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"Man of Steel", 2013

Com Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Kevin Costner, Diane Lane, Laurence Fishburne, Antje Traue, Ayelet Zurer, Christopher Meloni e Russell Crowe. Argumento de Christopher Nolan e David S. Goyer. Roteirizado por David S. Goyer. Dirigido por Zack Snyder (Watchmen).

9/10 - "tem um Tigre no cinema"Em 1978, um herói advindo dos quadrinhos de capa vermelha e roupa azul chegou aos cinemas e fez muitos acreditarem que o homem poderia voar. Demorou muito para que o Superman tivesse um retorno digno no cinema. Em 2006 aconteceu um tentativa que não foi ruim, mas também longe de ser boa. Chegamos em 2013 e finalmente o Último filho de Krypton ganhou um filme à altura de seu ícone. Com uma grande ajuda dos responsáveis pela recente trilogia Batman, essa aventura não teve medo de ir à frente e misturar o conceito realista com o de fantasia. É um filme dinâmico, apesar da duração, divertido, às vezes denso e cheio de ação como uma aventura deve ser.

No longínquo planeta Krypton, o cientista Jor-El (Crowe) descobre que, por causa do uso irresponsável do núcleo do planeta como fonte de energia, aquele mundo está a beira da destruição. Quando vai tentar convencer o Conselho Kryptoniano para que evacuem o planeta, o General Zod (Shannon) destitui os membros do poder, iniciando uma guerra civil. Jor-El não quer fazer parte disso, e então põe em prática seu plano de salvar o filho recém-nascido e a linhagem do planeta da destruição. Com o pequeno Kal-El enviado para a Terra, Jor-El é morto por Zod. Por seus atos, ele e seus companheiros são enviados para a Zona Fantasma, uma lugar de encarceramento virtualmente eterno. Anos depois da destruição de Krypton, Kal-El na Terra é adotado por Jonathan (Costner) e Martha Kent (Lane), e cresce para ser Clark Kent (Cavill), alguém que procura seu lugar e sua missão na Terra. Quando descobre uma nave enterrada no gelo, Clark descobre sobre o seu passado e assim pode começar sua busca pelo que acredita ser certo.

O diretor Zack Snyder, entendendo que trabalhava com um reboot da série no cinema, prefere acertadamente não seguir um caminho linear na projeção, ao mesmo tempo que se afasta do clássico “Superman: O Filme” (Superman: The Movie, 1978) e sequer mostra como os pais adotivos encontraram o bebê na capsula espacial – já que a maioria dos espectadores sabe como isso aconteceu  – e mostra um Clark perdido na sua fase adulta. Indo de canto para canto do planeta sem um propósito claro, os cenários são constantemente frios e chuvosos, contemplativos, mas tristes, reforçado ainda mais pela fotografia de tons cinzentos de Amir Mokri. Essa primeira fase da história mostra como Clark se tornou o homem que é, mostrando cenas de sua adolescência e sua frustração por ser uma pessoa tão poderosa e sempre ter que se conter, e como a morte do pai o moldou.

Tanto nos flashbacks como no presente, Clark é dotado de características humanas que o tornam menos perfeito. Por exemplo, na fase adolescente ele tem dentes tortos e já adulto, apesar de contido na relação com humanos, não hesita em destruir o caminhão de um idiota qualquer que lhe torrou a paciência, numa vingança que ele poderia fazer sem quebrar os ossos do caminhoneiro – cena aliás que é uma homenagem a Superman II (Superman II, 1980). Na sua jornada, quando vai trabalhar no Ártico e conhece a repórter Lois Lane (Adams), num deslize, ele se esquece de se esconder propriamente enquanto investiga um artefato enterrado no gelo e é capturado pelas lentes da repórter, que começa um investigação sobre homem que consegue abrir buracos em gelo espesso e que salvou sua vida. Junto dessas decisões de postura de personagem, Snyder usa constantemente o recurso da câmera na mão, deixando todas as imagens sem um apoio fixo – um recurso que em certos momentos incomoda, mas é compreensível – e do zoom rápido. Tudo isso para aproximar um personagem tão fantástico mais próximo do mundo real, uma necessidade que se apresentou com Nolan e seu Cavaleiro das Trevas.

Ainda no campo de dar velocidade à um filme de origens, em Krypton o diretor já estabelece um cenário em guerra e problemático. Jor-El é também um homem de ação, e não hesita em pegar em armas para salvar o filho da destruição eminente do planeta. E é um planeta de contrastes, onde a tecnologia avançada conseguiu criar colônias interplanetárias, mas que seus principais conselheiros usam ornamentos que se assemelham com coroas. Dentro desse planeta orgânico, porém estéril – onde as crianças nascem por fertilização in vitro, num cenário muito similar com Matrix (The Matrix, 1999) – Kal-El é realmente diferente, por ter nascido por meios naturais da mãe Lara (Zurer). Desde o começo, a história mostra que a criança faz parte de dois mundos. Notem também a interessante fotografia de Krypton, onde pequenas partículas permeiam a atmosfera, um elemento que é repetido mais tarde na projeção quando Zod começa a executar seu plano. É também importante interessante que a cultura genética do planeta inteiro é contida dentro de um crânio antigo – o chamado Codex – que tem o formato de algum antepassado.

