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Godzilla tem alguns clichês próprios dos filmes de ação, mas essa é a melhor encanação americana do monstro japonês.

Godzilla, 2014

Com Aaron Taylor-Johnson, Ken Watanabe, Elizabeth Olsen, Juliette Binoche, Sally Hawkins, David Strathairn e Bryan Cranston. Argumento de David Callaham. Roteirizado por Max Borenstein, baseado no personagem da Toho. Dirigido por Gareth Edwards.

8/10 - "tem um Tigre no cinema"Quando assisti aos vinte minutos não-sequenciais de Godzilla, tive a impressão que seria um filme à altura da lenda do clássico do monstro que, nas suas inúmeras encarnações, teve bons momentos. Reimaginado para uma nova audiência, esta versão agrada por ter uma história direta, com uma base dramática e muito espaço para a ação. Apesar da falta de originalidade – afinal, é a segunda vez que Gojira chega aos cinemas americanos – e de alguns clichês, o filme se firma com uma direção sólida e com ótimas surpresas. Pode não ser lendário, mas é com certeza monstruoso como o personagem título.

Joe Brody (Cranston) é um físico nuclear e o engenheiro responsável por um usina no Japão que perde a esposa Sandra (Binoche) por causa de um acidente que fechou o local e toda a região. Anos depois, ele não crê que foi tudo um acidente, e seu filho Ford (Taylor-Johnson) acha que o pai perdeu a noção da realidade. Mas os eventos que se seguem mostram que Joe estava certo, e seja lá o que for que atacou a usina quinze anos antes ainda está por aí. Algo que poderá levar o mundo de volta à idade da pedra.

É interessante a decisão do diretor de abrir o filme com um curto mockumentary para dar o clima do filme. Isso faz com que a história principal flua mais rapidamente, e é uma opção mais interessante que a batida narração off. Apesar de Godzilla ser o nome do filme, o que mais vemos é o ponto de vista humano: como o monstro poderia ser derrotado, catalogado e até mesmo visto, se fosse real. Por exemplo, me adiantando, no terceiro ato algumas pessoas se refugiam numa estação de metrô enquanto as portas vão fechando e há apenas um deslumbre da criatura. E quando a origem de Gojira é explicada novamente um pouco mais detalhada pelo Dr Ishiro Serizawa (Watanabe), a cena é objetiva, porque sabíamos previamente o percurso do monstro, o que deixa espaço para a história principal.

Apesar da participação de Cranston e Binoche ser pequena, eles moldam o caminho da família. Notem que quando vemos Joe e Sandra indo até a usina é ela quem dirige, e isso é muito simbólico. Quando a esposa morre, resultado da exposição à radiação, Joe perde o rumo – sua guia, ou sua motorista. Ele fica obcecado com a situação, e perde detalhes da vida do filho. Joe se torna aquele típico teórico da conspiração, e poderia se perder no menor detalhe, mostrado na cena em que o Ford tira um livro do lugar, e reclama que não o acharia de novo se não estivesse exatamente onde tinha deixado. Sim, os dois foram escalados para chamar mais a atenção do público. Cranston em especial, que deixa o filme no começo do segundo ato enquanto Binoche, sinceramente, poderia ter sido interpretada por qualquer outra atriz. Há um paralelo entre a organização Monarca, uma coalizão internacional que caçou por anos Gojira/Godzilla e a família Brody: pai americano, mãe francesa, moram no Japão e criam um herói – não no sentido mais puro da palavra, mas que se torna órfão, que é um conceito clássico – que irá acompanhar o espectador pelo restante do filme. Um personagem que é, pelo menos em parte, a antítese do que tentaram fazer com o monstro: um militar que ao invés da fazer estrago, tenta evitá-los na sua profissão de desarmador de bombas.

O conceito de aventura ganha um corpo interessantíssimo a partir do segundo ato, com uma surpresa ótima, muito bem escondida pelo estúdio. Fora uma anunciação muito rápida na infância de Ford, retratada por um pôster em seu quarto, Edwards e o roteirista Max Borenstein nos enganam muito bem: uma ossada, um rastro, e no melhor estilo quanto menos melhor, vamos descobrindo um pequeno mistério pouco a pouco junto de Ford. Quando a cena acontece, você fica esperando uma coisa. Mas ela não vem exatamente como imaginamos. Aparecem formas que não conhecemos e isso é muito bom.

