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Mesclando boas e más atuações Os Infratores conta por meio de um núcleo familiar a mudança que os EUA passaram na época da Lei Seca.

Com Tom Hardy, Guy Pearce, Gary Oldman, Jessica Chastain, Mia Wasikowska e Shia LaBeouf. Roteirizado por Nick Cave (A Proposta), baseado no romance de Matt Bondurant. Dirigido por John Hillcoat (A Estrada).

Um filme que reúne no elenco dois atores que participaram de grandes franquias recentes do cinema (Batman de Nolan e Transformers), e outro ator muito conhecido no meio cinematográfico, que também esteve envolvido em um blockbuster recente (Prometheus) é um grande chamariz para uma produção. O filme de gângsteres “Os Infratores” trata do período da chamada “Lei Seca” nos EUA, que aconteceu no começo dos anos 1930. Hillcoat conta a história de três irmãos que eram lendas dessa época, baseado seu filme em fatos (supostamente) reais e num livro. O filme mescla boas e más atuações e um direção coesa. E o grande trunfo do filme de Hillcoat é mostrar a mudança que os EUA passam, representada pelo irmão mais novo, encarnando o “progresso”, e de seus dois irmãos, que representam a maneira antiga de se fazer negócio.

Na cena inicial já podemos conhecer bem a índole dos irmãos Bondurant – Forrest (Hardy), Jack (LaBeouf) e Howard (Clarke) – que fazem contrabando de bebidas na cidade de Franklin (Virginia), como vários criminosos da época da lei seca. É uma pena que Hillcoat use o artifício de narração off,que no pior estilo for dummies faz o irmão mais novo nos explicar exatamente o que está passando diante dos nossos olhos.  Parece ser difícil para os responsáveis desse filme, e de tantos outros recentes, acreditarem no “fale menos e mostre mais”. Por que não manter a simplicidade da cena inicial, mostrando a primeira familiarização dos três irmãos com armas? Já está bem claro que Jack, ao recusar a puxar o gatilho para matar um porco, trará problemas mais para frente. Já mais velhos, os Bondurat viram uma lenda local, por serem considerados “indestrutíveis”. Nesse cenário de dominação e conivência com as autoridades locais, a soberania dos três irmãos é abalada pela presença do Agente Charlie Rakes (Pearce) que quer manter as coisas por debaixo do pano, desde que tudo aconteça do jeito que ele e seus chefes querem. O diretor e o roteirista criam uma relação antagônica entre Forrest e Rakes bem montada. Os dois partilham trejeitos sonoros, que os tornam quase “coisas”, doentes. Mas enquanto o tique de Forrest cria quase um alívio cômico (que ele só usa enquanto está incomodado, humanizando o personagem), com o gracejo de Rakes o espectador ri dele, e não com ele. Ambos compartilham também a característica de não fugir de responsabilidades. Forrest briga e defende seu círculo, e pela lenda criada em volta deles e dos irmãos, encara qualquer briga. Já de Rakes esperava-se que, por ser um personagem muito mais cheio de si (pelo jeito se vestir, por usar perfume e por ter subalternos), fosse um homem de menos ação. Mas o personagem é muito bem caracterizado quando mostra que sabe entrar numa briga, apesar de não gostar de, literalmente, “sujar as mãos”.

Mostrando qualidade na direção, Hillcoat usa bem figurinos e a fotografia. Logo no começo, junto do diretor de fotografia Benoît Delhomme (que trabalhou em “1408”, filme de terror de 2007), é usada uma paleta de cores bem pesada e sombria para marcar os três Bondurant. Os irmãos partilham as cores monocromáticas nas roupas, mas Jack é diferenciado com uma cara mais limpa, com pouca barba. E um contraste dessa monocromia acontece quando Maggie Beauford (Chastain) aparece fugindo de seu passado, e procurando emprego no bar que os Bondurant usam de fachada para o seu negócio verdadeiro. Maggie, vinda da cidade, carrega mais cores no seu figurino. É interessante porque normalmente é o oposto (digo, é mais comum mostrar quem vem de uma vida interiorana e mais simples usando mais cores). O trabalho faz muito bem à projeção, reforçando visualmente a personalidade dos personagens.

Forrest e Howard representam uma estagnação do tempo. Já Jack pensa como um empreendedor, tentando expandir o negócio de bebidas contrabandeadas para Floyd Banner (Oldman): um personagem muito perigoso e calado, que ganha a profunda admiração de Jack, que chega a coletar as cápsulas das balas que ele usou para matar um desconhecido nosso como suvenir. E por causa de Jack que o negócio prospera, mas também é por isso que Rakes cresce como ameaça. O filme também traz boa caracterizações de época nas placas de comércio, propagandas, e a separação entre brancos e negros. E os responsáveis ainda nos transportam para os anos 1930 de uma maneira muito competente ao mostrar na cena em que Jack, interessado em Bertha Minnix (Wasikowska), filha do pastor da cidade, entra na Igreja local e recebe o chamado rito do lava-pés dela. Numa sociedade em que o contato físico e visual era mínimo, Hillcoat consegue captar bem a explosão que Jack tem naquele momento que, para ele, foi altamente erótico. E como se estivesse sendo pego no flagra, ao ponto de deixar uma parte da roupa para trás.

“Infratores” é um bom filme, com doses de violência na medida e não gratuitas, diga-se de passagem. Um filme de gangsteres e da época da lei seca que vai um pouco além, mostrando mais da vida após 1933, quando a lei caiu. Tem atuações muito boas por parte de Hardy e Pearce, e conta com ótimos plot-twists, que vão arrancar sorrisos da plateia. Pena que ele falha em mais de um momento. Além da narração irritante em vários pontos, é forçar muito a barra acreditarmos que Maggie faz parte de um passado que Rakes conhece por algum motivo (certo exagero a coincidência aqui) e a atuação de LeBouf não convence. Mas não são esses detalhes que tiram o brilho da produção, e sim tentar transformar os bandidos, que são os Bondurant, em heróis. O que é uma coisa diferente de colocá-los na “jornada do herói”. Tanto o pôster americano quanto a versão brasileira trata os personagens principais desse jeito, tentando convencer a audiência que, já que eles estavam se levantando contra uma corrente corrupta, seriam dignos de aplauso. Não são. Ou não deveriam, pelo menos. Essa opção é apresentada no filme mostrando os Boundurant não como vilões, nem mesmo como gente má. Eles reagem apenas, e nenhuma morte é consequência direta do trabalho deles, fora as que se originaram de vingança. E mesmo quando essa vingança acontece, Hillcoat faz questão de que a violência protagonizada seja amenizada, ou por sombras ou por falta de detalhes do ocorrido. Uma decisão que nos faz pensar que tipo de mensagem o diretor quer nos passar.


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