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The Wolf of Wall Street

Com Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Matthew McConaughey, Kyle Chandler, Rob Reiner, Jon Bernthal, Jon Favreau e Jean Dujardin. Roteirizado por Terence Winter, baseado no livro de Jordan Belfort. Dirigido por Martin Scorsese (A Invenção de Hugo Cabret).

7,5 - "tem um Tigre no cinema"Poucos são os diretores que, como Martin Scorsese, desenvolveriam uma trama com um personagem tão detestável ao ponto de torná-lo carismático. Pelo menos em parte. É um conflito para o espectador gostar de uma figura que fez tanta gente perder dinheiro e não se arrepende por isso. Ao deixar de lado a crítica e a moral, o diretor consegue manipular a audiência, além de nos fazer rir e muito com as loucuras do protagonista. Essa ambiguidade moral passa da tela para fora, e nos pega de surpresa. E essa discussão por si só vale a ida ao cinema.

No fim dos anos 1980 e começo dos 1990, Jordan Belfort (DiCaprio) fez fortuna como corretor de ações. Seus negócios nunca foram exatamente legais e, durante seu enriquecimento, se tornou um alcoólatra, viciado em drogas e em sexo. Mas o império envolto em luxúria e ganância que criou junto do amigo Donnie Azof (Hill) pode ruir quando uma investigação do Agente do FBI Patrick Denham (Chandler) foca os negócios escusos de Belfort.

Scorsese se mostra um ótimo diretor ao usar propagandas e filmagens pessoais daquele universo para nos situar cronologicamente: o aspecto de razão standard e os efeitos de câmera são marcas disso. Pena que depois ele apele para o uso de letreiros em anos específicos e na narração off de Belfort para acompanharmos a história. O diretor mistura essas narrações com outros monólogos do protagonista quebrando a quarta parede, que é um recurso bem mais interessante. São momentos que arrastam o ritmo mas, pelo menos em parte, servem para explicar como Wall Street funciona. Sendo este um filme de contrastes, determinado momento Belfort admite que o público não vai entender os detalhes e até dá uma risada de nós na sua soberba. Analisando com mais calma, é o esforço diretor para criar interesse numa história que não parece o ter – por exemplo, não existe de minha parte vontade de ler o livro que inspirou o filme.

O começo da história mostra um personagem completamente fora dos padrões. Rico a ponto de não saber o que fazer com tanto dinheiro, a história desenvolve em poucos minutos a personalidade de Belford numa mistura de cortes rápidos e música marcante. Sempre o centro das atenções, a vida dele é divida entre ganhar menos de US$1 milhão por semana, ser casado com a estonteante Naomi Lapaglia (Robbie), e se entorpecer misto de drogas, álcool e prostitutas. No flashback, ele é introduzido no mundo que já é inicialmente viciante pelo primeiro chefe, Mark Hanna (McConaughy, numa participação especial), e mais uma sequência de cortes rápidos e música alta fazem meses se passar. A preocupação de Jordan com a então esposa Teresa (Milioti) é sincera, e a conversa que os dois tem entre o marido sair de um emprego entre outro tem o único momento de doçura do personagem, onde o jogo de luzes e da fotografia num apartamento pequeno e pouco iluminado, Scorsese mostra que ali eles só podiam contar um com o outro.

Pode parecer, mas o filme não é tão profundo quanto pretende ser nas suas três horas de duração.Temos um diCaprio encarnando um personagem pouco interessante – culpa exclusiva do roteiro – mas que tem muito esforço no trabalho de atuação, o que é uma contradição estranha. Jonah Hill é outro que se sai bem, ao encarnar alguém dúbio na suas atitudes – notem o primeiro encontro dele com o protagonista e as cores da camisa. O trabalho de figurino tem destaque, passando dos ternos cafonas que Belfort, Azof e outros sócios usam e vão melhorando ao longo da produção.

Porém, a projeção não usa bem dos seus quase 180 minutos. A sequências de loucuras e sandices de Belfort e seus companheiros de trabalho são engraçadas, mas ocupam tempo demais da projeção. Assim como os momentos de comédia protagonizadas por Belfort. A cena em que as drogas vencidas demoram pra fazer efeito é engraçadíssima, sem dúvida. Mas não existia necessidade de apresentá-la do jeito que foi. Ela seria igualmente engraçada com mais cortes enquanto Belfort tenta chegar no seu carro e impedir que Azof cometa uma grande besteira.

Existem outras qualidades que vale a pena comentar. Alguns planos que, apesar de clássicos, funcionam bem. Dois bons exemplos são quando Belfort e o Denham se encontram pela primeira vez, e o diretor coloca atrás do agente uma bandeira dos EUA que tremula ao vento; e, mais a frente, quando o banqueiro suíço Jean-Jacques Saure (Dujardin) propõe que Belfort invista o seu ilegal dinheiro em seu banco, a imagem atrás do protagonista é quase uma aquarela, representando um tipo de paraíso que ele poderia deixar seus ganhos. A montagem também chama a atenção, com momentos representando o blackout de Jordan nos seus exageros de drogas e álcool, como uma memória que volta subitamente.

O Lobo de Wall Street - poster brasileiro

O caminho tomado por Scorsese é, no fim das contas, bom. No entanto, a sensação que fica em “O Lobo de Wall Street” é que poderia ter sido mais. O diretor cria, um protagonista que não tem moral – o que podemos reforçar pela quantidade que a palavra fuck é proferida – que não muda e, pasmem, o transforma de vez em quando em alguém carismático. A ideia não é torcer pelo personagem e por seu sucesso, mas saber que ele, assim como o diretor faz, consegue distorcer a verdade. Não é Scorsese em sua melhor forma, mas ainda interessante. Se fosse mais comedido, com menos narrações e melhores decisões na montagem teríamos um filme melhor. Mas são apenas conjecturas.

O Lobo de Wall Street concorre ao Oscar 2014 nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Leonardo diCaprio), Melhor Ator Coadjuvante (Jonah Hill) e Melhor Roteiro Adaptado (Terence Winter).

Veja abaixo o trailer de O Lobo de Wall Street

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