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Com Taylor Kitsch, Blake Lively, Aaron Taylor-Johnson, John Travolta, Benicio del Toro e Salma Hayek. Roteirizado por Shane Salerno, Don Winslow e Oliver Stone, baseado no livro de Don Winslow. Dirigido por Oliver Stone (Platoon).

Oliver Stone volta à tela grande com um filme violento, baseado num livro que não li, e que mostra um mundo de contrastes, permeado por drogas e violência, mas também cheio de amor (uma versão deturpada dele na verdade). A história policial não envolve nenhum tipo de santo. O roteiro escrito à seis mãos tem personagens quase detestáveis, tendo ao menos um momento que os torna humanos. A violência gráfica empregada no filme pode chocar alguns, mas é bem colocada para mostrar a crueldade da máfia mexicana. No fim das contas, “Selvagens” tem uma história interessante, mas com erros de percalço, e com atuações que vão de ótimas, passando por caricatas e terminando com sofríveis. Mas apresenta um Stone que ainda tem vontade fazer cinema.

A história na tela começa com um hiper-realismo muito interessante: uma filmagem amadora de câmera na mão, quase um mockumentary. Ofelia (Lively), chamada apenas de “O”, apresenta a sua história numa cansativa e aparente infinita narração em off dizendo que poderia não estar viva até o final do filme (Oh, por favor! Diga que sim!). O filme é todo apresentado em um fast-reward, mas não se preocupem porque não é nada perceptível, já que dura cerca de 5 segundos. O, no seu monólogo sem fim, apresenta seus amantes. Chon (Kitsch) é um ex-combatente da marinha dos EUA, cheio de cicatrizes físicas e emocionais, violento e “sem-alma”, o que é bem marcado pela moldura vermelha que enquadra o personagem enquanto ele transa com O. Ben (Taylor-Johnson) é um carismático budista, e seu visual de barba por fazer e cabelos mais longos dão ao personagem um ar quase divino. Os dois melhores amigos tem um lucrativo negócio de cultivo de maconha. Chon se alistou no exército apenas para contrabandear as sementes do Afeganistão, que ele diz serem as melhores do mundo. Por aí já percebemos que o personagem não bate bem. Que tipo de maluco se alista numa guerra pra fazer esse tipo de coisa? E os dois não se importam em compartilhar O. É engraçado notar que um filme que aplica tanto a violência gráfica seja puritano com a atriz, que em momento nenhum deixa aparecer um sideboob sequer (para compensar, mais para frente na produção Stone deixa uma personagem qualquer ficar alguns minutos com os seios a mostra). Em oposição à esse trio que tira “tira 99% da violência do negócio”, temos um cartel mexicano, que não tem a menor intenção de ser da paz, e querem as pesquisas de Chon e Ben para produzir um produto melhor. Eles tentam intimidar os dois enviando vídeos do que acontece com quem se opõe, acompanhado de uma música mexicana num tom de comédia (e que os fãs de Chaves vão reconhecer na hora). Mas os traficantes do Bajo Cartel liderados por Helena (Cruz) e seu principal tenente Lado (Del Toro) mostram que não estão brincando, e sequestram O. Nesse momento Stone mostra que consegue criar momentos de tensão, principalmente na cena que envolve uma arma e a cabeça de Chon, com closes, batidas do coração altamente audíveis, e com a clássica (mas bem aplicada) mudança de ângulo ao filmar.

Os bandidos dos bandidos tem métodos inescrupulosos apesar de serem “honestos”. Em determinado momento eles pagam a droga que encomendaram dos amigos, apesar de já terem O em seu poder. Chon e Ben não querem ser marionetes, e decidem que é inaceitável que a namorada fique no poder do cartel, e resolvem se aprontar para o resgate. Ele contam com uma relutante ajuda do Detetive Dennis (Travolta) para conseguir informações dos mexicanos. O filme entrar num ritmo muito bom, misturando ação e pequenos momentos investigativos. É interessante ver na tela as estratégias militares sendo aplicadas em situações fora do campo militar, mas que Chon encara como um guerra que realmente é. Espionagem, explosões e perseguições dão o mote ao filme. É uma pena que O seja inexpressiva, apesar de eu acreditar piamente que estava vendo uma patricinha na tela, pois ela praticamente mimetiza Paris Hilton: o jeito de falar, as decisões de figurino e a cor do cabelo reforçam bem isso, apesar de ser um cúmulo ela fazer compras horas antes deles terem que fugir de assassinos perigosos. Helena é uma personagem quase caricata com seus gritos, tapas e a inexplicável mania de misturar espanhol com inglês, até mesmo quando fala com seus subalternos mexicanos. Já Lado tem um jeito assustador e nojento. Sua fala macia e calma escondem um personagem que não tem receio de ser violento, até quando não é necessário, e ameaçador ao extremo (em determinada cena ele não hesita em dizer que mataria até crianças).

“Selvagens” tem algumas decisões erradas. Por exemplo, Lado sugere a Helena que se ele torturasse Chon e Ben, arrancaria a verdade dos dois. Mas a chefe repudia a ação, porque conhece muito bem o assassino, e sabe que qualquer um nas mãos dele confessaria qualquer coisa. É de se espantar então que a líder do cartel permita que isso seja feito com outro personagem logo depois. É apenas um conflito criado na história para que Ben deixe de lado o seu lado humano, que O fez questão de frisar que existe em oposição a Chon logo no início. Outra atitude do diretor foi de mostrar que uma personagem estava viva, apesar de meio mundo dizer o contrário. Era melhor que ficasse só no detalhe. Na cena da tortura, quando o fato é citado, não ficamos surpresos com a “revelação”. Stone e o diretor de fotografia Daniel Mindel (que trabalhou em “John Carter”, outro filme com Kitsch) trabalham com vários estilos de filmagens, passando por preto-e-branco, sépia e saturados para mostrar a perdição que os personagens se encontram. São decisões fotográficas batidas, apesar de pequenas. Para compensar, Stone dá detalhes muito chamativos à produção: o carro de Lado com o símbolo da Morte (típico do Dia de Los Muertos), uma das últimas compras antes de O e seus amantes tentarem fugir ser um conjunto de bolsas com caveiras mexicanas, a personificação da morte que Ben assume no começo do 3º ato, e a mudança de atitude de Chon, que ao tomar as rédeas da situação (que antes eram tomadas por Ben), assume inclusive os volantes do carro. “Foi uma viagem e eu curti”, diz Ben. Uma viagem com direito até ao diretor nos jogar na cara que isso é um filme, e ele pode fazer o que quiser. Com alguns poucos bons momentos, “Selvagens” é um filme que não será dos mais lembrados na filmografia de um diretor que já tem no currículo “Platoon”, “JFK – A Pergunta que não quer calar” e “Assassinos por Natureza”.

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