Com Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland, Samuel Joslin e Oaklee Pendergast. Roteirizado por Sergio G Sánchez (O Orfanato). Dirigido por J A Bayona (O Orfanato).
“O Impossível” é um drama onde Bayona usa todos os artifícios para fazer que o espectador se emocione. Principalmente no campo musical. Se fosse possível, o diretor descascaria cebolas ao vivo. Apesar da muleta emocional, a história baseada em fatos reais é um belo filme. Por ser uma ode à esperança e ao espírito humano, é normal que os personagens apresentados tenham uma leve tendência ao maniqueísmo. Mas assim como os sobreviventes dessa tragédia emergiram de suas situações desesperadoras, Sanchez e Bayona preferem acreditar que o melhor de nós também o faz.
Neste segundo dia, consegui assistir à mais duas produções fora do circuito comercial de Hollywood: o documentário sueco-germano-italiano “Memória dos Bálcãs” e a comédia italiana “Reality”. Eis meus pensamentos sobre as obras:
Como não tive acesso à credenciais ou cortesias, tive visitas bem reduzidas aos filmes da 36ª Mostra Internacional de Cinema. Espero que o pouco que escrever seja suficiente para que vocês apreciam minhas visões do evento.
Com Anthony Hopkins, Jude Law, Rachel Weisz, Ben Foster, Jamel Debbouze, Lucia Siposová, Johannes Krisch, Gabriela Marcinkova, Maria Flor, Dinara Drukarova, Vladimir Vdovichenkov, Marianne Jean-Baptiste, Moritz Bleibtreu e Juliano Cazarré. Roteirizado por Peter Morgan (O Último rei da Escócia) e dirigido por Fernando Meireles (Cidade de Deus).
Estamos todos conectados? De acordo com Frigyes Karinthy, a separação entre um ser humano é outro qualquer envolve, no máximo, seis pessoas. Não importando a posição social ou significância da outra. Baseado em “La Ronde”, uma peça alemã escrita por Arthur Schnitzler, “360” conta várias histórias, sendo difícil definir quem é o protagonista. Meireles se arriscou muito nessa empreitada, e a falta de tempo para contar a história de tantos personagens se tornou perigosa para a compreensão da trama. Existe uma sensação de que as histórias foram mal contadas por causa do tempo relativamente curto de projeção, de menos de 2 horas. O filme conta com personagens com moral duvidosa, até amorais, e outros descartáveis. Esse é um dos pontos fraco do filme, já que não conseguimos nos importar com todos. É difícil contar dos sentimentos que o filme passa sem tocar na personalidade dos personagens e, consequentemente, sem entregar pontos do roteiro. Então essa crítica é mais para quem já viu o filme. Não que as outras não sejam, mas essa mais ainda. Por isso, preparem-se para spoilers. E não se esqueça de participar da promoção que está valendo um par de ingressos para o filme!
Com Sean Penn, Frances McDormand, Judd Hirsch, Eve Hewson, Kerry Condon e David Byrne. Roteirizado por Paolo Sorrentino e Umberto Contarello. Dirigido por Paolo Sorrentino (Il Divo).
“Aqui é o meu lugar” nos traz um Paolo Sorrentino um tanto perdido, um Sean Penn travestido, mas não irreconhecível, um clima muito melancólico, uma história comovente, e com alguns diálogos dignos de nota. Ainda em algum lugar, o filme consegue se transformar de um cenário onde a depressão tomaria conta para virar um road movie. Com personagens secundários tão perdidos quanto certos momentos da direção, a bagunça prejudica o filme, e os seus traços de emoção e o espaço para pequenas doses de comédia tentam equilibrar os erros.
Com Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner e Max von Sydow. Escrito por Ronald Harwood (O Pianista) e dirigido por Julian Schnabel (Antes que a noite caia). Filme biográfico baseado no livro de mesmo nome escrito por Jean-Dominique Bauby, que depois de acordar de um coma, só pode se comunicar por piscadas de seu olho esquerdo.
