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Polícia Federal: A Lei é Para Todos toma partido no grande cenário da política nacional, mas não é esse o problema do filme.

Policia Federal: A Lei é Para Todos | Crítica

Elenco: Antônio Calloni, Flávia Alessandra, Bruce Gomlevsky, Ary Fontoura, Marcelo Serrado | Roteiro: Gustavo Lipsztein, Thomas Stavros | Baseado em: Polícia Federal: A Lei é Para Todos (Carlos Graieb, Ana Maria Santos) | Direção: Marcelo Antunez (Até Que a Sorte nos Separe 3) | Cena Extra

É clara e muito óbvia a intenção de Polícia Federal: A Lei é Para Todos. Estrear num sete de setembro, com um apoio financeiro não-divulgado, a produção toma um lado e serve de propaganda, pois provavelmente a estreia do filme na TV a cabo coincidirá com as próximas eleições. Dito isso e tirando esse peso dos ombros, podemos analisar o filme como o que não deixa de ser também: um thriller de polícia que estamos acostumados no cinema hollywoodiano. E nesse quesito o resultado é abaixo do mediano. O diretor faz um filme didático demais, constantemente apelando para explicações por meio de narrações, frases clichês e personagens caricatos, ainda que traga algum tipo de discussão.

Existe na ficção científica um termo conhecido como Síndrome do Capitão Barbosa que é, basicamente, uma aversão ao que é brasileiro num espaço já bem estabelecido pelos estrangeiros. Pode parecer que o maior desafio de Antunez é fazer que um delegado chamado Vinícius (Baldasserini) correndo com arma na mão enquanto persegue um bandido de colarinho branco não soe ridículo – mas isso tem mais a ver com o espectador que com os produtores. O principal é nos despirmos de preconceitos e da chamada “síndrome de vira-lata” para podermos aceitar a trama. Basicamente, temos que nos perguntar se aceitaríamos mais facilmente se estivéssemos vendo o Deputy Vinny.

O que verdadeiramente perde o espectador é como a narrativa é apresentada por Antunez e seu montador Marcelo Moraes. O roteiro quer chamar a atenção com a cena inicial num centro de comando onde Ivan (Calloni) e Julia (Gomlevsky), com apoio em campo de Bia (Alessandra), no encalço de Alberto Youssef (Berindelli). Antes da situação ser resolvida e com a aparente fuga do doleiro, Antunez volta para 1500 e começa a explicar as raízes da corrupção no Brasil. Entra uma narração off de Ivan, claramente inspirada em Tropa de Elite (2007, José Padilha), para mastigar as informações para a plateia.

A questão é que se torna desnecessário, servindo apenas para apontar que o mensalão é o caso mais grave de corrupção da história brasileira – uma declaração do filme, não minha. E as explicações vai continuar nessa infinita narração de Ivan, entregando um roteiro rasteiro nesse sentido, sem deixar espaço para que a plateia tire suas próprias conclusões. Bem da verdade o filme tem um público-alvo bem definido, um que dificilmente questionará as informações passadas no filme pela voz dos três mosqueteiros da trama, acompanhados por seu D’Artagnan. Além das frases lugar-comum como “a gente prende e eles soltam” ou que Júlio não poderia ter certos luxos “com o salário de policial“.

Por mais verdadeiras que essas declarações sejam – e são – colocá-las como parte da narrativa mostra uma fraca capacidade de romantização pela dupla de roteiristas. Isso pode ser percebido na construção dos protagonistas versus seus antagonistas. Numa decisão estética muito pobre, parece que Ivan, Júlio, Bia e Sérgio Moro (Serrado) não tem outro figurino que não seja preto – seja na hora de uma simples corrida ou na roupa de dormir -, uma cor que é guardada para paladinos da justiça vigilantes dos quadrinhos. Mas ao mostrar Lula (Fontoura), o roteiro coloca palavras na boca do ex-presidente de maneira tão pouco convincente. Por exemplo, quando o petista diz “O japonês da federal não tá aí, né?” a plateia fatalmente cai na risada.

