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Jackie é uma viagem nostálgica a um tempo onde as coisas pareciam mais simples, algo quebrado pela dura realidade.

Jackie (2016)

Elenco: Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Billy Crudup, John Hurt | Roteiro: Noah Oppenheim | Direção: Pablo Larraín (Neruda) | Duração: 99 minutos

O cinema tem uma função interessante ao marcar o que se passa na sociedade de maneira mais abrangente que outras artes. E se estamos numa era nostálgica é normal buscarmos exemplos de uma época melhor – mesmo que isso seja um ponto de vista. A relevância de falar de Jackie hoje é esse olhar para trás, algo quase mítico sobre alguém que por algum tempo viveu um conto de fadas. Considerando a visão polarizada presente não só nos EUA, revisitar alguém que parecia unanimidade, apesar de seus defeitos, pode ser reconfortante. E ao escolher o ponto de vista da esposa daquele que um dia foi o homem mais poderoso do planeta, Larraín narra a história de um ponto de vista mais humano.

Larraín e Oppenheim contam a história de um determinado período da vida de Jacqueline Kennedy (Portman) de maneira jornalística, focada, tanto quanto o Jornalista (Crudup) quer. Para isso, como uma pintura renascentista, o diretor mantém a câmera apontada para seus personagens deixando-os ao centro, onde vemos que o ponto de fuga está no nariz ou no meio dos olhos, numa fixação por equilíbrio. Ao mesmo tempo há diversos closes entre a conversas dos dois, que traz a narrativa de Jackie para o âmbito pessoal e o mesmo pode-se dizer para a razão de aspecto do filme (de 1.66 : 1), mais estreita que o cinema widescreen costuma usar.

As decisões estéticas de Larraín evocam, além da personalidade da trama, algo de nostálgico se levarmos em conta a razão de aspecto das TVs da época. Fazem a mesma função as cores, o impecável figurino e a fotografia granulada presente nos momentos da vida de Jackie enquanto o então esposo e Presidente John Kennedy (Phillipson) estava vivo. Isso é bem perceptível quando Jackie conta sobre o dia que JFK foi assassinado em Dallas e vemos a paleta de cores vibrantes como um dos vestidos mais famosos da então Primeira-Dama dos EUA. O azul e amarelo fortes dão lugar às cores menos saturadas da nova casa de Jackie, um contraste tão forte parece esfriar a sala do cinema.

A narrativa centrada, estética e narrativamente, em praticamente uma só personagem exigiu muito de Natalie Portman e é justo apontar que a atriz se saiu espetacularmente bem no papel. Ela consegue passar a dor e a confusão que Jackie provavelmente passou. Seu olhar às vezes focado e às vezes perdido – às vezes sem saber o que ela queria realmente – é a representação factível de alguém que estava com um peso monstruoso nas costas, não bastasse o do próprio nome Kennedy. Entre atender ao funeral, contar aos filhos pequenos que o pai não estava mais nesse mundo e se preocupar com a própria segurança é nos momentos de solidão que a atriz entrega o melhor desempenho, por meio de gestos como tirar tremulamente uma meia ou mudar várias vezes de vestido.

Por se concentrar nos desmembramentos da morte de John Kennedy, a narrativa é bem sucinta e usa da montagem para dar o dinamismo necessário. Ao compreender que contar a história de maneira linear prejudicaria o desenvolvimento, Larraín transforma o filme como se estivéssemos navegando em memórias. Essas lembranças se emendam, indo para determinados momentos diferentes no tempo, sem deixar de fazer sentido, influenciadas pelas perguntas do repórter. É o diretor traduzindo em imagens o nosso pensamento, resgatando momentos que se entrelaçam na nossa memória sem necessariamente seguir o caminho de como tudo aconteceu. Entre três linhas temporais distintas – o desenrolar dos dias seguintes ao assassinato, a entrevista e a conversa com um padre (Hurt) – Larraín nos deixa conectados à Jackie entre momentos de maior e menor interesse.

A narrativa traz uma Jackie tanto perdida quanto controladora – desde os detalhes do funeral do marido até fazer anotações do que pode ou não ser publicado no caderno do repórter. Essas oscilações da ex-Primeira Dama a aproximam do espectro da humanidade: com convicções, qualidades e falhas ao invés de uma pintura midiática que costuma atingir qualquer um que de alguma maneira esteja às vistas do poder – como parte da nossa imprensa hoje faz com a atual primeira-dama do Brasil. Olhar para o passado e buscar um conto de fadas pode ser um escape para muitos, e o que Larraín faz é uma homenagem a esse período.

O retrato de Jackie mostra os aspectos de uma mulher que muitos estadunidenses ainda vêm com carinho, mesmo quarenta anos depois de sua morte. É um retrato doce, mas triste de uma mulher corajosa e vulnerável. Entrar na intimidade de uma personagem tão querida por tantos é resgatar aquela já mencionada nostalgia de pessoas numa época mais simples, mas que Larraín não permite que sejam endeusadas. É também um retrato histórico – que mostra sua veracidade por intervenções televisivas originais de alguns eventos durante o filme – com uma pitada de esperança nos minutos finais quando a luz fria de um dia chuvoso dá lugar à luz cálida, mas ainda carregada de um tanto de melancolia pela luz do ocaso, e que na sua simplicidade nos conquista aos poucos.

Jackie | Trailer

Jackie | Pôster

Jackie | Cartaz brasileiro

Jackie | Galeria

Jackie | Imagens

Créditos: Divulgação

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Jackie | Sinopse

Jackie reconta as lembranças de Jacqueline Kennedy durante a sua vida na Casa Branca, durante e depois do assassinato de seu marido e então presidente dos EUA, John F. Kennedy. Lidando com o trauma, a viúva conta o que viu para um jornalista enquanto passeia pela própria história.

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