O diretor do filme e o de fotografia, Janusz Kaminski, nos mostram literalmente a visão de Jean-Dominique (Amalric) nos primeiros 40 minutos do filme, colocando a câmera na altura de sua cabeça, pendendo um pouco para o lado, embaçando a lente quando chora, e a escurecendo quando pisca. Esse olhar chega a ser claustrofóbico (como estar dentro de um escafandro) e até aterrorizante, em especial quando um médico costura o olho direito de Jean-Dominique; mas é alternada depois, quando o personagem aceita sua situação e decide não sentir pena dele mesmo: só aí nos é mostrado a condição física do personagem. Como uma borboleta, ele sai do casulo. No patamar de histórias de superação, esse filme/livro é obrigatório.
Várias vezes Jean-Dominique expressa a sua condição como se fosse submergido num escafandro antigo e pesado, onde não é possível se movimentar e só seguir com o olhar onde a força da água e do cabo te deixam ir. É injusto isso acontecer com qualquer um. Em uma cena em especial, Jean é cuidado por duas médicas terapeutas, as duas lindas, e ele não muda seu jeito de ser: a primeira coisa que nota são como elas são bonitas, nota as pernas e os decotes delas. E também faz isso com a ex-mulher. Mesmo preso ao próprio corpo (a chamada “síndrome do encarceramento“) e se comunicando apenas com um olho, piscando uma vez para “sim” e duas para “não”, Dominique “ditou” um livro sílaba por sílaba dizendo o que se passa na sua cabeça e a visão que ele tem do mundo agora. A palavra “morte” é citada uma vez, para não aparecer de novo. Tristezas e dificuldades sim, mas com a força de vontade que poucos teriam. Genial, lindo e comovente são poucos os adjetivos para dar à esse filme. Não gosto de fazer comparações, mas “O Escafandro e a Borboleta” é tudo que “Dançando no Escuro” não é!
Com Bryce Dallas Howard, Willem Dafoe e Danny Glover. Continuação de Dogville (2003), mostra Grace (Bryce) em 1933 encontrando uma fazenda onde a escravidão dos negros ainda é imposta. Numa jornada idealista, ela decide tomar as rédeas da situação, numa mea culpa, onde todos os brancos são culpados.
Saímos de Dogville, mas o diretor nos mostra o filme do mesmo jeito, como deveria ser: uma encenação quase teatral, sem cenários. Mas, diferente do seu antecessor, onde a situação poderia ser imposta para toda a humanidade, Trier desce toda sua raiva nos EUA. É aí onde o roteiro peca, deixando a universalidade de lado. Trier se colocou como muitos fazem, colocando todos os males do mundo nos EUA, como se outros países (e outras culturas) não usaram do meio da escravidão. Por outro lado, o roteiro e os diálogos são incrivelmente bem escritos. E o ritmo flui bem melhor que o primeiro filme, mas continuo com ressalvas com as divisões de atos que o diretor faz nesse filme (parecido com o que fez em outras películas), porque você sabe que o final chegou. Mas só Manderlay tem esse mal, pelo que vi até agora. E se Dogville tivesse o mesmo ritmo deste filme, passaria de 9,5 para 10. No fim das contas, é um filme ótimo, mas fica um pouco atrás por não nos jogar a responsabilidade, como foi na cidade anterior.
Com Cornelio Wall e Maria Pankratz. Escrito e dirigido por Carlos Reygadas (Batalha no Céu). O filme conta a história de um fazendeiro holandês(?), casado, pai de 6 filhos e muito religioso. Mas entra em conflito consigo mesmo por ter se apaixonado por outra mulher.
Sendo sempre muito sincero, Johan (Wall) nunca escondeu o fato de sua esposa Ester, mas ao mesmo tempo não consegue deixar a amante Marianne: ele ama as duas. Não é uma relação extra-conjugal baseado em sexo. Ele sofre com isso, mas não consegue negar esse amor dúbio. Um drama com toques de lirismo, usa a natureza como ritmo, usando, por exemplo, o um plano sequencia do nascer do sol (na abertura) e do pôr-do-sol (no fim). E junte a isso uma pitada de milagre. Como a maioria das vezes, filmes sem tilha sonora me incomodam um pouco; mas nada que estrague o filme, já que a natureza da conta do recado.