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De Onde Eu Te Vejo (2016)

Com Denise Fraga, Domingos Montagner, Manoela Aliperti, Marisa Orth, Juca de Oliveira e Fúlvio Stefanini. Roteirizado por Leonardo Moreira e Rafael Gomes. Dirigido por Luiz Villaça.

Passeando entre o romance, a comédia e o drama, De Onde Eu Te Vejo se destaca dentro do gênero nas produções nacionais.
8/10 - "tem um Tigre no cinema"O cinema brasileiro foi maltratado por causa da gana das produtoras em enfiar goela abaixo comédias estúpidas e romances açucarados. De Onde Eu Te Vejo foge da maioria desses clichês, mesmo usando dos elementos citados. É uma comédia, assim como é um romance, tanto quanto um drama. Essa mistura permeia a narrativa com equilíbrio, sem deixar que um aspecto fique mais à frente de outro, além de ser tecnicamente impecável. Mesmo com alguns problemas – poucos, é verdade – é uma história bonita, leve, agradável de ser assistida e que pode fazer você se reconectar com quem ama de verdade, mesmo numa metrópole como São Paulo.

O grande diferencial do filme em relação a seus irmãos cinematográficos, é que já há um romance rompido. Ana (Fraga) e Fábio (Montagner) estão separados desde antes de a história começar. Agora, o mundo dos dois se passa como num espelho, onde cada apartamento é reflexo do outro, trazendo as melhores cenas da narrativa. Em certos momentos, a relação de amor e ódio – que pode ser uma palavra muito forte – faz o casal de protagonistas tomarem ar de crianças, e sobra para a filha Manu (Aliperti) servir de juiz de paz e acalmar as coisas. E não é à toa ela chamar os pais pelos nomes próprios.

E há uma série de conflitos que ligam o casal, por mais contraditório que isso pode parecer. Ana hoje trabalha com especulação imobiliária – oposto de seu trabalho dos sonhos de ser arquiteta – e Fábio se vê perdido na mudança da mídia impressa para a digital – o retrato do jornalismo e a dita evolução – enquanto ambos tem que lidar com a filha deixando o ninho. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo para o casal que tenta manter algum tipo de amizade, apesar do fato de não serem mais um casal. Basicamente, os dois estão naquela situação típica da vida adulta onde não queremos fazer aquilo que estamos fazendo, desconstruindo aquilo que gostamos.

Há idiossincrasias muito interessantes nos protagonistas que lhes dão tridimensionalidade. Ana com seu lado um tanto místico é ligada em mudanças constantes se mostrando, em muitas maneiras, o oposto de Fábio, focando mais nas coisas que dão certo e que não precisam mudar, como sempre querer comemorar ocasiões especiais na mesma cantina italiana. E há um elemento muito sutil, mas igualmente interessante, que o diretor usa para reforçar essas ligações que são os telefones. Notem que o aparelho do apartamento de Fábio é daqueles modelos antigos de fio enrolado, enquanto Ana atende suas ligações ou pelo celular ou por um telefone sem fio. É Villaça brincando com a personalidade dos personagens sem precisar de falatório.

Porém, existe um personagem totalmente fora de contexto, e até sem proposito para a trama. Marcelo (Airoldi) aparece do nada, servindo como um conflito desnecessário, e some do mesmo jeito. As motivações do personagem que persegue Ana – no pior estilo stalker – servem apenas para atrapalhar a reaproximação do casal, mas que é falha em primeiro lugar pela característica bizarra dele, já que qualquer pessoa em juízo perfeito teria achado no mínimo estranho o fato de ser seguida, e porque poderia ser repetido por qualquer personagem genérico e, ainda assim causaria, ciúmes em Fábio, pois Marcelo só serve de escada para uma cena envolvendo o namorado de Malu.

Para completar a produção, o diretor entrega uma obra de um elevado primor técnico e estético. Há uma cena logo no começo do monólogo de Ana em que a câmera mostra o apartamento que agora Fábio irá morar, num travelling que adentra a sala e continua num plano-sequência. E é fantástico, considerando que, fora as externas, é tudo produzido em estúdio. É um ótimo exemplo de como montagem e fotografia funcionam em sinergia, entregando um trabalho formidável.

A vida não é puramente uma comédia, tampouco um tenebroso inverno e De Onde Eu Te Vejo traduz muito bem essa verdade. Além de ser um estudo de caso, é uma homenagem ao cinema – com quebras da quarta parede, Fábio assistindo Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment, 1960, Dir Billy Wilder) e repetindo a solidão do personagem de Jack Lemon – e à cidade de São Paulo, ainda que o filme seja cosmopolita o suficiente para funcionar em outras metrópoles. Nessa proximidade distante dos protagonistas, por assim dizer, torcemos pela felicidade dos três e nos divertimos com as lembranças atuais de Ana – brincando com a contradição de novo – e com isso adoçamos um pouco nossas próprias vidas.

Sinopse oficial
“De Onde Eu Te Vejo conta a história de amor de um casal através de sua separação. Em meio a uma São Paulo em constante mudança e efervescência cultural, Ana Lúcia (Denise) e Fábio (Domingos) se separam após 20 anos de casamento e ele passa a viver no apartamento do outro lado da rua. Eles terão que aprender a viver a nova realidade – a separação, a crise no trabalho e a mudança de cidade da filha – e perceberão que no meio da confusão da vida moderna é possível reinventar uma nova forma de amar.”

De Onde Eu Te Vejo | Cartaz

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