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"Lo Imposible", 2012

8/10 - "tem um Tigre no cinema"Com Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland, Samuel Joslin e Oaklee Pendergast. Roteirizado por Sergio G Sánchez (O Orfanato). Dirigido por J A Bayona (O Orfanato).

“O Impossível” é um drama onde Bayona usa todos os artifícios para fazer que o espectador se emocione. Principalmente no campo musical. Se fosse possível, o diretor descascaria cebolas ao vivo. Apesar da muleta emocional, a história baseada em fatos reais é um belo filme. Por ser uma ode à esperança e ao espírito humano, é normal que os personagens apresentados tenham uma leve tendência ao maniqueísmo. Mas assim como os sobreviventes dessa tragédia emergiram de suas situações desesperadoras, Sanchez e Bayona preferem acreditar que o melhor de nós também o faz.

Em 26 de dezembro 2004, um grande terremoto e consequentemente um tsunami devastou a costa da Indonésia, causando a morte de 230 mil pessoas no país, além da Índia e a Tailândia. Vindos de uma vida financeiramente estável, Henry (McGregor), a esposa Maria (Watts) e seus filhos Lucas (Holland), Thomas (Joslin) e Simon (Pendergast) se hospedam num paradisíaco hotel na costa tailandesa. O diretor cria uma pequena tensão ao usar o clássico recurso de câmera na mão, e o justifica com muita destreza logo aos primeiros minutos, colocando o espectador no balançar das ondas, que é a presença a ser temida. Bayona cria um clima muito intimista, e mistura filmagens reais de câmera de mão, digamos assim, o que faz uma relação da tensão com a alegria da família dentro daquele universo fílmico. Inclusive, nesse misto de cena, há um belo raccord entre a bola dos filhos que passa da filmagem pessoal de volta ao filme em si.

A cena do tsunami é um show de efeitos especiais, e tem um ótimo papel ao não se sobrepor à tragédia. Óbvio que é um elemento importante, mas o diretor faz um bom trabalho ao focar Maria sendo levada pelas águas e emergindo e no seu desespero ao procurar pela família. Junte esses efeitos com o design de som das águas, a ausência da trilha sonora, e a dificuldade que a Maria e Lucas passam, momentos que parecem até em tempo real, e temos um ambiente fúnebre que vai acompanhar a personagem pelo resto da produção. Não posso deixar de mencionar a decisão poética de Sanchez e Bayona ao colocar o começo da onda gigante logo depois de Henry e Maria terem uma curta discussão sobre uma mudança. A partir daí, o arco se divide em dois, com nenhuma das partes saber o que aconteceu com a outra.

O diretor ainda dá outros lampejos de brilhantismo no longa, começando com a coragem de dar ao papel de protagonista à um garoto de 15 anos, mesmo rodeado de por dois gigantes de Hollywood. Não me estranhe dizer isso: Lucas é o protagonista do filme. É ele que faz o filme rodar, sendo os olhos tanto da audiência como os da mãe enquanto ela precisa. A certa altura do filme Maria diz que o filho “é bom em ajudar as pessoas”. Apesar dele não ter demonstrado isso um pouco mais cedo, quando não quis ajudar uma criança que chorava ao longe da tragédia, a mãe diz isso porque acredita no filho. O diretor também dá um clima anti-erótico ao mostrar de relance o seio de Maria machucado (em oposição em uma cena anterior que mostrou um sideboob de relance contra o sol), ao mesmo tempo em Lucas desvia o olhar do seio da mãe. E numa monstruosidade de atuação, Holland e Naomi convencem os desesperos que passam, totalmente táteis.

A segunda parte da história centrada em Henry é um pouco menos interessante, mas não deixa de ter seus momentos. O diretor de fotografia Óscar Faura, que faz questão de manter certa sujeira na lente, e usa uma paleta de cores mais escuras quando a história muda para a busca do pai, representando que seu lado racional estava menos esperançoso, apesar de seu lado emocional não aceitar isso. A cena em que o personagem cai em prantos quando consegue finalmente falar com o sogro (?) é uma das mais emocionantes do filme. A história pode em alguns momentos ser acusado de maniqueísta, por todos terem penas de todos (com exceção de um personagem que recusa a emprestar o celular a Henry), mas os responsáveis pela história fazem isso por preferirem a crer no espírito humano, e que as pessoas podem se apoiar umas nas outras em momentos de extrema tragédia.

"O Impossível" - Poster brasileiro

“O Impossível” é um filme de luta e de esperança. E também sobre os mistérios da vida, bem apontado por uma personagem (que é filha de Chaplin) que diz a um dos filhos do casal sobre não poder saber quais estrelas no céu estão vivas ou mortas, assim como todas as outras pessoas que procuravam noticiais sobre as suas famílias. “É um mistério”. Some todo o lado emocional, por mais piegas que você possa achar que seja, com outros detalhes como os sinais que Henry só pode interpretar como milagres, o visual cadavérico que Maria vai adquirindo ao longo do filme, o flahsback do que a mãe passou logo depois da onda sem repetir a cena, ou o olhar triste que Lucas dá ao redor enquanto vê que nem todos ficarão bem, e você terá um filme forte e cheio de esperança na humanidade. É até surpreendente que quase todos da família têm nomes bíblicos (Maria, Lucas, Tomé e Simão) e você chega a pensar que foram alterados para dar essa impressão. Mas não é, como o diretor mostra nos créditos ao colocar uma singela foto da família Belon, numa tentativa como Ben Affleck fez em Argo (Argo, 2012), para justificar o uso no começo dos famosos dizeres “baseados em fatos reais”.

Acho que é válido abrir uma discussão do por que o Sanchez e Bayona contarem a história dos sobreviventes e não daqueles que perderam alguém. O desespero de ambos seria igual. Mas com testemunhas vivas, a esperança vira a mesa até mesmo contra um grande impossível.

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