0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Filament.io 0 Flares ×

Com Joseph Gordon-Levitt, Bruce Willis, Emily Blunt, Paul Dano, Noah Segan, Piper Perabo, Jeff Daniels, Pierce Gagnon, Tracie Thoms, Frank Brennan, Garret Dillahunt, Nick Gomez e Marcus Hester. Roteirizado e dirigido por Rian Johnson.

Não é fácil trabalhar com histórias que envolvam viagem no tempo. Os mais exigentes podem questionar fatores como os desdobramentos e realidades paralelas. Quem não está muito interessado pode se perder a história. Rian Johnson (que vem de uma carreira curta) nos apresenta um filme muito envolvente, fluido e coeso. Apesar de em dois momentos o diretor criar uma explicação, o que ao meu ver não seria necessário, “Looper” é um filme quase completo: dramático, com ação, redenção e ainda acha espaço para pequenos momentos de humor e outros mais doces. O que o faz ser um dos melhores filmes de ficção científica dos últimos anos, e um dos mais interessantes de 2012.

Apesar da viagem no tempo ser de grande importância no filme, os loopers não viajam no tempo para fazer o seu trabalho, pois isso criara muitas possibilidades inesperadas. Ao tomar essa decisão, Johnson cria um cenário onde o passado não é alterado. Claro, é tudo muito relativo, porque a simples presença de seres do futuro no nosso presente já criam uma realidade paralela. Enfim, é uma grande questão, filosófica inclusive. A máfia que no ano de 2072 domina a tecnologia, ilegal, é comandada no ano de 2044 por Abe (Daniels). Apesar de ser do futuro, o mafioso é rodeado de coisas “antigas”: papeis e um martelo de juiz fazem parte da bagunçada mesa do barbudo. John (Gordon-Levitt) é um dos loopers que trabalham para Abe. O termo vem de um conceito interessante, e que não tinha visto ainda. Esses agentes, além dos trabalhos de assassinatos “comuns”, tem a missão de dar um fim no presente a própria versão futura (aliás, os termos “presente” e “futuro” são muito subjetivos). Por isso looper, pois o assassino encerra o próprio ciclo depois de 30 anos de serviço. É uma aposentadoria bem radical, e somente alguém muito egoísta poderia topar uma dessas. Mas o alter-ego futuro de John (Willis) não aceita ser tratado como gado, e foge de seu destino certo. “Certo” porque ele mesmo já tinha visto a própria morte na sua linha de tempo original. E essa situação cria complicações que transformam o filme em um jogo de gato e rato, com John caçando a sua própria versão futura, e a máfia caçando ambos. O que rende uma cena curta e bem divertida num café no meio do nada. Além disso, é digno de nota o trabalho para que Gordon-Levitt fique parecido com Willis: não só a maquiagem e as lentes, mas o jeito de olhar e a expressão corporal do jovem ator são outros aspectos que marcam. Além disso o diretor tem um cuidado com figurino das versões, mostrando os dois usando camisetas brancas e de jaquetas, mas dá ao John futuro um ar mais pesado, dando a impressão que jaqueta que ele usa é mais velha também.

Numa conversas sobre a viagem no tempo e suas possibilidades, John futuro quer se mostrar altruísta, para evitar a morte de outra pessoa. Mas é notório que ele só quer a própria felicidade. E apesar duas facetas do looper serem bem egoístas, a sua versão futura passou dos limites. Por isso John futuro se esconde nos subterrâneos: sofre com sua perda e com as consequências de seus atos, mas não está disposto a parar, e vira quase uma coisa. “Seus desgraçados sem coração”, ele grita em determinada cena. Sem perceber que ele mesmo era desse jeito. Ambos são implacáveis, mas John futuro tem uma vantagem de saber tudo que a  sua versão mais jovem sabe. Isso também causa problemas, porque as memórias dos momentos que mudam começam a tomar o lugar das “originais”. E não caindo na tentação de ser apenas um filme de ação, Johnson introduz a personagem de Sara (Blunt) e do pequeno Cid (Gagnon) o que muda o tom do filme para algo mais humano, uma característica que ambos “Johns” parecem ter esquecido, chegando ao ponto de levantar questões morais de que se alguém pode ser culpado e punido por algo que ainda não cometeu, tema também levantado em “Minority Report – A Nova Lei” (Minority Report, 2002) e no conto de Philip K Dick que inspirou o filme de Steve Spielberg.

O filme tem efeitos especiais bem sutis. E isso é bem mostrado com “destruição” do personagem Seth (Brennan), que vai perdendo seu membros pouco a pouco, num efeito que já foi utilizado em “Alta Frequência” (Frequency, 2000), e não é preciso nada mirabolante pra entendermos o que está acontecendo, já que a montagem de Bob Ducsay se encarrega disso. Acontece a mesma coisa quando o John futuro aparece. Num frame não está, e no seguinte está. E Johnson não foge do campo da sociedade, dando uma visão bem pessimista sobre o ano de 2044, que tem poucas coisas futuristas (motos hooverboard e telas holográficas), mas que se parece muito com a nossa atualidade, com armas mecânicas, carros à combustão ou adaptados à energia solar, mas ainda com uma cara de começo de século XX.

“Looper” é um filme muito bem amarrado. O diretor joga pequenas frases num determinado ponto do filme que fazem todo o sentido mais para frente. Steve Yedlin não ousa muito na fotografia, mas separa bem os elementos do cenários, sempre mostrando a cidade grande com cenas noturnas (que podem ter sido usadas para esconder os “defeitos especiais”), enquanto as que se passam no interior são durante o dia (apenas uma exceção para efeito dramático) e tem um bom plot twist, que foi apresentado apenas sutilmente, ao ponto que não era possível dizer que se o que aconteceu no quarto entre Sara e Cid era verdade ou delírio. O momento final é quase estragado com uma narração em off que podemos muito bem entender o que está para acontecer, mas não prejudica o filme. Mas teria sido muito melhor se cortassem. Contando além de tudo isso com a evolução dos personagens que conseguimos nos importar, “Looper” é uma ótima contribuição ao mundo da ficção científica e do cinema como um todo.

Volte para a HOME