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A Criada nos hipnotiza, seduz e prende para entendermos o que há além do drama erótico.

A Criada (2016)

Elenco: Kim Min-hee, Ha Jung-woo, Cho Jin-woong, Kim Tae-ri | Roteiro: Park Chan-wook, Chung Seo-kyung | Baseado em: Fingersmith (Sarah Waters) | Direção: Park Chan-wook (Segredos de Sangue) | Duração: 144 minutos

É cada vez mais difícil ser surpreendido e felizmente A Criada faz isso com o espectador. O drama erótico de Park Chan-wook é um daqueles filmes que quanto menos você souber antes de entrar na sala de cinema, melhor. Você é então levado junto com os personagens entre descobertas, excitações e até mesmo um pouco de risadas. Mostrando que sabe como fazer cinema, o diretor nos puxa por um caminho e, diferente de tantas outras produções, é bem mais difícil de ver as cordas enquanto somos manipulados e somos levados a acreditar nas coisas que estão na primeira camada de entendimento enquanto somos deslumbrados e atraídos pelo visual e pela carga sensual da história.

E fica complicado entrar na estrutura do filme sem ao mesmo tempo ir ao território dos spoilers – por isso é tão importante que você leia comentários e críticas, até mesmo o trailer, apenas depois de ver. A narrativa de Sook-hee (Tae-ri) nos engana desde o começo, algo que só é alcançado pela acertada montagem de Jae-Bum Kim e Sang-beom Kim. Um dos grandes méritos de filmes de mistério, o que a produção também é, é quando os elementos e pistas nos são mostrados e nós apenas não os notamos. Isso porque a Senhora Hideko (Min-hee) é hipnotizante e isso se reflete na narrativa em si. Ela é tão furtiva quanto um gato e ao observá-la é entrar no seu mundo e ser capturada por ele – e faz mais sentido a tradução do nome do filme em coreano (Ah-ga-ssi) que quer dizer “A Senhora”.

Com um fundo histórico – mostrado pela brutalidade de soldados japoneses contra crianças coreanas e a questão do tio de Hideko querer se tornar um japonês – a história também tem algo de político-econômico. Se sentindo injustiçados pela invasão, Sook-he e sua família dá o troco ao se tornarem vigaristas e enganando japoneses. E a produção é cheio dessas enganações. Achamos que é um drama familiar com Sook-he indo embora e com uma moça que é aparentemente a irmã dela chorando, mas que buscam só a ascensão social. E, de novo, saber mais que isso pode estragar a experiência de quem não viu. Se esse for o seu caso, apenas perceba como os elementos serão justificados depois – uma corda, um conjunto de sinos, as cores das roupas de Hideko e Sook-he.

A palavra sugestão é bem presente no primeiro ato do filme, pois o diretor mostra suas intenções a princípio sutilmente, mas sem amarras. A casa que Sook-he (que por mais uma apropriação cultura começa a ser chamada de Tamako) é enorme e a câmera trêmula está, pelo menos no início, representando toda essa imponência. Depois a movimentação ainda está presente, mas o nervosismo vem por estar ao lado de Hideko. Ela, agora objeto de desejo tanto do Conde vigarista Fuijiwara (Jung-woo) como de Sook-he desestabiliza a percepção da jovem criada. É impossível não se hipnotizar com a cena do dedo dentro da boca de Hideko, num olhar impossível de desviar, sutilmente erótico, mas presente.

Ainda estamos nos símbolos, sem que Chan-wook seja tão direto. Desde a escolha do figurino dos personagens – o falso conde se veste de maneira mais ocidental, Hideko é constantemente vestida com tons claros para aumentar a sensação de inocência – ou modos de agir. Enquanto Hideko é retratada quase como uma criança pelas cores que usa e por chupar pirulitos, seu tio Kouzuki (Jin-woong) é o retrato da decadência e da podridão por sua língua e lábios pretos (além das próprias vestes). O fato é que esse é um filme que leva em conta muito o figurino e a estética para contar melhor sua história, algo que é percebido com mais clareza no segundo ato.

