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Exodus: Gods and Kings, 2014

Com Christian Bale, Joel Edgerton, John Turturro, Aaron Paul, Ben Mendelsohn, Sigourney Weaver, Ben Kingsley e Issac Andrews. Roteirizado por Adam Cooper, Bill Collage, Jeffrey Caine, Steven Zaillian. Dirigido por Ridley Scott (Prometheus).

8/10 - "tem um Tigre no cinema"Falar de religião é sempre um terreno espinhoso, ainda mais quando o assunto é o considerado líder de uma nação, tanto por judeus quanto muçulmanos. Recontando uma história muito conhecida, e que têm nos calcanhares outras grandes adaptações cinematográficas, Êxodo: Deuses e Reis é uma aula de cinema que traz os mesmos desafios ligados ao filme de outra figura bíblica, lançada alguns meses atrás. Ridley Scott trouxe uma grande e magnífica produção, como foi a era de ouro dos faraós, e não tem receio de imaginar uma história clássica, dando tons de alegoria, como alguns creem ser, e não esquecendo de elementos primordiais da fonte original.

Moisés (Bale) e Ramsés II (Edgerton) lutam lado a lado como irmãos. Porém, uma profecia diz que um deles se tornará um grande líder, o que preocupa o descendente de direito ao trono do Faraó. Exilado, Moisés descobrirá a verdade sobre sua origem e o destino que o fará ser o grande líder de toda uma nação. É uma interpretação do êxodo hebreu do Egito, como relatado no livro do Êxodo.

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Você já conhece essa história. Seja por ter lido na Bíblia ou no Corão, ou por ter visto as versões cinematográficas já existentes Os Dez Mandamentos (The Ten Commandments, 1957, Dir Cecil B. DeMille), A Terra Prometida (Moses, the Lawgiver, 1974, Dir Gianfranco De Bosio) ou ainda O Príncipe do Egito (The Prince of Egypt, 1998, Dir Brenda Chapman, Steve Hickner e Simon Wells). Esse é o maior trunfo da produção de Scott. Munido desse conhecimento prévio do espectador, todos os atos – mas principalmente o primeiro – fogem do clássico estilo da origem hebraica do bebê Moises encontrado na água pela irmã do faraó Seth (Turturro), e é tudo muito dinâmico e ágil.

Assim, nos concentramos nas relações que o então príncipe do Egito tem com o primo, sua coragem e até seu ceticismo, como vemos na reação da interpretação de uma sacerdotisa egípcia. Essas características acompanharam Moisés por todo o filme, ainda que ele seja mudado quando recebe a visita do próprio Deus (Malak).

Essa visão mais cética é um reflexo do próprio diretor na história que conta. Ridley Scott disse ser um agnóstico numa entrevista de 2005. Além disso, conta-se o fato de que ele começa o filme com os dizeres “1.300 anos antes da Era Comum”, ao invés de dizer “Antes de Cristo”. O que não deixar de ser, ao mesmo tempo, essa posição é uma neutralidade para agradar também os que seguem o islamismo.

Porém, todo esse cuidado não evitará que o filme seja considerado blasfemo, creio. Diferente do que vimos tradicionalmente, Deus exige que Moisés seja um general para libertar seu povo. O que é lógico, convenhamos. O criador preferiu deixar as coisas na mão do seu escolhido inicialmente. Scott muda o cenário com um Deus agente para mostrar que o ser humano é falho, que consegue pouco sozinho. Ou ainda que faça as escolhas erradas.

Por outro lado, os religiosos não podem negar que Deus está bem representado na história – pelo menos como ele é visto no Velho Testamento. Moisés é cético e razoável na história: aceita a missão de Deus, mas o questiona várias vezes, que replica para o ex-princípe que 400 anos de escravidão tinha sido demais, e que Ele não descansaria enquanto cada um dos egípcios implorasse perdão por essa desfeita. De fato, é bem bíblico quando lemos, por exemplo, Êxodo 34: 14 (Pois, não deves prostrar-te diante de qualquer outro deus, porque Jeová, cujo nome é Ciumento, é um Deus ciumento).

