Com Tadashi Okuno, Rin Takanashi, Denden e Ryo Kase. Roteirizado e dirigido por Abbas Kiarostami (Cópia Fiel).
Para os ocidentais, o Japão pode parecer um país frio, e os relacionamentos acompanham essa visão estreita. Kirostami mostra que não é bem assim no seu filme multicultural “Um Alguém Apaixonado”. Em todo lugar as pessoas sofrem de carência, se apaixonam e buscam o amor. Mas também mentem para manter uma aparência e para tentarem segurar o máximo uma normalidade, e até se enganando. O filme é uma longa e às vezes incômoda reflexão sobre a solidão e o amor, ou pelo menos algo que os personagens acreditam ser.
Com François Cluzet, Omar Sy, Audrey Fleurot, Clotilde Mollet, Alba Gaïa Kraghede Bellugi, Cyril Mendy e Anne Le Ny. Roteirizado e dirigido por Olivier Nakache e Éric Toledano.
É interessante que o nome “Intocáveis” tenha um efeito totalmente oposto na audiência. Quero dizer, é impossível não ficarmos tocados pela história intimista, cheia de esperança e engraçada envolvendo um tetraplégico e seu nada convencional cuidador. Baseado (levemente, como podemos ver nos créditos finais) em uma história real, a dupla de roteiristas/diretores nos trazem um filme que não faz mal a ninguém e que, apesar de começar por causa de dramas pessoais, não se deixa levar por isso. Ao contrário, nos faz rir. E muito.
Com Jean Dujardin, Bérénice Bejo, Uggie, John Goodman e James Cromwell. Escrito e dirigido por Michel Hazanavicius (Agente 117 – Uma Aventura no Cairo).
Não perca este filme de cinema. De verdade, é uma grande homenagem ao cinema. Todo o cuidado com para parecer que foi feito na época, a metalinguagem empregada enquanto vimos filmes dentro do filme e a coragem de fazê-lo mudo e comercial (porque filmes mudos em si não deixaram de ser produzidos), fazem de “O Artista” um dos melhores de 2011. A comédia romântica tem todos as boas peculiaridades de um grande filme, alternando momentos de riso, de doçura e de pequenos dramas, assim como é a vida.
Com Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, e Rufus. Roteiro de Jean-Pierre Jeunet e Guillaume Laurant. Dirigido por Jean-Pierre Jeunet (Alien – A Ressureição).
Existe algum tipo de rejeição ao cinema francês para quem não é apreciador de cinema. Se você é um deles, deve assistir esse filme, pois será um introdução bem mais suave ao cinema daquele país. Mas longe de ser um filme fraco. Uma colagem de comédia e romance fora dos padrões, com cortes acelerados e viagens visuais transformam a personagem em uma heróina, e assim sendo, tem que percorrer o “caminho do herói”. Isso e um pouco mais marcam “O Fabuloso Destino…” como um dos filmes mais divertidos da primeira década do século XXI.
Com Pierre Brasseur, Alida Valli, Juliette Mayniel e Edith Scob. Escrito por Pierre Boileau, Thomas Narcejac, Jean Redon e Claude Sautet. Baseado no romance de Georges Franju. Dirigido por Georges Franju. A obssessão de um cirurgião plástico não conhece limites para reparar o mal que fez à filha. Christiane (Edith) sofreu um acidente de carro, causado pelo pai, e teve o rosto desconfigurado. Agora o Prof. Genessier (Brasseur) vai fazer o que for preciso para dar uma vida normal a filha, custe as vidas que custar.
Um filme de terror com mais de 50 anos não pode perder o carisma. Mas também é preciso que espectador se coloque no lugar da plateia daquela época e não julgue a película com os olhos dos séculos XX e XXI. E você vai sentir isso se assistiu “A Pele que Habito“. Os temas tem uma certa semelhança. Inclusive a primeira cena em que vemos o Prof Genessier claramente inspirou Almodóvar na apresentação do Dr Roberto. Ambos se dirigem à audiência sobre transplantes de rosto, cada um à sua época. Mas as motivações de Genesserier são diferentes. Ele quer fazer o bem e ajudar a sua filha. Mas como qualquer médico insano, não mostra nenhum remorso pelas cobaias. As humanas tem que morrer, e as animais são constantemente operados e vivendo engaiolados.
Com Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner e Max von Sydow. Escrito por Ronald Harwood (O Pianista) e dirigido por Julian Schnabel (Antes que a noite caia). Filme biográfico baseado no livro de mesmo nome escrito por Jean-Dominique Bauby, que depois de acordar de um coma, só pode se comunicar por piscadas de seu olho esquerdo.
O diretor do filme e o de fotografia, Janusz Kaminski, nos mostram literalmente a visão de Jean-Dominique (Amalric) nos primeiros 40 minutos do filme, colocando a câmera na altura de sua cabeça, pendendo um pouco para o lado, embaçando a lente quando chora, e a escurecendo quando pisca. Esse olhar chega a ser claustrofóbico (como estar dentro de um escafandro) e até aterrorizante, em especial quando um médico costura o olho direito de Jean-Dominique; mas é alternada depois, quando o personagem aceita sua situação e decide não sentir pena dele mesmo: só aí nos é mostrado a condição física do personagem. Como uma borboleta, ele sai do casulo. No patamar de histórias de superação, esse filme/livro é obrigatório.
Várias vezes Jean-Dominique expressa a sua condição como se fosse submergido num escafandro antigo e pesado, onde não é possível se movimentar e só seguir com o olhar onde a força da água e do cabo te deixam ir. É injusto isso acontecer com qualquer um. Em uma cena em especial, Jean é cuidado por duas médicas terapeutas, as duas lindas, e ele não muda seu jeito de ser: a primeira coisa que nota são como elas são bonitas, nota as pernas e os decotes delas. E também faz isso com a ex-mulher. Mesmo preso ao próprio corpo (a chamada “síndrome do encarceramento“) e se comunicando apenas com um olho, piscando uma vez para “sim” e duas para “não”, Dominique “ditou” um livro sílaba por sílaba dizendo o que se passa na sua cabeça e a visão que ele tem do mundo agora. A palavra “morte” é citada uma vez, para não aparecer de novo. Tristezas e dificuldades sim, mas com a força de vontade que poucos teriam. Genial, lindo e comovente são poucos os adjetivos para dar à esse filme. Não gosto de fazer comparações, mas “O Escafandro e a Borboleta” é tudo que “Dançando no Escuro” não é!