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Somos Tão Jovens aborda a juventude de Renato Russo de maneira poética desse e, consequentemente, mais alegre.

"Somos Tão Jovens", 2013

Com Thiago Mendonça, Sandra Corveloni, Marcos Breda, Bianca Comparato, Laila Zaid, Bruno Torres e Henrique Pires. Roteirizado por Marcos Bernstein (Meu Pé de Laranja Lima). Dirigido por Antonio Carlos Fontoura.

8/10 - "tem um Tigre no cinema"Ao focar na juventude de Renato Manfredini Jr, o roteirista Marcos Bernstein vai na contramão da figura que o foi criada em volta do cantor/escritor ao longo dos anos. Por isso, “Somos Tão Jovens” é uma visão mais poética desse período e consequentemente mais alegre. Não que a vida do líder da Legião Urbana tenha sido um mar de flores, mas a decisão de exaltar os bons momentos, sem se esquecer dos maus, foca nas vontades e esperanças de um garoto carioca radicado em Brasília, que muita vezes são as nossas também. Além disso, é um retrato muito bom da época e de uma parte importante do rock nacional.

Na introdução, fotografias da infância e adolescência de Renato Russo permeiam a tela enquanto uma versão de “Tempo Perdido” é entoada pelo Renato Russo do filme (Mendonça). Depois vamos passar pelos seus 16 anos, quando uma doença o deixou numa cadeira de roda por algum tempo, a descoberta do Punk Rock, a criação do “Aborto Elétrico”, amizades, paixões, e, finalmente, a gênese da Legião Urbana.

O estilo de câmera na mão adotado pelo diretor dá um tom documental e intimista ao filme. Parece mesmo que alguém começou a filmar o amigo se desenvolvendo musicalmente. Esse momentos são reforçados quando no meio da projeção quando são usados outros tons de fotografia, simulando câmeras super 8, e tons preto e branco e sépia. Algo mais pessoal, principalmente quando ele aparece junto da amiga Ana (Zaid).

"Somos Tão Jovens" - foto

Renato é retratado como alguém bem diferente e espontâneo. Por exemplo, ele tem certeza que acha o membro perfeito para a sua banda, e começa a persegui-lo no meio da rua. Petrus (Dalcia) estranha e quase manda o estranho passear, mas a sua empolgação pelo punk convence o sul-africano, que junto de Fê (Torres) e Flávio Lemos (Passi) formam o “Aborto Elétrico”. O design de produção também é interessante. Fontoura dá tons mais claros e mais iluminados no refúgio do quarto de Renato, enquanto a sala dos pais tem tons mais sóbrios. O figurino também é bem trabalhado, mostrando essa separação de ideias entre pais e filhos. Existe uma relação de carinho entre a família, mas essa separação é necessário para o tom da história. Interessante notar que o maior contato que Renato tem com o pai é numa discussão sobre os rumos que a política está tomando. Os dois quase saem aos tapas, mas Renato é sensato em pedir desculpas e diz que “a culpa também é minha”. O roteiro mostra então uma das muitas falhas da personalidade de Renato Russo, quase desconstruindo o mito.

"Somos Tão Jovens" - foto

Outra imagem desconstruída é a do “trovador solitário”. Depois de ajudar a expandir o cenário de Rock em Brasília e abandonar o “Aborto…”, Renato se lança na carreira solo. Mas essa persona é massacrada por Ana num dos momentos mais tristes do filme. Um a um, roteirista e diretor vão aflorando um personagem mais humano, com muitas qualidades, mas também cheio de defeitos. Seus colegas de banda que o digam, porque ele também é mostrado como egocêntrico.

Existem alguns problemas no filme, principalmente em relação ao ritmo. Apesar de ser relativamente curto (com 104 minutos) o diretor abusa em longas tomadas. A mais crítica é quando Renato sofre de seu próprio jeito com a morte de John Lennon. O personagem some em determinado momento para se achado por Ana numa cais, e Fontoura faz questão, sem necessidade alguma, de mostrar o caminhar inteiro dela desde que sai do carro na beira da rua, até chegar na ponta onde Renato está sentado. Além disso, posso citar que a atuação de Thiago Mendonça tem um vício irritante de falar pausadamente, praticamente vocalizando as sílabas. Outra é o visual propriamente dito do ator. A história começa na adolescência de Renato, em 1976 com 16 anos, e termina em 1982. Essa passagem de tempo não é aparente no ator. Fora a fase em que adota barba, ele parece sempre ter cara de moleque. E também é clara a intenção de limar o baixista Renato Rocha da história. Ele é sequer citado, apesar de participar de três discos da Legião Urbana, e os cortes na filmagem original no show do Circo Voador fazem questão de tirá-lo de cena.

"Somos Tão Jovens" - foto

"Somos Tão Jovens" - poster

“Somos Tão Jovens” se orgulha por captar todos os sons ao vivo, e a produção disse que nada foi regravado em estúdio. Se sente sinceramente um espírito rock n roll na produção. Ciclos de amizade, felicidade e energia marcam e celebram essa primeira fase da história de Renato Russo ao mostrar detalhes da criação de músicas como “Eduardo e Mônica”, “Eu Sei” e “Ainda é Cedo”. Deixando de lado todo o fim melancólico do vocalista, sem nem citá-lo, o filme consegue trazer uma mistura de emoções fortes e alegres. E acredito que é exatamente assim que Renato Russo gostaríamos que celebrássemos a sua obra.

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