E a cada mudança somos pegos de surpresa. É muito difícil entender a motivação escondida dos personagens até que seja tarde demais. E fazendo pequenos flashbacks que não atrapalham a narrativa, Chan-wook mostra que tudo já havia sido contado, apesar de não ser esmiuçado em detalhes, como se o diretor nos desse um tapa na cara ao mostrar como fomos estúpidos ao sermos enganados de maneira até simplória. E nisso o diretor mexe com os nossos sentimentos mais profundos, pois enquanto personagens são enganados, nós, como partícipes dessa história, nos sentimos enganados também. E assim Chan-wook ao lado de sua parceira de roteiro – ou de crime, seria melhor dizer? – Seo-kyeong Jeong criam uma empatia que até o fim do primeiro ato não compreendíamos propriamente.

Os dois, no entanto, não param de brincar conosco durante o segundo ato ao conhecermos melhor a história de Hideko. Diferente do que vimos antes, ela ganha cores e profundidade e um passado. Criado por Kouzuki para ser sua esposa, uma atitude que reforça a podridão já apontada do tio, Hideko é o cúmulo da paciência. Enquanto lê poemas eróticos para um punhado de aristocratas japoneses, seu olhar é impassível, mas que por dentro há um incômodo que é representado pelo figurino, mais uma vez apontando a importância do elemento. Determinada cena em que ela usa o vermelho por baixo do branco – que é um espetáculo de cena – Chan-wook consegue expressar melhor o sentimento da jovem senhora do que por palavras.

Continuando as diferenças do primeiro ato, Hideko é dona de si própria. As suas leituras quase imersivas na sala de leitura do tio são feitas para enganar alguns idiotas dispostos a pagar um preço alto por literatura subversiva. Então a história mostra outra faceta. Para Kouzuki, a sobrinha não é nada mais que um objeto; se preferirem, para fazer um paralelo com a nossa publicidade atual, ela é a modelo seminua sentada numa cadeira para tentar agregar um valor que não existe a um produto. E isso é revoltante e socialmente relevante. Ao contar uma história que envolve submissão – de um país ao outro e de mulheres aos homens –, Chan-wook faz uma alegoria dos problemas que assolam a sociedade oriental. Não que a ocidental seja diferente, mas qualquer um que conhece um pouco mais de mangás, os quadrinhos japoneses, sabe como eles podem ser misóginos quando querem.

Então, de novo por empatia, a nossa direção da raiva muda novamente. Nesse carrossel de emoções – que inclui até mesmo alguns momentos de comédia – A Criada é apaixonante e hipnotizante. Chan-wook e Seo-kyeong souberam como manipular nossas emoções e como nos enganar falando a verdade, algo que podemos constatar mesmo nas narrações off. E uma das contribuições mais importantes foi mudar o estigma de uma produção homoerótica que não feita para agradar exclusivamente o público masculino – mesmo que isso aconteça por consequência – ao sabermos que uma consultora, amiga da roteirista, foi contratada para dar conselhos sobre a sensibilidade de mulheres gays. Pelo seu discurso, posicionamento e além de ser um filme incrível, a produção é referência em vários quesitos e não apenas um conto erótico.

A Criada | Trailer

A Criada | Pôster

A Criada | Cartaz nacional

A Criada | Imagens

A Criada | Galeria

Créditos: Divulgação

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A Criada | Galeria

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A Criada | Sinopse

“Coreia do Sul, anos 1930. Durante a ocupação japonesa, a jovem Sook-hee (Kim Tae-ri) é contratada para trabalhar para uma herdeira nipônica, Hideko (Kim Min-Hee), que leva uma vida isolada ao lado do tio autoritário. Só que Sook-hee guarda um segredo: ela e um vigarista planejam desposar a herdeira, roubar sua fortuna e trancafiá-la em um sanatório. Tudo corre bem com o plano, até que Sook-hee aos poucos começa a compreender as motivações de Hideko”.

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