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Rainha de Katwe é uma contagiante história de superação e uma importante produção para a representatividade negra e feminina.

Rainha de Katwe (2016)

Elenco: David Oyelowo, Lupita Nyong’o, Madina Nalwanga | Roteiro: William Wheeler | Baseado em: The Queen of Katwe: A Story of Life, Chess, and One Extraordinary Girl’s Dream of Becoming a Grandmaster (Tim Crothers) | Direção: Mira Nair

9/10 - "tem um Tigre no cinema"Há uma alegria contagiante em Rainha de Katwe. Ao invés de se perder no melodrama, a diretora Mira Nair prefere contar a força de um povo num filme onde a crítica social anda de mãos dadas com o entretenimento do cinema. As cenas que se passam na favela de Katwe são duras e muitas vezes tristes, mas o lugar não é usado como muleta narrativa. Os acontecimentos dali tem a função de nos tirarem do lugar de conforto, uma realidade que a maioria de nós não vive. O cinema torna-se então uma plataforma para uma cultura pouco explorada em produções ocidentais, quebrando paradigmas hollywoodianos com um elenco majoritariamente negro e com uma mulher na direção para sair do marasmo tão conhecido por nós.

A verdade é que a África, em geral, é esquecida por nós. Seja na ficção ou na vida real e é por isso que Nair toma algum tempo para contar como é a vida de Phiona (Mutesi – em seu papel de estreia) e de sua família em Katwe, e como há camadas dentro de camadas, mesmo em sociedades já injustiçadas. Nakku (Nyong’o) vive na margem da margem por não ter um homem que cuide dela – como diz sua senhoria – e vê uma das filhas recorrendo à prostituição pela necessidade desse lugar. A própria Phiona é colocada um tanto de lado no começo do seu interesse pelo xadrez por causa de seu cheiro. Esse mosaico é montado ainda no primeiro ato, e leva um tempo para entrarmos na parte mais interessante da história. Mas era necessária para o choque com a realidade dos mais privilegiados.

Assim como no xadrez, a vida Phiona é cheia de conflitos. Seja contra um grupo de garotos que caçoam pelo cheiro que a jovem carrega de tanto trabalhar ou o desafio de encarar outras realidades – numa escola abastada de Ugando ou num torneio internacional – a jovem é a representação de um povo, assim como sua mãe. Um pouco mais a frente na narrativa, o professor de xadrez Katende (Oyelowo) pergunta se Phiona não era descendente de algum grande guerreiro do passado. Não é está muito longe da verdade, porque como Nakku batalha pelo mínimo para seus filhos é digno de qualquer grande guerreira. A luta para sobreviver que é passada para o tabuleiro.

Há um ou dois momentos que a narrativa fica explicativa demais, o que prejudica ligeiramente o ritmo da história. A mais óbvia é a do peão que, casa a casa, pode se tornar uma rainha e que por ser a péssima mais simples é a que pode chegar mais longe. Esse paralelo entre o peão e Phiona estava implícito e não precisaria de mais explicações. É um detalhe mínimo, no entanto, e não faz mal ao resultado final da produção. Seria injusto, inclusive, a se atentar a esse fato para denegrir a produção que tem muito mais dentro de si para contar.

E diferente de tantas obras pasteurizadas – entre continuações e remakes – apesar de ser uma cinebiografia, o filme conta com uma identidade própria que integra fotografia, direção de arte, figurino e música. Os tons africanos da trilha sonora com tambores e percussões fazem parte da paleta amarelada e marrom da fotografia, que conversam com as cores presentes no gueto – no chão de terra, nas paredes das casas puídas – e que pintam uma realidade tangível, uma que parece estar perto de nós o suficiente para sentirmos. Eis um dos grandes trunfos do filme: conseguir nos transportar para a realidade de Phiona e Katwe.

Apesar da alegria contagiante de Phiona e Katende, o filme não é transformado em um conto de fadas ao mostrar que viver em Uganda ainda é perigoso. Há choques de realidade na vida de Phiona que vão desde males físicos às intempéries – tanto reais quanto simbólicas. Quedas, sensações de não pertencer àquele lugar e síndrome do regresso estão presentes na vida nessa jovem de 14 anos que não deveria ter tanta pressão. Simbolicamente, Phiona é o retrato de tantas crianças que acham que não podem fazer além do que foram criadas. Pode parecer um clichê dizer isso, mas dar oportunidades é tudo para uma pessoa.

A diretora não deixa de transformar os momentos dos pioneiros – chamados assim por Katende – em batalhas. Elas estão no plano social, psicológico ou físico sem apelar para a violência (que não é a essência do xadrez). E quando uma dessas peças vai avançando aos poucos com suas estratégias. Katende, sempre com a cara de bom moço, vai abrindo caminho com uma torre para encontrar financiamento para seis alunos continuem aprendendo a jogar. Ele tem que contar até com sua astúcia para convencer Nakku, ela uma rainha também, a deixar que Phiona e seu irmão viagem a um toneio. De quadro a quadro de um tabuleiro que chamamos de vida, os peões vão sendo promovidos.

A história começa com uma característica típica das crianças. Por causa de sua curiosidade, Phiona conhece um novo mundo que entra em conflito com outro tão maltratado que é preciso dar valor às pequenas coisas como uma única batata que sua irmã lhe dá, sustento do trabalho noturno. Phiona então entra aos poucos num mundo maior por meio de frestas, como a primeira vez que viu Katende ensinando xadrez a outras crianças. Pouco a pouco, a jovem aprende e se desespera, como qualquer pessoa abrindo horizontes. Depois de uma hora de filme, tempo que aparecem os primeiros personagens brancos – deixados com razão em terceiro plano – Phiona sente o peso desse novo mundo, tão bem representado por um galpão com pé direito altíssimo e numa câmera opressiva e com closes fechados.

Rainha de Katwe é uma história de superação e para quem busca inspiração, como as duas garotinhas que pedem para que Phiona não desista do próximo torneio. Há vários personagens, mas mesmo assim seus arcos são bem definidos e se completam sem deixar pontas soltas. Há naturalidade nos personagens – Nyong’o em especial, mas a jovem Mutesi também – e na maioria dos diálogos. Equilibrado entre o drama e a comédia, nos dá satisfação acompanha-los em suas jornadas. Além disso, é uma produção que dá voz aos menos favorecidos – mulheres e a população africana – e isso já é motivo suficiente para ser assistido e discutido.

Rainha de Katwe | Trailer

Rainha de Katwe | Pôster

Rainha de Katwe | Cartaz

Rainha de Katwe | Imagens

Rainha de Katwe | Galeria

Créditos: Divulgação

Rainha de Katwe | Galeria

Créditos: Divulgação

Rainha de Katwe | Galeria

Créditos: Divulgação

Rainha de Katwe | Galeria

Créditos: Divulgação

Rainha de Katwe | Galeria

Créditos: Divulgação

Rainha de Katwe | Sinopse

‘Rainha de Katwe’ é baseado na vibrante história verídica de uma jovem garota das ruas da região rural de Uganda, cujo mundo rapidamente se modifica quando é apresentada ao jogo de xadrez, e, como resultado do apoio que ela recebe de sua família e da comunidade, é convencida da confiança e determinação de que precisa para correr atrás de seu sonho de se tornar uma campeã internacional de xadrez”.

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