Outro problema é o ritmo do filme. Nos parágrafos anteriores, mencionei o corte para o flashback. Pois bem, ao invés de nos recolocar nos trilhos e continuar a história, como um bom filme policial deve fazer, Antunez volta novamente ao seu didatismo repetindo diálogos e a frustração de Júlio chutando uma mesa, uma cena que tínhamos visto alguns minutos antes. Para um filme de ação, são muitos momentos travados quando a dinâmica era necessária. Como na cena em que Júlio começa a ver pastas num computador para montar seu raciocínio, como se estivesse lendo letra por letra antes de clicar. São pequenas coisas que cansam quem assiste.

E esteticamente esse também é um filme com problemas. Primeiro, o diretor não sabe o significado da palavra silêncio, então além da narração off toda e qualquer cena tem que ter suporte de uma trilha sonora. Depois, as inserções de jornais falsos para que as transmissões da televisão também sejam personagens à serem moldados à narrativa. Por isso é tão estranho que já perto do final do filme, ainda nesse clima, exista uma inserção da Globo de verdade, e não do inventado “JB”. Isso serve para que o diretor apresente uma veracidade à sua história romantizada, algo mais uma vez desnecessário considerando as transmissões verdadeiras que vemos durante os créditos.

Há, no entanto, uma humanização no trato dos personagens principais. Por ser uma adaptação, o trio central e seus adjacentes, com exceção de Moro, são amálgamas de personagens reais e é criada uma relação fraternal entre eles, mais centrada em Júlio com um drama pessoal que afeta sua família. Temos também confraternizações em bares e pequenos momentos de descontração e dúvidas para mostrar que esses personagens também são humanos – apesar de que o diretor não consegue fugir, em geral, de apresentá-los como seres incansáveis, com exceção da já citada família de Júlio, personagem que por algum tempo tem de se afastar da narrativa.

Existe um problema endêmico de corrupção na política brasileira, mas um filme pode mudar isso? Seja lá qual for a intenção nos bastidores, é isso que Policia Federal: A Lei é Para Todos se propõe. Mas num cenário ainda polarizado, o filme apenas reforça a opinião de quem acredita que a justiça está sendo feita, mas será rechaçada em quem acredita em perseguição política (apesar de vários políticos e partidos serem citados). No campo da crítica fílmica, é um filme com muitos problemas de estrutura, estética e no desenvolvimento dos antagonistas. O destaque é por se aventurar num gênero de pouquíssima penetração no cinema nacional. Mas ao abordar alguns detalhes da Operação Lava-Jato, mesmo que romantizados, com certeza atrairá a atenção. E talvez com isso venha a vontade de mais filmes do gênero sejam produzidos. Os produtores garantem que daqui saem mais dois.

Policia Federal: A Lei é Para Todos | Trailer

Policia Federal: A Lei é Para Todos | Pôster

Polícia Federal: A Lei é Para Todos | Cartaz

Policia Federal: A Lei é Para Todos | Galeria

Polícia Federal: A Lei é Para Todos | Imagens (1)

Créditos: Downtown Filmes/Agência Febre (Divulgação)

Polícia Federal: A Lei é Para Todos | Imagens (2)

Créditos: Downtown Filmes/Agência Febre (Divulgação)

Polícia Federal: A Lei é Para Todos | Imagens (3)

Créditos: Downtown Filmes/Agência Febre (Divulgação)

Polícia Federal: A Lei é Para Todos | Imagens (4)

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Polícia Federal: A Lei é Para Todos | Imagens (5)

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Polícia Federal: A Lei é Para Todos | Imagens (6)

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Polícia Federal: A Lei é Para Todos | Galeria (7)

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Polícia Federal: A Lei é Para Todos | Imagens (8)

Créditos: Downtown Filmes/Agência Febre (Divulgação)

Policia Federal: A Lei é Para Todos | Sinopse

O filme romantiza os detalhes das primeiras fases da Operação Lava Jato conduzida pela Força-Tarefa da Polícia Federal em Curitiba

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