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Em O Jogo da Imitação conhecemos Alan Turring, matemático que auxiliou o fim da 2ª Guerra Mundial e deu os primeiros passos para a criação do computador.

The Imitation Game, 2014

Com Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Rory Kinnear, Charles Dance e Mark Strong. Roteirizado por Graham Moore, baseado no livro de Andrew Hodges. Dirigido por Morten Tyldum.

8/10 - "tem um Tigre no cinema"É para dar uma luz aos detalhes da guerra, fugindo de tiros e explosões, que servem filmes como O Jogo da Imitação. Ao contar as minúcias por detrás de grandes eventos, desvendamos mistérios e entendemos com as peças de jogo complexo se movem por trás da cortina. Além disso, é uma homenagem justa a um gênio, uma retratação necessária e um retrato da natureza humana.

Sinopse oficial

O Jogo da Imitação conta os períodos mais importantes da vida de Alan Turing (Cumberbatch), desde os infelizes anos da adolescência no internato, passando pelo triunfo secreto de sua equipe durante a guerra até a tragédia de sua morte prematura no período pós-guerra, quando foi condenado por ser homossexual e obrigado a tomar injeções de hormônio para não ser preso. Turing inventou a técnica eletromecânica que permitiu a quebra de cerca de 3.000 mensagens de códigos secretos gerados pela máquina alemã Enigma, possibilitou o fim da Segunda Guerra Mundial e deu os primeiros fundamentos para a criação do computador.”

Tyldum tenta nos ajudar a entrar na mente de Alan de maneiras diferentes. Sendo impossível para o espectador comum – inclusive o que lhes escreve – andar nos mesmos passos de um criptoanalista de seu porte, o diretor posiciona várias vezes a câmera atrás da cabeça do protagonista. Metaforicamente falando, é um modo de penetrar naquela mente inacessível. Em conjunto, a trilha de Alexandre Desplat acompanha o código, com toques de piano que lembram ligeiramente alguma coisa matemática que, no fim das contas, é do que se trata a música. E como espectadores que somos, ficamos relegados ao nosso papel de observadores.

Apesar de Tyldum e William Goldenberg falharem na montagem inicial – a fotografia de Óscar Faura e o trabalho de maquiagem também não ajudam nesse momento – fazendo que os períodos diferentes entre o fim dos anos 1930 e o dos anos 1950 demorem a ser percebido pelo espectador, dando a impressão de que os momentos estão próximos, continuamos a conhecer Alan. A cena em que ele embarca junto de crianças num trem pode não ter sido verdadeira, mas mostra muito da personalidade do personagem, que é refletida na primeira vez que ele vê a máquina Enigma. Os olhos de Turing brilham, como uma criança que ganhou um brinquedo novo.

Por causa de seu segredo, Alan tem que se esconder e se isolar, e não apenas por sua arrogância – que também faz parte da sua personalidade. Então, o diretor cria um espaço para ele, uma parede que o isola de Hugh Alexander (Goode) e dos outros companheiros de trabalho. E podemos perceber que essa parede – no sentido figurado, pois a de verdade continua lá – é quebrada quando Joan Clarke (Knightley) se junto ao grupo. É um tanto difícil compreender o que o verdadeiro Alan pensou na época, mas Tyldum constrói o envolvimento dos dois quase como um namoro. Isso na mente privilegiada do gênio. Percebendo que Joan seria peça chave na construção da máquina, é de certo modo tocante que Alan jogue pedras na janela de Joan, como um clichê de filmes românticos, para entregar os esquemas de Enigma para a personagem no meio da noite.

Relativamente livre – afinal, eles lutam contra o relógio – Tyldum coloca Alan em cenas mais abertas, seja num piquenique com Joan, ou conseguindo finalmente se descontrair no bar perto da base militar que estão estacionados. E isso se reflete no galpão onde Cristopher é construído. Apesar de constatar o óbvio de que uma máquina daquele tamanho só poderia ocupar um lugar igualmente amplo, o diretor usa desse artificio para mostrar a abertura que Alan deu para que os outros o ajudassem. E é nesse período que ele recupera o riso perdido desde sua época de internato.

Vale a pena também perceber que o mesmo Goldenberg, que se perdeu no começo do filme, em outros momentos usa de belos raccords para mostrar que a sinergia entre Alan, Joan, Hugh e os outros está intrinsecamente ligado à guerra que ainda acontece. Vemos a câmera seguindo um cigarro para depois um míssil ou, num momento bem mais emblemático, as bobinas da máquina de Alan no seu movimento circular se tornam a visão de um tanque esmagando um capacete inglês.

Alan diz mais de uma vez que as pessoas gostam da violência porque ela é satisfatória, e que se isso for retirada, o ato se torna vazio. É para pensarmos no impacto disso, em grandes e pequenas escalas. Talvez ele mesmo não tenha conseguido seguir o próprio conselho, se for mesmo verdade que seu suicídio se deu por viver numa sociedade onde a homossexualidade era vista como crime. Ainda que essa seja uma conclusão simbólica para as atrocidades que vemos no mundo, Tyldum preferiu seguir esse caminho por crer ser importante ter essa discussão.

O Jogo da Imitação | Pôster brasileiro

O Jogo da Imitação nos serve de várias maneiras. É uma biografia que precisa ser conhecida, o reconhecimento de um gênio como poucos viram, e um pedido de desculpas tardio. Durante a projeção, você vai notar que Cumberbatch está muito a vontade no papel, e vai ser bem difícil desassociar ele do papel daquele outro arrogante, inteligente e sociopata inglês famoso. A direção de Tyldum é segura e apesar de alguns tropeços no início, mas traz belos momentos como quando mostra Alan recolhendo pedaços de cianureto – sua arma de suicídio – e trava ao ouvir o alerta de um policial; a respostas em epifania, num momento de descontração; e uma queima de papeis com entusiasmo. Enfim, Tyldum trouxe uma lição que todos devemos escutar para nos lembrar do que passou, e do que não deve ser repetido.

Veja o trailer de O Jogo da Imitação

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