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Boyhood, 2014

Com Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Lorelei Linklater, Ethan Hawke. Escrito e dirigido por Richard Linklater (Antes da Meia-Noite).

10/10 - "tem um Tigre no cinema"O simples fato da dedicação de doze anos de Richard Linklater é motivo suficiente para você assistir Boyhood – Da Infância à Juventude. Um projeto tão especial e tão intimista que fez parte da história da própria família Linklater. É um drama familiar, uma visão sobre a rapidez da vida e da própria condição a quem todos nós estamos presos. Além de belo visualmente, é uma lição de cinema e um filme como poucos, uma obra de arte para ser vista e revista.

A história começa em 2002, focando no então pequeno Mason Evans Jr (Coltrane), na irmã Samantha (Linklater) e na mãe Olivia (Arquette), que cuida dos dois sozinha. Durante as próximas horas veremos Mason crescer, fazer suas descobertas, acertos, erros e amores enquanto se passam doze anos – tempo que o diretor levou para concluir o filme.

O primeiro plano do filme mostra Mason, com 6 anos, encarando o céu enquanto espera a mãe, mostrando o quanto ele é observador. Ao fundo, você pode notar uma faixa com os dizeres “Maio de 2002” e Linklater usa isso para marcar o tempo sem usar o clichê de legendas para marcar a passagem dos anos. Ao invés disso, ele aposta na música – não pela trilha sonora original, praticamente inexistente no filme –, na cultura pop e alguns momentos históricos. Então, na primeira cena ouvimos Yellow (do Coldplay); depois, Samantha fica perturbando o irmão ao cantar uma música de Britney Spears; um pouco depois, mostra a paixão dos dois por Harry Potter; também vemos na televisão episódios de Dragon Ball Z; o pai dos irmãos, Mason Evans, Sr (Hawke) comenta sobre a intervenção militar no Iraque da administração Bush; há uma discussão sobre qual personagem de Clone Wars era melhor (General Grievous ou Yoda); o lançamento do livro Harry Potter e o Príncipe Mestiço e de O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008, Dir Cristopher Nolan) e outros tantos. Nesse ponto, estrutura parece com um Forrest Gump (Forrest Gump, 1996, Dir Robert Zemeckis) dessa geração – não comparando os dois, mas só para entendermos como Linklater resolveu contar essa história.

E esse processo de passagem de tempo funciona também pela fantástica montagem de Sandra Adair. Os cortes são duros, quase impiedosos com o espectador, representando aquela ideia da vida passar num piscar de olhos. Sem nenhum aviso, se passaram 18, 12, 6 meses da vida dos personagens. O salto não é tão grande a ponto de não percebermos que os atores mirins são os mesmos, mas notam-se pequenos detalhes, seja pela mudança de voz de Mason, pela mudança nas formas de Samantha, ou ainda no ganho de peso que Olivia – que tem que cuidar dos filhos enquanto o pai aparece só algumas vezes por ano. É marcante que nos poucos minutos que isso acontece – apesar de quase dois anos se passarem na tela – o diretor já mostrou tudo que precisa. Pronto, a conexão entre personagens está muito estabelecida.

Linklater tem um dom interessante que vemos desde A Trilogia do Antes – Antes do Amanhecer (1995), Antes do Pôr-do-Sol (2004) e Antes da Meia-Noite (2013) – que é entender o ser humano. Aqui, porém, ele vai além por tratar de uma criança, alguém que ele deixou de ser 40 anos atrás, de modo tão doce, tão ligado nas pequenas coisas e experiências, que podem ser dele ou de qualquer pessoa. Há algumas sequências curtas em Mason aprende sobre aspectos da vida e são representados quase pictoricamente: uma olhada num catálogo de lingerie, o primeiro contato com a morte ao ver o esqueleto de um pássaro, a caça às borboletas. São detalhes que podem parecer perdidos ou soltos na narrativa, o que não poderia estar mais errado.

Passar 12 anos em pouco mais de horas e meia tem efeitos conflitantes. Em primeiro lugar, comercialmente falando, pode ser difícil convencer alguém ficar esse tempo no cinema – principalmente hoje em que cinco minutos longe do seu smartphone parece uma tortura. Mas em segundo, é muito pouco tempo para todas as experiências que uma pessoa poderá passar. Mason se apaixona, ganha e perde amigos, teme pela própria segurança quando a mãe ela se casa com uma pessoa que se torna alcóolatra – padrasto que o força a ter uma personalidade que ele não quer, fazendo-o a cortar o cabelo; passa por outros momentos marcantes com o pai que o presenteia com um álbum mix dos Beatles – e a carta que Mason Sr entrega ao filho pode ser lida num artigo do próprio Hawke no Buzzfeed – e a venda do GTO, que, de certa maneira, ensina o protagonista a se desapegar, e tantos outros momentos. Sim, é muita coisa para pouco tempo em filme, o que é uma metáfora para toda vida. Como Olivia diz ao filho – já com 18 anos – prestes a ir para a faculdade, é que ela mal sentiu as mudanças passaram. E Linklater acerta em cheio na representação.

Interessante também como a música presta um papel além de marcar a passagem dos anos. Por não existir uma trilha, o diretor foge de fisgadas artificiais para forçar um sentimento – se você se emociona com o que está acontecendo é pelo que você vê. Enquanto a trilha de Coldplay, Cobra Starship, e Vampire Weekend toma formas diegéticas – alguém cantando, ou uma canção no rádio – a única música realmente composta para o filme é a que Mason Sr canta para seus filhos e que conta um pouco da história dele. E, ainda assim, ela é diegética, por fazer parte daquele momento e ser o próprio pai que canta e toca.

Boyhood | Pôster brasileiro

Boyhood – Da Infância à Juventude é uma experiência fantástica e que deve sim ser vista no cinema. A vida já tem distrações demais fora da sala escura. Cada detalhe deve ser sorvido, apreciado. Além de todos esses momentos que citei cinematograficamente, o filme é uma grande lição que representa metaforicamente a vida. Diferente do cinema, a sua não vai poder ser repetida, a não ser pelas memórias. Então, aproveite o passeio.

Veja o trailer de Boyhood – Da Infância à Juventude

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