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Com Christian Bale, Gary Oldman, Tom Hardy, Anne Hathaway, Marion Cotillard e Morgan Freeman. Roteirizado por Christopher Nolan, Jonathan Nolan e David S. Goyer. Dirigido por Christopher Nolan.

“In Nolan We Trust”. Essa frase foi muito usada na internet para mensurar como estávamos confiantes na conclusão da Trilogia Batman nas mãos de Christopher e Jonathan Nolan e David S. Goyer. Depois de sete anos, chegamos a um belo fim. O filme não é perfeito, mas chega bem perto disso. Não é só um ótimo filme, mas também não deixa ponta soltas, e fecha a trilogia de um jeito que poucas séries desse tipo conseguiram. Todos os atores estão muito bem na produção e a música de Hans Zimmer também encontra seu ciclo. Alguns detalhes fazem que o filme não chegue no mesmo patamar do anterior, mas ele consegue ser um pouco melhor do que “Batman Begins” (de 2005). A única coisa triste é que não veremos mais toda essa gente envolvida para nos brindar com um novo filme.

Nolan faz questão de seguir de onde parou, no funeral de Harvey Dent (Aaron Eckhart), para começar a costurar o seu universo. E não demora para nos apresentar o antagonista do filme. Bane (Hardy) faz um trabalho vocal espetacular (e que você vai perder se optar pela versão dublada) e é ameaçador com sua postura, força física. Numa das melhores cenas de fuga que já vi no cinema, já temos ideia da força do personagem, assim como tivemos ao sermos apresentados ao Coringa (Heath Ledger) no filme anterior.

Depois de oito anos sem a presença de Batman/Bruce Wayne (Bale) no combate ao crime na sociedade de Gotham, ainda temos a presença do Comissário Jim Gordon (Oldman) como um veterano de guerra em tempos de paz. Bruce está aposentado e machucado demais para atuar como Batman, e a cidade parece não precisar dele. A fotografia de Wally Pfister continua sombria, carregada de sombras e com o próprio Bruce envolto nelas. Aliás, o trabalho com a maquiagem pesada e a notória perda de peso do alter-ego de Batman e o seu jeito de vestir (com cores mais pasteis e duras) refletem o interior do personagem. Um Bruce mais lento acaba sendo presa fácil para Selina Kyle (Hathaway), que literalmente passa a perna no nosso querido Homem-Morcego. Aos poucos um plano muito interligado, e até complicado, continua. E só aos poucos vamos entender o que se passa. Alfred (Caine) ainda é a família de Bruce, que insiste que ele deixe de lado de vez o manto. Mas a presença de Bane em Gotham e com Gordon fora da jogada, Batman precisa renascer. E para isso, precisamos de um outro gênio. Não é à toa que a primeira vez que vemos Lucius Fox (Freeman) a fotografia muda, dando espaço a um ambiente mais iluminado,  sendo o mais sábio do filme. Ele nunca parou de trabalhar, mesmo com a divisão apresentada nos filmes anteriores não existir mais no papel.  Continuando no rol de personagens que tiram Batman da aposentadoria, conhecemos Blake (Gordon-Levitt) que é um policial com tino de detetive que já há algum tempo descobriu que Bruce e Batman são a mesma pessoa. Pra completar o elenco principal, Miranda Tate (Cotillard) é uma mulher de negócios de visão, e engajada com a salvação do planeta, que crê numa sociedade que esteja ligada ao consumo sustentável. O rol inflado de personagens dá a sensação que o filme será apertado. E é o que acontece. Apesar do filme ter 2h45, a psique de cada um dos personagens fica um tanto de lado para que a história possa fluir. A montagem de Lee Smith ajuda muito nesse processo. Sentimos a correria mas o profissional consegue fazer o filme fluir para que os pulos entre um momento e outro não incomodem. Sim, o filme precisava ser mais longo. Eu até gostaria que ele entrasse na moda de ser dividido em duas partes.

É importante assistir os filmes anteriores antes de entrar na sessão de “Ressurge”. Os irmãos Nolan e Goyer costuram esse universo de um jeito que faz a trilogia ser um grande filme de 7 horas, por mais que exista um tempo considerável, dentro do universo do filme, entre eles. O cuidado também vem das pequenas coisas. Vemos que o batsinal que Gordon destruiu no filme anterior ainda existe, mas está enferrujado, como o próprio Bruce. As notas que abrem a porta para a caverna mudaram, e abrem do outro lado. O fato de que Bruce é o único sem máscaras no baile de máscaras quando vai atrás da gatuna Selina. Essa última é de marca pois já disseram uma vez que “não é Bruce Wayne que veste a máscara de Batman, e sim Batman que veste a máscara de Bruce Wayne” (só queria me lembrar quem disse isso). A cena também faz contraste direto com outra mais pra frente com Miranda. Ambas são interesse romântico de Bruce, mas notem que ao fundo da dança entre Bruce e Selina pétalas de rosa, que são um símbolo básico de amor, caem ao redor. Na outra cena, Bruce e Miranda protagonizam uma cena de sexo (tudo sugerido, por causa da censura PG-13), o ambiente é iluminado por uma lareira, e o fogo representa mais a paixão. Talvez por esse ambiente que entorpece, Bruce não nota um detalhe importante em Miranda… E as pequenas homenagens aos quadrinhos, para fãs como eu, também estão lá, mas não interferem na compreensão da história para quem não é. Citações ao Cavaleiro das Trevas (de 1986) com alguém dizendo que Bruce pode ter se acidentado num acidente de carro foi mais evocativa para mim.

