0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Filament.io 0 Flares ×

Com Leila Hatami, Peyman Moaadi, Shahab Hosseini, Sareh Bayat e Sarina Farhadi. Roteiro e Direção de Asghar Farhadi.

Sempre tive dificuldades com o cinema iraniano: pela cultura e principalmente pela língua. E os (poucos) temas que vi anteriormente nunca me chamaram a  atenção para me fazer ir atrás de outros filmes. “A Separação” não muda essas questões, mas se sai agradavelmente bem ao tratar do tema do divórcio (tão comum para os ocidentais) na cultura patriarcal do Irã. A tradução literal do filme é “A Separação de Náder de Simin”, e todo o filme roda em volta desse fato, passando por momentos tristes, de dúvidas e tragédias. A discussão de até onde a decisão de duas pessoas pode afetar a vida de tantas outras se mistura com o papel do homem e da mulher no Irã moderno. E isso nos traz um história sensível e com vários pontos de vista sobre o que é justo. Uma bela obra, que ganhou o Oscar 2012 de melhor filme estrangeiro.

Conhecemos Náder (Moaadi) e Simin (Leila) já diante de um juiz. Ela quer o divórcio, mas o marido nega, e o juiz lhe dá razão, porque pelas leis iranianas, a separação deve ser de acordo mútuo. Simin tentou convencer Náder a ir para o exterior com a filha, porque acredita que a filha terá uma vida melhor fora do Irã, só para ouvir a pergunta de um juiz sem rosto que indaga “porque acha que ela estaria melhor no exterior?” Essa cena é bem sutil, mas está implícita a visão que o diretor tem sobre o atual regime de Mahmoud Ahmadinejad e dos aiatolás. Ademais, é óbvio o apoio à Náder por ele ser homem. Mas ele também tem um bom motivo para não ir: seu pai sofre de Alzheimer. Simin argumenta logicamente dizendo que o pai nem o reconhece, mas isso não importa para Náder, porque sabe que é seu pai. Uma  discussão razão contra sentimento que faz com que Simin saia de casa, deixando a filha Termeh (Sarina) com o Náder. A partir daí, o diretor Farhadi deixará várias vezes os dois separados nas cenas, praticamente em cômodos diferentes, até mesmo quando estão se falando.

É interessante notar que existem outras separações no filme. Uma delas é a própria doença do pai de Náder, já que a doença está separando o senhor da sua família e da própria realidade. Para cuidar do pai, Náder contrata Razieh (Sareh), uma moradora do subúrbio de Teerã e devota à Alá. O velho senhor requer cuidados como os de uma criança; ele só chama pelo nome de Simin (como se a visse na figura de uma mãe), e faz a mesma pergunta sobre o respirador que a filhinha de Razieh também faz. Nesse ponto, o filme dá pequenos cortes de cenas que sabidamente vão te deixar curioso porque não haver uma montagem lógica das cenas. Note, você deve ter guardado esse pensamento com você. O destino de todos os personagens envolvidos pela separação do casal trará dor, sofrimento e dúvidas. Os personagens tratam de nos guiar pela narrativa na sua própria visão. Razieh em determinado momento some do filme, mas isso só acontece porque a personagem não quer discutir com estranhos o que lhe aconteceu. E a câmera (nós espectadores), somos estranhos para ela.

Então, começamos a ver os personagens em seus extremos, pela tragédia que ocorre com a separação de Razieh, que perde o filho que está esperando por causa da discussão que teve com Náder, porque ela, nesse “sumiço” deixou o pai doente sem cuidados.  Conhecemos Houjat (Hosseini), marido de Razieh que é visto sempre como um homem explosivo e desesperado. Ele é quase a antítese de Náder, mais centrado e menos impulsivo. Mas como mensurar a dor de um homem que perdeu um filho, tem problemas financeiros e se sentiu traído pela mulher, que foi trabalhar na casa de um homem separado (mais uma vez o estado patriarcal islâmico). Houjat também mostra traços de ser um homem perigoso, chegando ao ponto de ameaçar e perseguir Termeh. E apesar de Náder se mostrar mais amoroso e calmo (ele pede em certa altura do filme que Houjat não seja preso) ele é um homem que foge da responsabilidade. No começo do filme ele diz para Simin “Se você quiser ir, vá. Eu não vou impedi-la”; e depois para a filha “Se você quiser que eu assuma a responsabilidade, assumirei” e “Se você quiser que eu volte com a sua mãe, traga-a de volta para casa”. “A Separação” tem na devoção religiosa uma grande contraponto. Simin e Nardé vivem com mais conforto em Teerã, e não mostram ter alguma espiritualidade. Mas Razieh e Houjat, os mais humildes, se preocupam com isso. E Náder usa disso de uma maneira inesperada em seu favor. Essa é a outra separação do filme, talvez menos importante, mas digna de ser anotada.

Além do roteiro belíssimo, o filme conta com outros detalhes nos sons (no tribunal, apertado e cheio de falatório), em cenas como quando Simin e Nádir vão encontrar a família de Razieh no hospital (eles tem que descer alguns andares, mostrando um sentimento de culpa ainda não admitido), as movimentações da câmera sempre trêmulas (como se estivéssemos sempre presentes) e a longa e poética cena final, em que os dois estão, finalmente, separados.

Volte para a HOME