O conceito de Gojira/Godzilla é reimaginado também, e há grandiosidade nisso. Homenagens aos filmes de Ishiro Honda, como parte da história se passar no Japão e a impotência dos homens em relação à uma força destrutiva e o momento inesperado já citado no parágrafo acima que vai trazer um sorriso ao seu rosto. Talvez por causa da maioria estar familiarizada com a versão de Roland Emmerich, produzida em 1998, essa surpresa seja maior ainda. O que acontece é uma volta ao espírito dos filmes produzidos pelos estúdios Toho, mas com espetaculares efeitos especiais, ainda que o lagartão seja mais japonês do que um redesign como Emmerich tentou (e falhou).

E há música de Alexandre Desplat. Impactante e marcante como os passos do gigante. Apesar de ter sentido falta de mais toques japoneses, como uma orquestra de Taiko, os grandes tambores. Mas o silêncio também é importante. Aliado com o design de som, o filme se torna estranhamente épico. Um momento marcante é quando há um grande desastre em um aeroporto no Havaí, e as pessoas gritam desesperadas, a música acompanha esse desespero. Até que tudo some: as pessoas param de gritar, a música e as explosões cessam para fazer reverência à entrada triunfal de Gojira/Godzilla, primeiro só com o relance da pata, para o vermos pela primeira vez por inteiro. E devo abrir um parênteses para uma cena em que Ford e outros soldados saltam de paraquedas para uma missão suicida, e Desplat usa uma sinfonia muito similar à de György Ligeti em 2001 – Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968): uma viagem ao desconhecido.

Outra grande qualidade é que o filme, apesar de ser praticamente uma batalha de ira divina, foge de padrões blockbusters na duração. Ele se fecha perfeitamente e sem cansar em apenas duas horas. Na verdade, até parece mais curto.

Os efeitos especiais obviamente são importantes. Apesar de haver poucas cenas diurnas – há um momento, já no ato final, se inicia no começo de uma tarde chuvosa e atravessa até a noite para representar que passou muito tempo – Gojira/Godzilla se esconde menos da audiência a partir do momento em que é apresentado. E tudo funciona e está encaixado, principalmente no movimento dos gigantes, que são lentos como fisicamente as criaturas desse porte deveriam ser.

Há também críticas, como o discurso onde o homem acha que controla a natureza e não o contrário, que é escancarado pelo Dr Ishiro. E àqueles que não prestam atenção ao seu redor – como avisos da natureza – na cena em que o mundo está literalmente caindo em Las Vegas e as pessoas continuam fechadas no seu mundinho, gastando dinheiro em caça-níqueis. E há momentos cômicos, esses em menor escala – como o havaiano que se molha, no sentido figurado, quando vê um gigante destruindo o aeroporto – para quebrar o clima dramático do filme.

Godzilla - poster nacional

Godzilla não é um filme perfeito. Existem cenas clichês e até over, como o grito exagerado de Joe ao fechar a porta que impedirá que a radiação chegue à cidade, mas que matará a mulher; o soldado idiota que dispara desobedecendo as ordens; o fato dos militares saberem do pulso eletromagnético e ainda usam caças para ficar perto da ação são alguns deles. Mas há outros cuidados além dos tantos que falei, como conversas no Japão que são em japonês, o design dos gigantes e a luta final num bairro oriental valem a pena ser apreciadas. O 3D é convertido, mas há a grande profundidade de campo nas cenas de Gojira/Godzilla. O efeito não é tão necessário, valendo mais a pena assistir em IMAX. É um filme eficiente e divertido, que pode não mudar a vida de ninguém, e nem ter a importância dos kaijus originais. Mas é uma ótima homenagem.

[ouça também]
• JWave #175: Godzilla (2014)

Veja abaixo o trailer de Godzilla (2014):

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Godzilla | Crítica
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