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Com Meryl Streep, Tomy Lee Jones, Steve Carell e Elisabeth Shue. Roteirizado por Vanessa Taylor. Dirigido por David Frankel (Marley e Eu).

É um fato que o mundo cinematográfico romântico é quase que exclusivamente dirigido aos jovens. Comédias românticas envolvem casais adolescentes, e até mesmo os filmes de ação tendem a criar pares com menos de 20 anos.  Mas “Um Divã Para Dois” vem para quebrar essa situação. O diretor David Frankel consegue tirar bastante substância do elenco principal, e cria um ambiente bem rico ao mostrar os lugares e as situação que o casal passa. É um filme muito leve, divertido e serve para mostrar ao mais jovens que nossos pais podem passar por situações constrangedoras. Mas sem exageros estilo American Pie. E num mundo onde o amor é tão surrado, precocemente sexualizado, e que as pessoas se juntam para fazer “test-drives, é bom assistir a um filme sobre segundas chances e perdão.

Kay (Streep) é uma esposa dedicada, que ama e admira profundamente o marido. Na primeira cena da atriz na tela, o diretor já a ilumina como se estivesse produzida para um desfile, e querendo “agitar” as coisas. Mas Arnold (Jones) se distanciou da esposa. Frankel separa os dois de vários jeitos na tela: as cores dos quartos que dormem (sim, eles não dormem no mesmo quarto), que no caso dela tem um rosa mais cálido, e no dele um azul mais melancólico; ele tem revistas financeiras e sobre golfe na cabeceira ao invés de fotos; e nas cenas de café-da-manhã é que parece que Kay mais sofre, porque Arnold nem olha para a esposa enquanto está comendo, só preocupado com seu jornal financeiro (aliás, mais uma característica do personagem: tudo o que ele faz é pensado em equivalências monetárias). Kay só consegue se defender dando um “sorrisinho falso-alegre”. E naquela casa grande, que um dia abrigou uma família, a relação dos dois ficou impessoal. É interessante ver a determinação de Kay para tentar resolver as coisas. As cenas que ela vai até uma livraria procurar um livro que a ajude é engraçada, calcada principalmente no trabalho corporal de Meryl Streep. E o diretor coloca outros detalhes que fazem simpatia no filme, como na cena em que Kay faz uma carinha feliz com o bacon e os ovos do café-da-manhã do esposo, no dia seguinte de ler o livro Dr Feld (Carell). Arnold é sempre obtuso, seja nas decisões ou nas roupas que veste (eles sempre usa roupas apertadas, mesmo os pijamas, numa decisão do diretor mostrar que o homem não relaxa). Kay decide viajar para um programa de conciliação de casais sugerido por Feld, mesmo sem o marido. Obtuso mais uma vez, diz que não vai acompanhá-la. Mas ele sente que a vida fica com menos cor sem a esposa, e o diretor de fotografia reforça isso bem ao deixar a casa mais escura enquanto ela parte.

Foi uma boa escolha que Steve Carell fizesse o papel do psiquiatra  Dr Feld. Foi a chance de se mostrar como alguém mais centrado, sem caras e caretas. E o diretor reforça essa sensação, sempre o colocando do lado menos iluminado da sala. É nessa sala que os dois atores dão mais de si e arrancam risadas dos espectadores. A separação física e emocional, o desconforto de falar sobre certos assuntos  e os sorrisos forçados são bem convincentes. Quando as coisas dão certo, os sorrisos que aparecem são naturais também. Você acredita que os dois são um casal, além de atores. Ou seja, é um bom trabalho de expressão dos dois. A vergonha de completar certas palavras é uma das melhores cenas das consultas. Acredito ser um dos melhores interpretações de Tommy Lee Jones.

O filme não é tão profundo, mas arranca risadas. É uma pena que a roteirista não consiga fazer que os personagens que aparecem no universo do casal e do doutor tenham alguma relevância. Os filhos de Kay e Arnold são praticamente “esquecíveis”. Assim como a bartender Karen (Shue), que parecia que faria alguma diferença na vida de Kay, ajudando a personagem a inverter os papeis em relação a Arnold, por ela sair por beber enquanto ele fica passeando em museus. Mas ficou só na promessa, o que mostra a inexperiência de Taylor na estreia na tela grande (e aponto que ela escreveu os dois episódios mais fracos da segunda temporada de Game of Thrones: “Garden of Bones” e “The Old Gods and the New“). Para compensar existe uma torcida gigantesca para que as coisas deem certo entres os dois, e esse é o maior trunfo da direção e do roteiro: criar dois personagens que sentimos profunda empatia. Com uma trilha sonora que é tão divertida quanto o filme, “Divã para Dois” é um filme com um bom equilíbrio entre romance, comédia e quando admitimos que certos problemas não são exclusivamente problemas só de uma parte. E não se esqueçam de ficar durante os créditos.

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