estava claro na cena extra de “Thor” (Thor, 2011) que o Dr. Selvig estava sob a influência de Loki. Por que isso não é citado? E como Fury sabia das consequencias da liberação da energia da Tesseract? Enfim, notem como é interessante que os olhos dos possuídos ficam apagados, como se estivessem sem vida.

Descobrimos que a “Iniciativa Vingadores”, citada por Fury em “Homem de Ferro” (Iron Man, 2008) não existe mais por ordem do Conselho da S.H.I.E.L.D., todos velhos e e escondidos em sombras. Mas a situação está desesperadora (palavras de Fury) o suficiente para chamar os eleitos para o grupo. Então, vamos sendo reapresentados aos heróis e suas personalidades (algumas bem superficiais): Natasha Romanoff/Viúva Negra (Johansson) está na Rússia sendo eye candy; Bruce Banner/Hulk (Ruffalo, num esforço de atuação que me surpreendeu) tenta controlar sua personalidade explosiva na Índia (aqui o diretor de fotografia Seamus McGarvey dá um tom vermelho à fotografia. Além de ser próprio da Índia, é também da personalidade do Hulk); Steve Rogers/Capitão América (Evans) e sua força bruta (a sua porção estrategista vai aparecer mais pro fim do filme), com os curtos flashbacks de como ele foi descongelado, apesar de não poderem ser propriamente memórias dele (que são sincronizados com os socos); e Tony Stark/Homem-de-Ferro (Downey), mais um cérebro do grupo e piadista oficial (a partir daqui, o filme deve ter uma piada a cada 2 minutos… e são boas).  Existem duas cenas que envolvem vestimentas que são dignas de notar: o questionamento do Capitão quanto ser antiquado o uso de listras e o azul no uniforme, e até mesmo do american way of life; e a homenagem ao clássico Hulk, com Banner usando uma camisa roxa. Pra quem não se lembra, a calça tradicional do Hulk era roxa (além disso, Lou Ferrigno, o Hulk do série de TV dos anos 1970 dubla a voz do monstro esmeralda).

A aparição pública de Loki é cheia de pompa e circunstância, permeado pela clássica música de Franz Schubert(?). A primeira luta entre o Capitão, Homem de Ferro e a Viúva Negra acaba com a captura de Loki. O que não dura muito tempo, porque Thor (Hemsworth) resolve tirar satisfação dos atos do irmão. Essa é a parte mais escura do filme, e não serve para esconder nenhum defeito de efeitos especiais, mas sim para mostrar a frieza de Loki (ele, um descendente dos gigantes de gelo) e do próprio povo nórdico de Asgard. E chegamos num dos pontos mais esperados do filme. Existe uma HQ de comédia chamada “Sérgio Aragonés Massacra a Marvel”, onde há uma fala do Demolidor que diz “Regra 178 da Marvel: Quando dois ou mais herois estão juntos, devem brigar sem motivo aparente”. A briga entre o Homem de Ferro e Thor tem direito à piadinhas por parte de Stark, e muita pancadaria. Em certo momento os dois trocam cabeçadas, mostrando como são cabeças-duras. A contenda só acaba com a chegada do Capitão, que antes tem uma das frases mais espirituosas do filme: “Só existe um Deus, madame. E eu tenho certeza que ele não se veste assim”. A luta acaba sem vencedor ao perceber o estrago que só os três fizeram.

O filme corre um pouco a essa hora, e isso mostra mais partes frágeis do roteiro. Por exemplo, quando Loki contou seus planos para Thor? Como já passamos da metade do filme, as coisas tem que se apressar. Então, a discussão sobre a desconfiança dos demais com os segredos de Fury e da S.H.I.E.L.D. são bem apresentados, com a tensão quase explodindo na sala, usando mudanças bruscas de ângulo da câmera, da explicação da tentativa de suicídio de Banner, culminando nele pegando o cetro de Loki…. para não fazer nada. A partir daí que all hell breaks loose. Banner se transformando em Hulk (aliás, as primeiras cenas da transição me pareceram bem fracas comparadas com o resto), os Chituari e o Gavião Arqueiro atacando o porta-aviões flutuante da S.H.I.E.L.D. (que se mostra bem estável, apesar de estar em queda livre) e uma morte importante… mas com pouco sangue, afinal, é um filme PG13!

[SPOILERS a partir desse páragrafo!] A correria da parte final do filme, amenizada pela conversa de Stark com Loki, é a base para os filmes de ação que não te dão tempo para pensar. Existe um relance de estratégia nas palavras do Capitão América, mas depois o filme simplesmente acontece. Ação e reação. E nos deixa no ar algumas perguntas. Por exemplo, os tiros da Viúva Negra são bem eficazes contra a força invasora, ao contrário dos tiros dos policiais (aliás, num determinado momento, a Viúva atira no nada, mostrando um erro de montagem). Os inimigos que o Capitão enfrenta parecem ser bem mais duros de derrubar, tendo que usar seu “pesado” escudo de Vibranium para dar conta do recado. E a explicação do controle da transformação de Hulk? Digo, parece claro que Banner pode se transformar no Hulk quando quiser e manter um nível de inteligência. Por que isso não aconteceu antes, na nave da S.H.I.E.L.D.? Pra compensar e dar o status de diversão, a projeção conta nos momentos finais  lutas com momentos que valem o ingresso, como a destruição das víboras, o soco amigável de Hulk em Thor, e a sova do gigante esmeralda em Loki, enquanto este resolve dar uma discurso elaborado (cena, aliás, que arrancou palmas da audiência). É uma pena enorme que uma das cenas mais importantes, que é o salvamento do Homem-de-Ferro pelo Hulk esteja no trailer. Porque quando a cena do míssil está para acabar, você sabe qual vai ser o resultado. [Fim dos SPOILERS!]

“Os Vingadores” cumpre bem o propósito de entreter, e já é suficiente para que seja assistido nos cinemas. E não é só pelos efeitos especiais. Acreditem, a atuação de todo o elenco principal está excelente. Até mesmo a de Mark Ruffalo, que tenho grandes restrições. Outros preciosismos, como usar a filmagem estilo handycam, que aproxima e desfoca cenas pra variar o estilo quase composto por travellings é uma boa quebra. Sobre os problemas do filme, tenho que comentar a música de Alan Silvestri, que não é marcante (fora o tema principal, mas que não me fez assobiar enquanto saia do cinema), e a decisão de ocultar toda a violência e, consequentemente, a tragédia e o drama que um ataque em massa à um centro urbano traria. Essa é a marca Disney no filme, infelizmente.

Como sempre, não se levantem antes dos créditos. E não assistam a versão dublada. Além dos malefícios óbvios de tornar o cinema como um arte menor, existe uma cena que foi cortada na versão… provavelmente não conseguiram lidar com o problema do som do ambiente.