0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Filament.io 0 Flares ×

Com Sean Penn, Frances McDormand, Judd Hirsch, Eve Hewson, Kerry Condon e David Byrne. Roteirizado por Paolo Sorrentino e Umberto Contarello. Dirigido por Paolo Sorrentino (Il Divo).

“Aqui é o meu lugar” nos traz um Paolo Sorrentino um tanto perdido, um Sean Penn travestido, mas não irreconhecível, um clima muito melancólico, uma história comovente,  e com alguns diálogos dignos de nota. Ainda em algum lugar, o filme consegue se transformar de um cenário onde a depressão tomaria conta para virar um road movie. Com personagens secundários tão perdidos quanto certos momentos da direção, a bagunça prejudica o filme, e  os seus traços de emoção e o espaço para pequenas doses de comédia tentam equilibrar os erros.

Assim como o simpático cachorro que aparece preso à um daqueles abajures na primeira cena do filme, Cheyenne (Penn), um rockstar decadente, num visual Glam Rock, misto de Robert Smith e Alice Cooper, está preso ao passado. O visual ultrapassado e o trabalho vocal de Penn reforçam esse peso que Cheyenne carrega; o personagem parece sempre estar muito cansado (algo que se perderá se alguém se atrever a assistir dublado). Ele é casado com Jane (McDormand), ainda apaixonada e que gosta de cuidar do marido, e tem uma relação fraternal com Mary (Hewson). Cheyenne ainda tenta juntar Mary com um admirador que, como ele diz, é triste como ela é e que talvez “tristeza não combine com tristeza”. A mãe de Mary (Olwen Fouéré) culpa Cheyenne pelo desaparecimento de seu outro filho, Tony. Todos esses personagens muito tristes, onde só Jane consegue se sentir feliz, dão um clima pesado ao filme. Para completar, Cheyenne recebe a notícia que o pai, que não o vê há 30 anos, está à beira da morte. É interessante notar que na cena em que Cheyenne recebe a notícia, o diretor usou um antiquado telefone, vermelho, e a tensão daquela situação é representada pelo esticamento do fio do telefone. Também não posso deixar de apontar que Cheyenne não parece diferenciar felicidade da tristeza, já que os sons que ele faz tanto no riso e choro são parecidos. Essa colcha de retalhos toda que o Sorrentino cria acaba sendo esquecida depois. Afinal de contas, quem é Tony? Mary e o admirador vão ficar juntos? Cheyenne  vai aceitar o cargo de produção da banda “Pieces of Shit”? Essas questões não importam depois de um tempo. Esse é o grande defeito do filme.

A participação de David Byrne serve de interlúdio para o próximo ato. A cena onde Cheyenne admite o brilhantismo do ex-líder dos The Talking Heads e a dor e culpa que sente por achar co-responsável pelo suicídio de dois fãs justifica, pelo menos em parte, o motivo de Cheyenne ter ficado parado nos anos de sua glória (ainda usando o mesmo visual). Aí que a projeção vira um road movie. Na busca pelo torturador que foi o algoz do pai durante a 2ª Guerra Mundial, o diretor coloca Cheyenne num cenário estranho. Os encontros que tem durante essa viagem são um reforço para essa estranheza: um tatuador, um índio, uma senhora que mora numa “casa de bonecas”, um encontro com um “Batman”… De novo, a colcha de retalhos que Sorrentino resolve repetir na vida de Cheyenne e outras cenas que parecem que foram feitas só pra aumentar o tempo do filme, (por exemplo, quando um fã reconhece Cheyenne de longe), fazem o filme perder o brilho. Nem mesmo a redenção do personagem ajuda na evolução do trama. Por que o elemento do cigarro serviria de amadurecimento, se ele já experimentou tantas drogas?

“Aqui é o meu lugar” tem várias pontas soltas. Sorrentino e Contarello tentam criar um atmosfera de uma carga dramática muito grande, envolvendo várias histórias, mas não conseguem segurar o interesse, assim como nos personagens secundários.

O diretor tem decisões interessantes, por exemplo, ao usar espaços abertos, reforçando o isolamento de Cheyenne, mas ao mesmo tempo fechando o personagem dentro de quadros mais apertados. Mas também faz mal uso de outras decisões: por exemplo, usa e abusa de um elemento básico de tragédias, que é a cor vermelha, e na hora de usar um contra-plongé representando a vida de Cheyenne. Mas ambos motivos visuais ficam sem justificativa na tela. Sorrentino colocou esse número de elementos perdidos para reforçar a própria perdição do personagem. Mas acaba faltando alguma linha para costurar os elementos, o que é frustrante.

[Veja no Facebook do blog a galeria do filme]

 

Volte para a HOME