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Com Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Lenny Kravitz, Stanley Tucci e Donald Sutherland. Roteiro de Gary Ross, Suzanne Collins e Billy Ray, baseado no romance de Suzanne Collins. Dirigido por Gary Ross (Pleasantville – A Vida em Preto e Branco).

“Jogos Vorazes” é, em princípio, uma crítica aos reality shows e a seus espectadores que aceitam continuar dando audiência ao programa seja lá a barbaridade que ocorra na nossa tela, apesar de podermos interpretar outros temas. Mas a futilidade parece ser a base da crítica, passando pelo absurdo de assassinatos ao vivo terem audiência e a solução um tanto inverossímil da capital de punir os outros distritos. A primeira visita aos 12 distritos distópicos de Panem foi agradável. A história é interessante, com referências aos gladiadores, a glória de Roma em comparação com A Capital e a própria história dos EUA. Mas a falta de explicação de alguns dos temas que envolvem o universo e outros aspectos técnicos fizeram que o filme não fosse ótimo.

O Distrito 12, onde Katniss Evergreen (Lawrence) vive, lembra alguma vila do começo do século XX: o lugar não produz energia elétrica (nem para manter as cercas elétricas de isolamento), as casas são choupanas, a comida é preparada em fornalhas e as roupas são lavadas em bacias, assim como os banhos são tomados. E somos apresentados ao princípio dos “Jogos Vorazes”. Houve uma revolta dos Treze Distritos contra a Capital, que venceu a guerra. Como castigo (que a capital chama de “lembrança”) os doze Distritos restantes devem oferecer 24 jovens como tributo para lutarem até a morte para que o resultado da revolta nunca seja esquecido. O vencedor será louvado com glórias. Mas faltou explicar, afinal de contas, o que o vencedor ganha além de uma efêmera glória? Que tipo de esperança leva o único sobrevivente de volta para casa? E o que aconteceu com o Distrito 13? Essa parte inicial me pareceu um resumo do livro, que não li, e que parece servir só pra quem leu. Faltou esse cuidado com o espectador. Voltando ao filme, podemos fazer uma relação com outro momento histórico do nosso mundo com a marcha do Distrito 12 para a escolha dos tributos, onde vemos todos os moradores apáticos, magros, vestindo cores muito apagadas e fazendo filas para serem cadastrados. É muito parecido com cenas de campos de concentração nazistas. Somos apresentados à exagerada personagem de Effie Trinket (Banks), que faz o sorteio numa série cortes que quiseram representar os vários olhos nela, mas a opção do diretor chega a irritar. Os sorteados são a jovem irmã de Katniss, Prim, e Peeta Melark (Hutcherson). Mas Katniss se oferece como tributo para salvar a vida da pequena irmã. O diretor cria uma tensão muito grande nessa parte, com câmeras tremendo e ausência de trilha sonora, sendo um ponto positivo para o filme.

A Capital é mostrada como ápice da sociedade, como era Roma na época do império, com um tecnologia muito distante da realidade dos tributos: carros voadores, cenários virtuais perfeitos, meios de locomoção ultra-rápidos e todos seus residentes felizes e uma gama de cores muito maior que o mostrado Distrito 12. A cidade tem muito mais brilho e seus moradores se vestem com todas essas cores possíveis, e usam cabelos e cortes de barba extravagantes, se tornando caricaturas de seres humanos. Katniss e Peeta conhecem o seu mentor: Haymitch Abernathy (Harrelson) é um vencedor de uma das edições anteriores do jogo e começa como alguém que tem problemas com a bebida, e é uma pena que esse aspecto não é mais bem desenvolvido. Tanto ele quanto o estilista Cinna (Kravitz) são mais discretos no seus trajes, por isso ganham mais a nossa atenção (os dois se vestem praticamente com cores primárias, apesar de Cinna se dar ao “luxo” de usar uma sombra dourada nos olhos). Katniss e Peeta e os outros tributos são apresentados como se fossem para o abate (e vão mesmo), com muita pompa e circunstância, nessa sociedade em que tudo parece ser festa. A introdução dos tributos em carruagens mais uma vez remete ao tempo dos gladiadores. Apesar de ser uma sociedade avançada tecnologicamente, todo o pensamento é retrógrado. A expressão que cria o nome do continente Panem é panem et circenses, e não poderia ser mais apropriada. Esse exagero todo torna Katniss mais confiante, que mais tarde vai aprender a “jogar o jogo”. Antes de enfrentar seu destino ela consegue dar ao comandante do show Seneca Crane (Bentley) um boa impressão ao “parafrasear” Guilherme Tell. Essa parte também é de se notar o isolamento de Katniss: já que a maior parte da história é vista pelo seu ponto de vista, não vemos algumas coisas que ela também não vê. Como os outros tributos se saem na apresentação de seus talentos é uma delas.

Depois da preparação vem os jogos propriamente ditos. O nervosismo de Katniss é traduzido várias vezes pelo silencio no filme, como nos abafados sons do massacre entre os tributos. É interessante notar que os primeiros mortos são os de distritos intermediários, e não posso deixar de lembrar a passagem bíblica em Apocalipse 3: 15-16 (“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da Minha boca”). Mas tenho que perguntar: ninguém mais achou a sorte de Katniss exagerada e providencial? Primeiro, ela é emboscada no topo de uma árvore, onde o único jeito é descer e enfrentar 4 inimigos, incluindo Peeta. Mas Katniss escolhe pra se abrigar justamente uma árvore com mortíferas vespas geneticamente modificadas. Com a dica da pequena Rue, Katniss consegue jogar o vespeiro na cabeça dos seus perseguidores. E quem morre? Logo a competidora que tem um arco-e-flecha, a arma que Katniss tem familiaridade. Isso vai acontecer de novo, e por mais que sorte seja um fator essencial no jogo, Katniss parece abençoada demais.

“Jogos Vorazes” tem 142 minutos, mas o ritmo impresso não cansa. Mas algumas coisas fizeram falta nesse universo. Por exemplo, o que os Distritos produzem? Em determinado ponto do filme vemos que o 4 é responsável pela geração da energia nuclear e que o 12 é a mineração e só. Outro ponto: os números de 1 a 12 são uma escala? Não fica claro, mas me pareceu que sim. E é exagerada o leque de jovens escolhidos: que chance tem uma criança de 12 anos contra um jovem adulto de 18? Sem falar da falta de explicação das regras (elas existem?) e as mudanças que nelas ocorrem. Nesse ponto poderiam mostrar a reação dos espectadores da Capital aprovando ou não. Além disso, é de se notar os elementos de “O Show de Truman” (The Truman Show, 1998) no cenário mortal da lutra entre os tributos. Também estranhei muito a precariedade dos efeitos especiais, notados principalmente na criação dos seres perto do final do filme. Mas o que mais fez a produção cair de nota foi a falta de um cliffhanger! Uma fala do Presidente Snow (Shuterland) seria suficiente, ou algum pequeno elemento do livro seguinte. Os últimos momentos do filme parece que foram feitos para que o filme funcionasse sozinho. Talvez o livro seja assim, com a autora não arriscando não poder apresentar elementos novos se a sua oba não fosse um sucesso. Mas num universo de cinema, onde sabemos que virão mais 3 filmes, dar alguma coisa ao espectador para que tenha vontade de esperar o próximo filme é essencial.

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