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"Zero Dark Thirty", 2012

Com Jessica Chastain, Jason Clarke, Joel Edgerton, Mark Strong, Jennifer Ehle, Kyle Chandler e James Gandolfini. Roteirizado por Mark Boal. Dirigido por Kathryn Bigelow (Guerra ao Terror).

9/10 - "tem um Tigre no cinema"Acredito que nos apaixonamos pelos detalhes. Não nos interessamos por todos os assuntos do mundo, mas quando gostamos de algo, queremos apenas saber além do superficial. É por isso que vários cinéfilos apreciam os extras quando compram ou alugam filmes, ou quando gostamos de um livro e queremos saber mais do autor, seu processo criativo, e o que mais escreveu. E quando Osama bin Laden foi morto, queríamos saber como foi, se era verdade ou não. Mais uma vez trazendo um drama de guerra recente, a diretora Kathryn Bigelow, de “Guerra ao Terror” (The Hurt Locker, 2010), mostra um filme com várias qualidades: intensidade, drama e questionamentos fazem parte de uma direção competente dessa história que tantos ansiavam por conhecer e discutir.

O início de “A Hora Mais Escura” é pesado e tem uma carga emocional fortíssima, pelo menos para quem viveu aqueles momentos terríveis em 11 de setembro de 2001. Gravações reais dos pedidos de emergência que o 911 recebeu no dia tocam por alguns minutos, e só vemos a tela preta enquanto somos inundados por gritos e choros.

Avançando para 2003, nos deparamos com uma cena de tortura propositadamente longa para ser mais incômoda. Um homem, ou o que sobrou dele, aparece nas sombras com várias marcas de espancamento. Maya (Chastain) acompanha o trabalho de Dan (Clarke) e seus comandados que tentam arrancar informações desse homem que tem ligação comprovada com terroristas. Recém-chegada de Washington, Maya desvia o olhar por vezes da humilhação de Amman, mas não mostra fraqueza ou mesmo piedade com o árabe. A rotina acaba por quebrar o prisioneiro, que revela um nome importante para os seus algozes: “Abu Ahmed”, um nome de guerra, é dito por várias outras fontes como o mensageiro pessoal de bin Laden, e por isso vira uma obsessão para Maya. Ela acredita que Ahmed é a chave para a captura do líder terrorista.

Ao invés de transformar a caçada em filme de ação, a diretora foca no começo da investigação, quando esses fatos apareceram e divide a história em quatro capítulos, ou partes de um relatório: “Abu Ahmed, “Erro Humano”, “Especialistas” e “Buchas de Canhão”. Ela também dá força e perseverança à personagem Maya que, diga-se de passagem, pode nem ter existido. O roteirista Mark Boal diz que sim, enquanto um ex-oficial da CIA diz o contrário. Porém, ela é uma personagem interessante, podendo ser uma mescla personas. Essa força faz a personagem ir atrás de pistas, e fazer várias viagens por trás de ação. A princípio, parece que Maya é a única interessada nessa pista aparentemente importante, mas ela é delegada a essa tarefa pelo diretor da CIA em Islamabad Joseph Bradley (Chandler). Mas a busca vira uma obsessão, porque os prisioneiros que sabem de alguma coisa fazem questão de desviar o assunto, mostrando para a agente que Ahmed é alguém importante.

A diretora mostra que Maya vai aos poucos mostrando naturalidade com o cenário que está, ao ponto de mostrá-la menos incomodada com a tortura, e depois em outra cena ela está enquadrada pela câmera comendo e combinando um encontro com uma amiga enquanto no fundo é transmitido um ataque aéreo por meio de satélite. Mais um dia normal na vida de um agente da CIA. Também é interessante que Bigelow faça Maya se disfarçar, de um jeito bem simples, com uma peruca preta cobrindo seus fios ruivos para que ela se torne sombria, mas ainda identificável para a audiência. Por outro lado, Dan se cansa da rotina de torturar e deixa a colega.

O filme todo é uma preparação para a caçada final do líder da Al-Qaeda, e por esse motivo ele empaca. Demasiadamente longa, a produção se arrasta no momento que poderia ser mais dinâmico. A perseguição que acontece em um mercado de rua e os dias pré-ataque são dotados de um marasmo quase sonolento. Esse é o único porém da produção. Bigelow justifica a veracidade do seu filme durante, e não em cenas pós-créditos, como é comum nas produções atuais. Em dois momentos ela insere vídeos que foram divulgados na época: o de um ataque de extremista a um hotel de estrangeiros, e uma entrevista do recém-eleito Barack Obama dizendo que “os EUA não torturam”. Basicamente, chamaram o presidente de mentiroso.

Cito muito o trabalho de direção porque ele é digno de elogios. Bigelow usa tomadas que só por serem mostradas, e não explicadas, dão mais crédito à sua carreira. Quando o diretor Bradley tem que ir embora do país por problemas que põem em risco sua vida, ele simplesmente se vira sem se despedir e não os vemos mais na projeção. A força que ela dá às mulheres também é bem-vinda nesse mundo dominado por homens. E a sequencia final propositadamente escura é uma ótima imersão nos eventos. É admirável, pois a diretora mostra que era uma situação difícil, que tudo ainda não é claro para nós, além de mostrar Laden sem muita definição (como se fosse uma coisa). Ela conta na tela que talvez nunca saibamos toda a verdade.

"A Hora Mais Escura" - poster nacional

Agora o ponto principal que levantou polêmica. “A Hora Mais Escura” endossa ou não a tortura? Uma dos pontos fortes do roteiro é mostrar fatos (ou supostamente fatos). Existe uma oposição óbvia entre as administrações Bush e Obama no cenário que Maya e os outros têm que convencer o agente Leon Panneta (Gandolfini) que Osama está no lugar que ela indicou. Em conversas de corredores, outro analista diz que não pode autorizar a missão sem provas mais sólidas, e que se preocupa pela informação ter aparecido anos antes e por meio de tortura. Mas pergunta qual seria o plano se a ação fosse autorizada pelo presidente. Diante do que é apresentado em tela, digo que o filme não encoraja a tortura, mas admite que por causa dela o caso foi fechado. E informar é diferente de concordar.

E seria pedir muito comentar e compartilhar? 😀

No Oscar 2013, “A Hora Mais Escura” concorre nas categorias de Melhor Filme, Melhor Atriz (Jessica Chastain), Melhor Roteiro Original (Mark Boal), Melhor Edição de Som (Paul N. J. Ottosson), e Melhor Edição (Dylan Tichenor e William Goldenberg). 

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