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"The Lone Ranger", 2013
Com, Johnny Depp, Armie Hammer, Tom Wilkinson, William Fichtner, Barry Pepper, James Badge Dale, Ruth Wilson e Helena Bonham Carter. Argumento e roteiro de Ted Elliott, Terry Rossio e Justin Haythe. Dirigido por Gore Verbinski (Piratas do Caribe – A Maldição do Pérola Negra).

7/10 - "tem um Tigre no cinema"Existem dois grandes problemas com “O Cavaleiro Solitário”. O primeiro é que ele é muito óbvio, porque não se toma mais do que dois minutos para descobrir quem é o verdadeiro vilão da história, o que se releva por se tratar de um filme da Disney. O segundo é por ter sido concebido como blockbuster. Ou seja, tem a necessidade de retorno financeiro por causa do dinheiro envolvido entre marketing e escalação de atores, além falta de liberdade criativa para adequar à censura 12 anos – ou PG-13 nos EUA. Deixando isso de lado, é um filme com bons momentos de diversão, e até mais sombrios, o que é uma ousadia, se levarmos em conta que é a produtora é dona do Mickey Mouse. Apesar de longo, e seria bem mais dinâmico e agradável se tivesse vinte minutos a menos, é interessante ver um ícone da TV com uma roupagem nova, mesmo que um tanto megalomaníaca, nas mãos de tão versátil diretor.

A história começa em 1933, quando um garoto fantasiado de Cavaleiro Solitário visita uma exposição precária sobre o Velho Oeste. Lá, ele conhece Tonto (Depp), já idoso, e que fazia parte do cenário da atração de circo, trabalhando provavelmente por alguns trocados. Vendo a indumentária do antigo companheiro, ele relembra e conta ao jovem a origem do verdadeiro Cavaleiro Solitário, John Reid (Hammer), que em 1896 se tornou advogado, ranger e, contando com a vantagem de todos acharem que estava morto, perseguiu o bandido Butch Cavendish (Fichtner), assassino do irmão, para trazê-lo à justiça, o que serviu também ao índio, que  considerava o fora da lei responsável pela morte de vários dos comanches.

Apesar do ritmo arrastado, os minutos iniciais do filme fazem jus à uma grande produção e não demora quase nada para acontecer alguma coisa grande o suficiente para justificar o investimento. Quando Tonto relembra o dia em que conheceu John, o diretor de fotografia Bojan Bazelli – que trabalhou com o Gore Verbinski em “O Chamado” (The Ring, 2002) – o clima ganha tons mais áridos e com uma leve camada de poeira que parece ficar na lente. Nesse cenário típico de faroeste, a ação de John que acaba com a fuga de Cavendish dura aproximadamente dez minutos. O diretor usa de grandes planos abertos para continuar a impressão de grandeza.

John sai da desventura vivo, graças a sorte e também por causa da ajuda do irmão Dan (Dale), um ranger experiente. Diferente dele, John é um homem que acredita que a sociedade já evoluiu ao ponto dele não acreditar em armas, mas apenas na lei. Por isso é um pouco estranho que ele diga ainda nessa cena que o mundo preciso tanto de rangers quanto de advogados. Uma visão compartilhada pelo acionista da empresa de trens Latham Cole (Wilkinson), que exige que Cavendish seja capturado vivo para ser enforcado, servindo assim de lição. E a atenção de John se divide com a esposa do irmão, Rebecca (Wilson), mostrando que eles tiveram algum tipo de relacionamento quando mais jovens. Quando digo que o filme é ousado em certos momentos, esse é um exemplo: quantos filmes da Disney, ou de qualquer produtora infanto-juvenil, vimos alguém visivelmente desejando uma pessoa compromissada, ainda mais com um irmão? O filme também tem certas doses de violência, bem comedidas é verdade. Se mantendo na censura, vemos um pouco de sangue e brutalidade quando Cavendish arranca e come um pedaço do coração de um personagem. Para amenizar a cena, Verbinski decide mostrar a cena apenas no reflexo de um globo ocular.

O diretor mostra um lado espirituoso e divertido para dispersar a tragédia que acabamos de ver contra os rangers. Nesse momento, a história deixa pra trás o drama e se foca na aventura que John, agora com a máscara para esconder sua identidade, e Tonto terão até acharem Cavendish. Mas os problemas da produção blockbuster continuam, como escalar Helena Bonham Carter como a cafetona Red Harrington. Não que a personagem seja dispensável, já que a sequencia leva à uma divertida perseguição, mas ela é tão apagada que é de se questionar a necessidade de ter uma atriz tão conhecida para o papel. É a mesma coisa com Johnny Depp no papel do índio Tonto. Por não ter, obviamente, cara de índio comanche, Verbinski decidiu pintar toda a cara do ator para esconder suas feições caucasianas. Como o roteiro transforma Tonto no protagonista da história – sim, é nele que a tuda gira e funciona – na cabeça dos produtores um grande ator era necessário. Bem da verdade, se Depp não fosse escalado, o filme não seria comparado constantemente com a quadrilogia “Piratas do Caribe”.

Em “O Cavaleiro Solitário” Verbinski volta ao gênero de faroeste que já tinha visitado em “Rango” (Rango, 2011) e é bom vermos suas homenagens ao estilo, quando cita “Era Uma Vez no Oeste” (C’era una volta il West, 1968) na cena dos falsos índios e numa música de Hans Zimmer que lembra os acordes do homem da harmônica, e também “Três Homens em Conflito” (Il buono, il brutto, il cattivo, 1966) na cena da ponte. Os fã mais velhos que acompanhavam a série de TV – que por algum motivo passava por aqui como “Zorro” – vão se divertir quando o tema do herói clássico passar, a Overture de Guilherme Tell (de Gioachino Rossini), e com o cavalo Silver. Outro momento interessantes na história é o jeito de Tonto de contar a história, esquecendo detalhes ou os pulando, por causa da idade, momentos em que a montagem ajuda muito. A maquiagem do idoso Tonto e de Cavendish, ambos como se tivessem passado por muito problemas com o sol e o clima, também são destaques.

"O Cavaleiro Solitário" - poster brasileiro

Acredito que um dos motivos que o filme ter sido tão massacrado pela crítica americana é a velha história do dedo na ferida: parece que eles não gostam de admitir ou relembrar que seus antepassados foram responsáveis pelo massacre de tantas tribos indígenas. Também existem maus momentos, como a estranha mudança de caráter do capitão da cavalaria, e a facilidade de tirar um pino de um trem em movimento para fazer que o roteiro prossiga fazem a nota cair. No fim das contas, a história é divertida apesar de pecar em muitos pontos. De certa maneira, Verbinski também nos faz refletir a própria história, em especial na cena que ocorre durante os créditos, mostrando um Tonto vagando pela planície árida, sendo ele o último dos comanches. Não se sinta enganado ao ver a cena até o final, pois foi um modo poético de tocar no assunto.

O Cavaleiro Solitário concorre ao Oscar 2014 nas categorias Melhor Maquiagem e Penteados (Joel Harlow and Gloria Pasqua-Casny) e Melhores Efeitos Especiais (Tim Alexander, Gary Brozenich, Edson Williams e John Frazier).

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