É impossível não abrir um espaço para falar de Bane. Além de sua entrada triunfal nos primeiros minutos de filme, Nolan o torna uma figura ameaçadora (apesar de ser mais baixo que Bale), com sua postura, as roupas que usa (não posso dizer com certeza, mas parece que os figurinistas escolheram roupas dois números menores do que o manequim do ator), ao mostrá-lo sempre num patamar acima (com a câmera que o filmando de baixo pra cima constantemente), ou ocupando toda a tela com sua máscara com mandíbulas  gigerianas. Enquanto Bane e Batman se enfrentam pela primeira vez esses elementos atingem seu clímax. As cenas ficam sem música, só com sons ambientes, e em determinada parte, o som fica abafado, como se os sentidos de Batman fossem diminuindo.

A Mulher-Gato (que nunca é chamada assim no filme) tem seu papel de destaque também. Sim, colocaram Anne Hatahway  também como eye candy em determinada cena em que o traseiro dela ocupa uma boa parte na tela, mas ela consegue ser mais que isso.

Outros detalhes interessantes são como o comissário Gordon se veste bem apesar do ambiente estar perdido; ou a decisão de não mostrar uma certa morte de um personagem que criamos asco, mas que sua coragem muda a nossa visão. E o hino à bandeira, na cena do jogo de futebol, como prelúdio à tragédia, com seus versos cantados à medida que entendemos o plano de Bane é uma bela poesia visual.

“Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” é uma conclusão digna para uma história que começou praticamente no boca-a-boca em 2005. E a partir daqui comento o filme com spoilers até o fim! Falei antes da escolha de certas frases que suportam que Nolan já tinha intenções de contar a sua história em mais de uma parte. Por exemplo, Ra’s Al Ghul (Liam Neeson) no primeiro filme diz que a mulher e o filho foram tirados dele. Em inglês ele usa a palavra child que pode ser tanto filho ou filha. Se ele usasse a palavra “filha” nunca teríamos a dúvida de quem seria a criança de Ra’s: Bane ou Talia/Miranda. O filme aposta pouco  no emocional, mas a despedida de Alfred tem uma carga muito grande, pois nesse momento que Bruce perde seu melhor amigo e conselheiro, quase o norte. Sozinho, ele comete vários erros, que culminam no confronto com Bane e a lesão que o vilão causa. A destruição da alma e corpo de Bruce é bem elaborada, mas na prisão em que Bruce se recupera (apesar de ser uma recuperação bem rápida, considerando o que aconteceu com a coluna e a perna de Bruce), e que foi também a mesma que Bane também estava, o vilão mascarado não sabia que o nascimento de Batman foi num momento parecido, onde o jovem Bruce subiu das sombras da caverna para a luz.

A correria do filme é percebida principalmente quando acontece a desmontagem da bomba, na recuperação e na volta de Bruce para Gotham. Aliás, faltou explicar como ele passou dos bloqueios militares. Nem me importa a questão financeira, pois acredito que uma pessoa preparada teria vários depósitos ao redor do planeta para eventuais problemas. Outra questão é a traição de Miranda/Talia. Apesar dela saber de muita coisa, não me parece plausível ela saber de tudo. Como, por exemplo, da localização do arsenal de Batman. Voltando ao próprio universo que Nolan criou, em “O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight) temos a fala de Lucius Fox, que diz que a nova armadura será mais vulnerável à facas e que pode funcionar contra gatos. E foi uma boa subversão de Miranda/Talia pra quem não lê os quadrinhos, porque a cena com a marca que ela tem nas costas é bem sutil. Além de, claro, a presença de Dr Crane como juíz do mundo kafkiano da nova Gotham.

E o final… talvez o filme devesse acabar com apenas com a possibilidade de Bruce estar vivo (já que o Morcego já tinha sido atualizado com o firmware do piloto automático), a descoberta de Blake/Robin da caverna e com Alfred olhando para a tela. Mas o que Nolan nos deu foi muito mais. Agora se isso é bom ou ruim fica por conta de vocês. Quem conhece o diretor, sabe que esse é o final “A Origem” (Inception) de Batman. Muito vai se falar da veracidade da cena. E no fim, “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” não só é um bom filme, mas um que não deixa ponta soltas, e ainda dá espaço para uma continuação fora do universo que o diretor criou. Sem Nolans, sem Bale, mas tudo é possível. É só ter coragem.

[EDIT 04/ago] Depois de uns dias pensando, e a minha fé em Nolan de não se repetir em fórmulas, digo: em “Ressurge”, o pião cai 🙂

[ouça também]
TigreCast #003 – Batman Ends – Obrigado, Nolan!

 

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