Impossível não dar destaque à grande produção cinematográfica que é o filme. O 3D é muito bem feito e usado – ainda que dispensável em vários momentos. A fotografia de Dariusz Wolski (de O Conselheiro do Crime) mistura climas e divide momentos acertadamente – apesar de todo o filme ser permeado com o amarelo do deserto, vemos que em Pítom ela ganha tons de areia. Os efeitos especiais estão dignos do diretor, e ver o Mar Vermelho se abrindo, formando grandes ondas ao invés de paredes é uma experiência maravilhosa. E o figurino também tem destaque, com detalhes das armaduras, passando pela escolha de simplificar Moisés ante Ramsés, quando este se torna faraó, e podemos perceber que as vestimentas do líder hebreu vão ficando mais simples com a passagem do tempo. Ou ainda, o vislumbre da medicina da época no tratamento de Seth são motivos para apreciar com muito mais atenção o filme.

Admitindo estar contando uma história que para muitos é real, Scott e os quatro – um número bem grande – roteiristas mesclam satisfatoriamente esse Deus comum aos judeus e islamistas. Quando Moisés conhece Zífora (Valverde) e sua família, podemos ver nos beduínos traços tipicamente muçulmanos: a cor da pele mais escura, adereços típicos e pequenos desenhos fazem o casamento dos dois ser, simbolicamente, a união desses numa mensagem de amor escondida.

O casamento marca a metade do segundo ato, que é mais emocional, para podermos apreciar o caráter e a família de Moisés. Ele não é retratado com um seguidor cego de uma religião, inclusive pedindo ao filho não aceite sem questionar o que lhe dizem. E um personagem tão cético tem um bom motivo para subir a Montanha de Deus, que é o paralelo do bom pastor.

Scott gosta de trabalhar com paralelos no filme, como fica claro quando os corpos dos hebreus que morreram de exaustão para construir o legado de Ramsés – aqui já com a alcunha de “O Grande” – são queimados. Ou quando o mesmo faraó diz que eles não são egípcios, mas escravos. É clara a ligação com o holocausto judeu durante a II Guerra Mundial, e algumas tomadas dessas cenas que ocorrem nas sombras parecem até documentais.

Mantendo a linha cética de seu protagonista, Scott explica – até demasiadamente – como as pragas do Egito escalonaram de proporção. Então, o Nilo se torna vermelho por causa do ataque dos crocodilos; os peixes morrem sufocados pelo sangue; os sapos então procuram comida em outros lugares; quando morrem, trazem as moscas; quando estas morrem, aparecem as feridas, provavelmente por causa de algum protozoário; assim, morrem as montarias e o gado também. Tudo com uma contextualização científica.

Isso quer dizer que as pragas e os milagres foram obra do acaso, e as visões de Moisés foram ilusão? Não pelo menos na história que o diretor resolveu contar. Há um plongé de uma estrela que cai depois que Moisés se livra da espada egípcia – aceitando sua condição de hebreu – e a conclusão, na salvação de Moisés e Ramsés onde estavam e como estavam, só poderia acontecer por mãos divinas. O diretor não acredita nisso e pouco importa para a narrativa, pois ele trata a história de Moisés, se não como mitologia, pelo menos como alegoria.

Êxodo: Deuses e Reis | cartaz nacional

Existem outros detalhes para quantificar a qualidade de Êxodo: Deuses e Reis. Por exemplo, quando Moisés se encontra com Nun (Kingsley), dois guardas confundem o príncipe com um escravo, e Moisés os mata por isso. Ali, nas entrelinhas, Scott quis mostrar que fisicamente ele se parecia com um hebreu. E o diretor não ameniza as coisas para o lado de Deus, ao dizer com todas as letras, na fala de Ramsés, “vocês veneram um deus que mata crianças”. Ridley Scott não quis fazer concessões, e nem tenta contar a história como ela supostamente foi. Sua visão é representada por um diálogo entre Deus e Moisés, já perto da conclusão, onde o criador diz “às vezes discordamos, mas cá estamos, conversando”. E é isso que faz o filme ser interessante: o levantamento de uma discussão. E essa é uma das grandes missões do cinema.

Veja o trailer de Êxodo: Deuses e Reis

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