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Gone Girl, 2014

Com Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris, Tyler Perry, Carrie Coon, Kim Dickens. Roteirizado por Gillian Flynn, baseado no próprio romance. Dirigido por David Fincher (A Rede Social).

10/10 - "tem um Tigre no cinema"É um grande desafio de transpor o texto de Garota Exemplar. Creio que nenhuma crítica estará à altura desse excelente filme, sem entrar na discussão de partes da trama. Mas será um prazer revê-lo com alguém que ainda não passou pela experiência, porque é muito importante que todos sintam o mesmo que os já tiveram a oportunidade de assistir. David Fincher consegue trazer tanto durante a projeção – medo, rejeição, solidão – e de maneira tão inteligente que será impossível você se sentir inerte a cada virada, a cada minuto dessa experiência fantástica, que brinca com pontos de vista e sombras que não mostram tudo. Assim como esta crítica.

Nas bodas de aniversário de casamento, Nick Dunne (Affleck) reporta o desaparecimento da esposa, Amy (Pike). Durante as investigações e pressão da mídia, o retrato de casamento perfeito dá lugar às dúvidas e mentiras. Até que o próprio Nick começa a ser suspeito da morte da esposa.

Fincher brinca com a percepção do espectador logo nos primeiros segundos do filme. Enquanto vemos a cabeça de Amy ser acariciada pelo marido, a narração off de Nick diz que ele gostaria de abrir o crânio da esposa – o primeiro choque. Até ele explicar que isso era apenas em sentido figurado, nossa mente já fez conexões neurais que levaram microssegundos. É muito forte, psicologicamente falando. E o olhar que Amy mostra para a câmera não é nada menos que penetrante: não estamos lidando com personagens simplistas.

Falando em narração, o roteiro aposta em duas perspectivas da história. Enquanto estamos vivenciando tudo que Nick está passando, a narrativa é cortada pela voz da já desparecida Amy enquanto escreve o seu diário, numa presença quase fantasmagórica, e que cai com muito peso para quem estiver assistindo. Enquanto Amy vai contando para nós como conheceu Nick, o momento mágico e doce que foi o primeiro beijo dos dois – envoltos numa nuvem de açúcar -, embalados por melodias tão belas de Trent Reznor e Atticus Ross, a tendência natural é acreditarmos naquelas palavras escritas. E ao tempo que elas vão piorando, junto com a música, precisamos ver a prova física delas. Lidando como poucos com a linguagem cinematográfica, Fincher fisga a todos nós. E, por consequência, pode fazer o que quiser.

Ir além iria estragar a experiência, como explicado no começo. Não leve esse filme com leviandade, pois se você deixar de prestar atenção nos primeiros quadros que seja – ao chegar atrasado porque se esqueceu de comprar a pipoca, por exemplo – vai se perder. Fincher e Flynn amarram todas as pontas, mas é preciso a sua total entrega. A montagem com os pontos de vista diferentes, mudanças de linhas de tempo, e tudo que você acha que sabe sobre o jeito de contar uma história será desafiado. E esse é só um dos motivos que faz esse filme ser tão fantástico.

Em outros momentos, Fincher mostra que não se esqueceu de outros detalhes para dar corpo à trama. Seja pelo pai de Nick, que determinado momento aparece e achamos que foi esquecido para, de novo, o roteiro mostrar que nada em tela foi sem propósito. A fotografia de Jeff Cronenweth – coloborador usual de Fincher – mantém muita pouca luz praticamente por dois atos da história. São muitas cenas noturnas, ou na meia-luz de uma manhã cinzenta, ou ainda apenas a iluminação por velas enquanto acontece a vigília e busca por Amy. Notem também o figurino de Nick. Enquanto ele parece pouco perturbado com o desaparecimento da esposa – ao ponto de flertar com outras mulheres, ainda que involuntariamente – Fincher mantem cores simples e melancólicas nas suas roupas: preto e azul, basicamente. O que acaba fazendo coro com a fotografia e humaniza o marido. Além disso, é bom perceber que Fincher trabalha com a câmera fixa constante, diferente de outros diretores que parecem nervosos com suas câmeras na mão, como se dissesse que, antes de tudo, somos espectadores.

O jogo de investigação e o da mídia entram em conflito constante, e essa é uma crítica da história. Existe uma caça às bruxas tão forte e sem controle que poucos dão o benefício da dúvida a Nick. É na irmã gêmea, Margoo (Coon), que Nick encontra um porto seguro, já que não pode mais contar a família – a mãe falecida, e o pai numa casa de repouso. Dentro da esfera policial, a Detetive Rhonda Boney (Dickens) é sensata ao não se deixar levar por como a história é vendida. Nick tem inúmeros defeitos que vão emergindo, daí ele não é maniqueísta, mas ele não tenta se aproveitar da história. Diferente, por exemplo, dos pais de Amy, que enriqueceram por uma personagem baseada vagamente na vida da filha. Essa é uma luta entre a razão e a histeria, que já enterrou sabem-se lá quantos.

Garota Exemplar | pôster brasileiro

Garota Exemplar traz personagens interessantíssimos, que vão ficar na memória por muito tempo. Uma delas é tão metódica que só o acaso pode derrubá-la. Mas a capacidade de improvisação dela é tão icônica, tão crível, que é impossível deixar de admirá-la. Não que fosse diferente no livro, mas sabemos que o cinema tem um alcance muito maior. E que fique cada um com sua pequena loucura. Só tenha cuidado com quem você a partilha nessa outra loucura chamada casamento.

Veja o trailer de Garota Exemplar

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