O filme quebra com alguns paradigmas do personagem e na sua história, e isso é bom. Os fãs podem reclamar da questão do sol de Krypton não ser vermelho, e de Perry White (Fishburne) não ser rabugento – além de ser negro e mais moderno, usando um singelo brinco na orelha. O filme também quebra o impasse clássico da pergunta mais óbvia que todos já fizeram: como Lois Lane nunca percebeu que Superman e Clark Kent são a mesma pessoa? Os responsáveis pelo filme resolvem a questão com muita naturalidade.

O filme é cheio de momentos tocantes, especiais e divertidos. Primeiro, sofremos quando Jonathan morre, o que reforça a decisão da fotografia se manter mais escura e os cenários mais frios nos primeiros momentos da história. E quando Clark conhece seu passado por meio de uma projeção de Jor-El e finalmente veste a roupa vermelha e azul – e, mais uma vez, ponto para a direção de arte ao achar um meio termo entre as cores dos quadrinhos e algo mais sóbrio – notem como o cenário muda. Enquanto testa a dimensão de seus poderes, Clark tenta alçar voos e vemos no seu rosto a cara de frustração – quando não consegue – e de alegria – quando ele finalmente o faz: o sorriso na cara do ator é sincera porque nos reagiríamos da mesma forma. Nesse momento, quando Clark descobre o que pode fazer e que encontrou o seu propósito, ele sai voando daquele cenário para um que tem mais cor, mais alegre. A sequência dá espaço para uma pequena homenagem aos filmes de Christopher Reeve, com esse novo Superman voando ao redor do globo terrestre. Ainda assim, Snyder não esquece de apresentar um personagem menos perfeito, ao vesti-lo com uma roupa que é quase uma armadura, e deixar que alguns pelos do peito pulem para fora.

A história toma outra direção quando Zod e seus companheiros, libertados da Zona Fantasma, descobrem que Kal-El está terra. Num tom ameaçador, ele exige que o filho de Jor-El se entregue para que possa tomar posse do Codex e recriar Krypton na Terra – e a sequencia que ele explica seus planos dentro de um sonho é um ambiente parecido com o mundo de Sucker Punch (Sucker Punch, 2011) – e é nessa parte que os paralelismos com a figura de Jesus Cristo com o Superman aparecem: quando Clark vai até uma igreja para buscar conselhos, há um vitral com a figura do Filho de Deus ao fundo; ele se apresentou ao mundo com 33 anos; e quando escapa da nave de Zod para salvar Lois, abre os braços em posição de crucifixo. É mais exagerado sim, mas serve para mostrar partes importantes da índole do personagem.

Um dos trunfos do filme é apresentar em vários momentos como se estivéssemos nós dentro daquele universo. Quando a comandante Faora (Traue) e um outro gigante lutam contra Superman no Kansas, o diretor faz com que os movimentos entreatos – aqueles que acontecem entre o começo e o fim do golpe – praticamente não sejam percebidos, que vemos apenas uma mancha. E entendam como isso é fantástico: por alguns momentos, Snyder nos colocou como reais testemunhas dos fatos. Se isso não fosse ficção, e pudéssemos estar lá, não veríamos nada além disso. Esse e outros momentos – como o de Martha salvando álbuns da casa destruída – é que tornam a produção humana, apesar de ocorrer dentre um mundo de ficção científica.

A produção consegue ser realista em outros pontos. Diferente de quando escrevi a crítica de “Os Vingadores” (The Avengers, 2012), onde critiquei que o ataque a Nova York pareceu não afetar a vida dos moradores da cidade, quando Zod ataca Metrópolis para criar uma nova Krypton – num evento chamado “terraformação” – podemos ver claramente corpos serem levantados e jogados ao chão pelo efeito bate-estaca, além de aparecerem pessoas sendo esmagadas por carros durante o evento.

"O Homem de Aço" - poster brasileiro

“Homem de Aço” é um filme perfeito? Não, mas é tão rico e tão divertido que chega bem perto. Existem as cenas clichês do grito de raiva, uma tendência da família El de ficar explicando seus planos – Jor-El detalha o que fez para salvar a vida do filho, enquanto esse depois explica como conseguiu controlar os seus poderes – e usa de uma conversão 3D que é inexistente. Mas como as cópias em IMAX por aqui não devem chegar em 2D, é uma coisa que você vai ter que relevar, já que o design de som também é tão importante que é essencial que você assista numa sala com ótima qualidade técnica. O filme também tem seus momentos especiais para fãs, como a aparição do Professor Hamilton (Schiff), de Lana Lang e Pete Ross quando pequenos, a marca da Lexcorp e das Empresas Wayne, com o mesmo design usado nos filmes de Christopher Nolan, integrando ambos universos. Apesar de longo – 143 minutos – é um filme que cria momentos de tensão. E no final das contas, essa é uma aventura que dá esperança para uma nova sequencia de filmes. Espero com ansiedade, Homem de Aço 2 e, finalmente, um digno filme da Liga da Justiça.

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