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Jupiter Ascending, 2015

Com Mila Kunis, Channing Tatum, Sean Bean, Eddie Redmayne, Douglas Booth, Gugu Mbatha-Raw, Tuppence Middleton e Terry Gilliam. Roteirizado e dirigido pelos Wachowskis.

5,5/10 - "tem um Tigre no cinema"Se você procura um filme para essa temporada em que diversão seja a máxima, O Destino de Júpiter é uma escolha certeira, por causa dos efeitos visuais impressionantes, e momentos em que o espectador se segura na cadeira. Já para os mais iniciados na ficção científica, o filme é apenas mais um. Com um ou outro conceito pouco usado, é um conto de fadas espacial que impressiona pelos cenários, mas que é facilmente esquecido. Se antes os Wachowskis pecaram pela profundidade excessiva em A Viagem (Cloud Atlas, 2012), aqui o tom é mais leve, tornando a experiência apenas morna e, aparentemente, mais acessível e fácil de ser digerida.

Sinopse oficial

“Jupiter Jones (Kunis) nasceu sob um céu noturno, com sinais de que estava destinada a algo maior. Agora já crescida, Jupiter sonha com as estrelas, mas acorda para a fria realidade do seu trabalho de limpar banheiros e uma sequência infindável de infortúnios. É somente quando Caine (Tatum), um ex-caçador militar geneticamente modificado, chega à Terra para localizá-la que Jupiter começa a vislumbrar o destino reservado a ela desde o início – sua assinatura genética a marca como a próxima na fila para uma herança extraordinária que poderia alterar o equilíbrio do cosmos.”

Como já foi discutido nos TigreCasts sobre ficção científica – O Planetas Macacos, por exemplo – o gênero costuma usar de alegoria para uma crítica social. Isso vem desde Julio Verne, passando por Isaac Asimov e Artur C Clarke, Fabio Barreto e outros tantos. Os Wachowskis usam os três irmãos da família Abrasax e o todo seu sistema de mercado como uma crítica ao consumismo exacerbado, o capitalismo, o imperialismo e a busca insensato por recursos naturais finitos. É um ponto válido para a trama e um acerto no roteiro, considerando o momento que passamos no nosso planeta.

Pena que o roteiro depois disso se renda tanto ao lugar comum. Em primeiro lugar, o motivo pelo qual o pai de Jupiter morre é estúpido: ele não perdeu a vida para proteger a esposa grávida ou a própria, e sim por causa de seu telescópio. Como outros personagens, a nossa heroína tem que ser órfã, mas um ligeiro ajuste no roteiro resolveria a situação, e você pode exercitar a criatividade para resolver esse problema. Isso serve também para que a jovem crie uma ligação com seus tios e primos nos Estados Unidos. Mas isso parece não afetar muito a decisão da moça quando ela aceita ir com Caine para o espaço. Durante a jornada de Jupiter não há uma linha de diálogo onde ela se mostre preocupada com a família que deixou para trás. Poderia ser qualquer clichê de “e a minha família?”, e “eles ficarão bem por enquanto”. Aliás, ameaça-los seria a coisa mais óbvia a se fazer, e difícil acreditar que um tirano como Balem (Redmayne) não pensaria nisso mais cedo.

Dentro da sua proposta de diversão, o filme consegue se segurar. São de tirar o fôlego as cenas dos caçadores de recompensa e outros batedores perseguindo Jupiter e Caine, com direito a patins anuladores de gravidade, escudos portáteis, grandes explosões, alienígenas sem sutileza e uma razoável explicação sobre porque algumas pessoas lembram-se de avistamentos alienígenas, e os sinais circulares deixados em plantações. O design das naves e cidades é um deslumbre, apesar de já termos visto coisas parecidas antes. Se pararmos para pensar, muito do visual desse universo lembra o que vimos em Star Wars – Episódio 1: A Ameaça Fantasma (Star Wars – Episode 1: The Phantom Menace, 1999), mas principalmente na trilogia Fundação, escrita por Asimov entre os anos 1940 e 1950. Por exemplo, o Mercado Comum é claramente inspirado em Coruscant que, por sua vez, é inspirada na capital do Império na obra de Asimov. Mas isso não é ruim, pois se trata de uma homenagem, como podemos ver no personagem do Ministro de Selos e Assinaturas, interpretado por Terry Gilliam num papel que remete o seu Brazil: O Filme (Brazil, 1985).

Durante a projeção, notam-se os problemas na narrativa. A estrutura episódica da aventura quebra um pouco a tradicional estrutura de três atos. Mas os Wachowskis não conseguem amarrá-las bem. Personagens que pareciam importantes para a história são sacados da narrativa sem um motivo, como é o caso dos irmãos Kalique (Middleton) e Titus (Booth). Cada um tenta moldar o caminho de Jupiter a seu próprio modo, mas essas ações pouco ou nada influem no ato seguinte.

Há um problema de ritmo muito irritante entre um arco e outro que é a busca pela comprovação da realeza de Júpiter. Sim, sabemos que a burocracia é um problema, que é demorado, que existe corrupção em todo o canto do mundo – e da galáxia – mas não precisava perder tanto tempo para explicar isso. Com metade do tempo qualquer um já tinha entendido. Ao invés de se tornar uma cena irritante para os personagens, se tornou uma experiência irritante para o espectador.

É uma pena que os diretores caiam em alguns clichês bem tolos, e que continuam prejudicando o filme. Como em tantas outras histórias, personagens falam uma língua e são respondidos em inglês. Os nomes Caine e Sting (Bean) são bobos de tão óbvios – o humano geneticamente modificado com genes de lombo tem o nome de “canino” e o que cuida de abelhas de chama “ferroada” – e os batedores que perseguem Jupiter e Caine, ainda no primeiro ato, poderiam muito bem resolver a situação toda se esperassem os dois embarcarem na nave, que é facilmente reduzida às cinzas. E as inscrições em inglês nas naves são de uma preguiça imensa. É compreensível existir uma linguagem universal comum, mas precisava de uma solução parecida com a de O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams.

Porém, o mais irritante é ver como Jupiter se porta no encontro com Kalique. A monarca está ali, quase explicando literalmente o que é o líquen rejuvenescedor, e a protagonista demora meia hora de tela para entender do que se tratava. Para uma heroína, a menina foi inocente demais.

O Destino de Júpiter | Pôster brasileiro

No fim das contas, O Destino de Júpiter é um conto de fadas – bem explicitado em um diálogo desnecessário. Há personagens saindo do ponto mais baixo até o mais alto possível, com direito a anjos – em forma de robôs gigantes, mas anjos – vindo para salvar o dia e com um personagem que você acha que vai morrer, mas acaba não morrendo. Vai trazer uns sorrisos, tem um 3D que funciona e a trilha de Michael Giacchino acompanha toda a ação satisfatoriamente. Mas ocupará um lugar menor dentro do gênero da ficção científica.

Veja o trailer de O Destino de Júpiter

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